Entrevista: Gerson, o Canhotinha de Ouro, sincerão no niver de 85 anos

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Gerson, o Canhotinha de Ouro, é comentarista da Rádio Tupi no Rio de Janeiro. Arte: Kleber Sales/DA. Press

Não importa se você acessou 2026 com o pé esquerdo ou direito. Deixemos as diferenças políticas e ideológicas no chinelo para celebrar um dos maiores jogadores da história do futebol. Filho de dona Deolinda e seu Clóvis, Gerson de Oliveira Nunes, o Gerson, Canhotinha de Ouro, o cérebro da melhor seleção da história da Copa do Mundo na conquista do tricampeonato em 1970, no México, faz 85 anos neste 11 de janeiro (leia entrevista com ele no fim deste texto).

Natural de Niterói (RJ), Gerson transcende o futebol, “tá cerrrrrto”? Virou personagem literário “toda vida”. Bordões de um comentarista ácido com as palavras nas críticas aos “pernas de pau” do nosso tempo na rádio Tupi do Rio de Janeiro, empresa do Grupo Diários Associados; e dócil no trato com a melhor amiga: bola.

Poucos, para não dizer quase ninguém, tratam a protagonista do esporte mais popular do mundo com tanto carinho. Gerson aparentava ter uma fita métrica ou uma trena nos pés a cada passe ou lançamento em profundidade, contariam vovôs e vovós que o viram jogar. Na linguagem de hoje, os netos substituíram objetos analógicos pelo digital GPS ao defini-lo.

Moderno, o Canhotinha de Ouro tinha atributos de camisa 5, 8 e 10. Foi antes de Pirlo, Xavi, Iniesta, Kroos, Modric, De Bruyne ou Rodri serem. Dominou o setor pensante com as camisas do Brasil, Botafogo, Flamengo, Fluminense e São Paulo. Daí a defesa veemente à alma de um time de futebol: “Quem ganha jogo é o meio de campo”.

O discurso para ensinar quem insiste em discordar está na ponta da língua de quem deixou adversários aos seus pés, principalmente nos seis jogos da campanha do tri na Copa de 1970 contra Tchecoslováquia, Inglaterra, Romênia, Peru, Uruguai e Itália no concerto final, a goleada por 4 x 1 contra a Squadra Azzurra no Estádio Azteca, na Cidade do México. “Futebol não é força, é cabeça”, prega o maestro da orquestra de Mário Jorge Lobo Zagallo.

O êxito na carreira foi determinado por um fundamento esquecido das escolinhas às universidades da bola por professores e alunos, técnicos e jogadores. “Passe é a essência do futebol”. Para se ter uma ideia, o “Prêmio Gerson” do Brasileirão 2025 deveria ser dado a Léo Pereira. O beque do Flamengo teve o maior acerto da Série A: média de 94%. O zagueiro Freytes, do Fluminense, e Marlon Freitas, ex-Botafogo, dominaram no quesito lançamentos, as chamadas bolas longas na terminologia adaptada para o futebol pós-moderno.

Não é fácil definir Gerson. O tributo demanda auxílios luxuosos. O escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) referiu-se assim ao craque em uma das crônicas eternas. “Gerson jogava de cabeça erguida porque usava a cabeça”. Em outro conceito, descreveu a essência do fora de série: “Gerson humilhava o adversário não com dribles, mas com inteligência. Mandava sem gritar. Bastava um passe”, resumiu o escriba.

O jornalista Armando Nogueira (1917-2010) era outro intérprete literário do poeta a ponto de compará-lo a um cartógrafo. Na linguagem do nosso tempo, uma espécie de “google maps” da bola. “Gerson tinha visão panorâmica. Jogava com o mapa do campo na cabeça”.

João Saldanha (1917-1990) viu dois “Gersons”. Criticou o meia no papel de cronista esportivo e comandou o craque na função de técnico. Daí uma das frases célebres sobre o metrônomo do futebol. “Gérson não era lento. O jogo é que ficava rápido quando a bola saía do pé dele”, discursou João Sem Medo, um dos comentaristas de língua ferina nas tribunas.

Intelectuais como Ruy Castro se renderam ao dono da camisa 8 na Copa de 1970. “Gerson provava que o brasileiro também ganhava jogo pensando”, opinou. Para outro gênio, Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, um dos parceiros do meia, Gerson foi o jogador que organizou o talento da Seleção na campanha do tri, controlando o tempo do jogo.

Edson Arantes do Nascimento (1940-2022) desceu do trono para reverenciar a majestade Gerson. “Ele fazia o jogo ficar fácil. Um dos melhores passadores que vi jogar. A Seleção (de 1970) tinha muitos craques, mas alguém precisava organizar, e esse alguém era o Gerson”, admitiu Pelé, com o aval de Zagallo (1931-2024): “Com Gerson havia equilíbrio”.

Um dos reconhecimentos à relevância de Gerson foi para o papel na crônica “Momentos de eternidade”, publicada por Nelson Rodrigues em O Globo no dia 4 de junho de 1970. “(…) No México, fizemos jogadas que foram, para o futebol mundial, momentos de eternidade. E Gerson? Quanta gente o negou? Quanta gente disse e repetiu: — ‘Não tem sangue! Não tem coragem!’. O vampiro de Dusseldorf, que era especialista em sangue, se provasse o sangue de Gerson, havia de piscar o olho: — ‘Sangue do puro, do legítimo, do escocês’. Impôs-se como a maior figura. Seus passes saíam límpidos, exatos, macios. Em momento nenhum deixou de ser um virtuose, um estilista”, disse o inspirador do título da nossa homenagem.

Gerson comemora os 85 anos em família. Na última sexta-feira, o Canhotinha de Ouro conversou com o blog de Nova Friburgo (RJ), Região Serrana do Rio de Janeiro, onde passa o fim de semana. Emocionado, ele revela no bate-papo a seguir qual presente pediria aos deuses da bola neste 11 de janeiro de 2026 e explica — sendo Gerson — o motivo.

🎙️Entrevista/Gerson

MPL – O senhor faz 85 anos hoje. Qual é o maior presente que a vida lhe deu? Por falar nisso, qual presente gostaria de pedir aos deuses da bola neste 11 de janeiro de 2026?

Gerson — Meu maior presente é a família. Eu pediria aos deuses que eu pudesse voltar a jogar. Hoje, é uma facilidade tremenda. Qualquer um joga, mas jogar, mesmo, é outra história.

MPL – Quem foi (ou foram) os maiores parceiros em campo?

Gerson — Tive grandes parceiros no meio de campo. Eles facilitaram a minha carreira. Tive Careca e Malula no Canto do Rio. Peguei Dequinha e Carlinhos no Flamengo. No Botafogo, Alfonsinho, Élton Fensterseifer, Nei Conceição e Carlos Roberto. No São Paulo, Roberto Dias e Édson Cegonha. No Fluminense, Kléber, Pintinho e Denílson. Na Seleção, Zito, Didi, Dino Sani, Clodoaldo e Piazza. Hoje, não tem igual nem parecido com esses todos.

Gerson, o dono do meio de campo do Brasil na conquista do tri em 1970. Foto: CBF

MPL –  Como o Gerson conseguiu ser, em um só jogador, camisa 5, 8 e 10?

Gerson — Eu era 8 e 10. Cinco eu fazia de vez em quando. Antigamente, era 4-2-4. O único que jogava 4-3-3 era o Botafogo do Zagallo. Eu fui 8 por onde passei e no São Paulo eu era o 10. Quando saí, o Pedro Rocha passou a ser o 10.

Eu pediria aos deuses que eu pudesse voltar a jogar. Hoje, é uma facilidade tremenda. Qualquer um joga, mas jogar, mesmo, é outra história

MPL – Algum jogador tem essa característica hoje?

Gerson — De vez em quando aparece um. Esse Marlon Freitas faz lançamentos muito bem. Hoje em dia isso não é mais uma especialidade. Eu treinava para fazer isso. Eu colocava uma baliza de saltos na meia-lua e ficava na intermediária tentando colocar a bola debaixo da baliza. Isso virava jogada. O quarto zagueiro saía e eu lançava naquele espaço. Fiz isso com o Jairzinho na Copa de 1970. Ele fez aquele gol que deu chapéu no goleiro (assista ao vídeo do gol).

MPL –  Quem é o melhor meia do mundo?

Gerson — Para mim, o Vitinha, português do Paris Saint-Germain.

MPL — Carlo Ancelotti jogou na sua posição e tem um problemão nas mãos a cinco meses da Copa: como resolver o meio de campo da Seleção?

Gerson — Há muita troca. O Paquetá foi cabeça de área, segundo e terceiro homem. Neymar e outros trezentos… Gerson, para mim, poderia ser o armador, mas não se resolve. Até hoje não temos o meio de campo definido. Ele está colocando os mais antigos. Alguns estariam até fora se fosse outro treinador. O Casemiro é o homem de confiança dele. Bruno Guimarães… São bons jogadores atuando em times de alto nível. É válido. Vamos ver na hora da Copa.

Eu colocava uma baliza de saltos na meia-lua e ficava na intermediária tentando colocar a bola debaixo da baliza. Isso virava jogada. O quarto zagueiro saía e eu lançava naquele espaço. Fiz isso com o Jairzinho na Copa de 1970. Ele fez aquele gol que deu chapéu no goleiro

MPL — A Seleção de 1970 ostentava 5 camisas 10. Por que não temos mais nenhum hoje?

Gerson — É difícil responder isso. Parte dessa culpa é da base. Há muita correria. O futebol nunca foi isso. Antes, o principal era a técnica e a Europa privilegiava a força. Eles começaram a contratar sul-americanos e africanos para ter um pouco mais de técnica. Aqui nós perdemos a técnica e entramos na força física. Estamos em um desespero danado. Antes, dávamos um grito nas Eliminatórias e vencíamos por 2 x 0. Hoje, a gente grita e eles berram mais alto do que a gente. Somos técnica com bom condicionamento físico. Quem é o nosso 10 hoje? Neymar? Está inteiro? Vai estar 100%? Não acredito. Mas se estiver 60% vai jogar porque tecnicamente ele é muito bom. Agora, qual é o outro? Vini? Raphinha? Tá difícil.

MPL — O que diria a uma criança que está iniciando a carreira no meio de campo na base? E ao professor dos meninos na escolinha?

Gerson — Dedicação em campo e estudo fora dele. Quando a carreira terminar você tem como se sustentar. Se o professor mandar fazer algo difícil nas quatro linhas, argumente com ele. Aos professores de escolinha, um alerta: nunca se estresse com um menino. Não gritem, não xinguem, não passem do limite. Fui orientado assim e valeu 1.000% para minha carreira.

Craque no passe, nos lançamentos e na marcação contra a Itália na final de 1970. Foto: CBF

MPL — O que aquela camisa 8 da Seleção na Copa de 1970 significou na sua vida?

Gerson — Herdei aquela camisa 8 do Didi e até hoje eu a tenho em casa guardada com muita honra.

Até hoje não temos o meio de campo definido. Ele está colocando os mais antigos. Alguns estariam até fora se fosse outro treinador. O Casemiro é o homem de confiança dele. Bruno Guimarães… São bons jogadores atuando em times de alto nível. É válido. Vamos ver na hora da Copa

MPL — Faltou ser técnico na sua carreira ou o senhor foi um técnico dentro das quatro linhas e jamais quis ter a experiência de ser treinador à beira do campo?

Gerson — Nunca foi a minha praia. Eu sempre quis ser o que sou: radialista. Falar sobre futebol e passar aos ouvintes o pouco que aprendi e fiz com os mestres. Ser treinador nunca gostei.

MPL — Abaixo a “Lei de Gerson”?

Gerson — Todo mundo sabia que eu fumava. Parei há 50 anos. Fiz a propaganda (da Vila Rica) depois que parei. O cigarro da propaganda era mais barato do que os outros. A vantagem era essa. É como no mercado. O preço é mais alto em um e baixo no outro. Você vai no barato ou no caro? Era isso, mas um monte de imbecil levou para o lado pejorativo de passar a perna nos outros. Não me afetou porque todos sabem quem sou e a vida que sempre levei.

X: @marcospaulolima

Instagram: @marcospaulolima.jor

Marcos Paulo Lima

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