New Jersey — O Brasil não virava uma partida eliminatória de Copa do Mundo desde 2002. Coincidentemente, naquela campanha do penta, também precisou ter paciência para se levantar de um erro. Lúcio falhou no domínio da bola, Michael Owen abriu o placar para a Inglaterra e coube a Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho conduzirem a reação por 2 x 1 nas quartas de final. Vinte e quatro anos depois, a história se repetiu em outro contexto, mas com o mesmo desfecho.
Danilo errou na saída de bola pela direita e permitiu o contra-ataque do Japão. O chute rasteiro de Kaishu Sano no canto esquerdo de Alisson despertou fantasmas, entre eles o gol de empate da Croácia nas quartas de final de 2022. Por que Alisson não vira o nosso super-herói quando mais precisamos dele? A bola era indefensável.
O Japão testou a paciência do Brasil. O sistema defensivo organizado por Hajime Moriyasu, com linhas baixas e movimentos sincronizados, parecia uma coreografia ensaiada para irritar o adversário. O Brasil dominava a posse de bola, mas sofria para transformar o controle em finalizações contra a meta do iluminado Zion Suzuki.
Na apresentação do jogo publicada pelo Correio Braziliense, chamei a atenção para o goleiro do Parma. Há sete anos, ele defendia o Japão na Copa do Mundo Sub-17 disputada no Brasil. Atuou no Estádio Bezerrão, no Gama, contra o México. Evoluiu ao ponto de assumir a meta de um clube por onde passaram Taffarel, Buffon e Frey.
Suzuki começou a empilhar milagres. Pela primeira vez, um goleiro parou Vinicius Junior nesta Copa. Assim como Romário em 1994, o camisa 7 não balançou a rede no quarto jogo do Mundial. Mesmo sem marcar, foi protagonista. Criou, acelerou, desequilibrou e quase marcou um golaço no segundo tempo.
Frio à beira do campo, Carlo Ancelotti chegava a ser irritante de tão tranquilo. Exibia a paciência de Jó e a confiança de quem conquistou cinco títulos da Champions League e ergueu troféus nas cinco principais ligas nacionais da Europa.
O italiano observava o cenário sem alterar a expressão, como se soubesse exatamente quando a muralha japonesa começaria a apresentar rachaduras.
Endrick entrou para atuar ao lado de Rayan pelo corredor direito. A ideia era alargar o campo e criar superioridade naquele setor. Do outro lado, Gabriel Martinelli passou a formar uma dobradinha constante com Vinicius Junior. Era pressão por todos os lados contra um sistema defensivo montado por um dos melhores técnicos da Copa.
A posse de bola brasileira bateu 69%, a maior da era Ancelotti. O Brasil tinha o controle absoluto da partida. Faltava encontrar a brecha.
Ela surgiu pelo alto, exatamente como a Bélgica feriu o Japão nas oitavas de final de 2018. Gabriel Magalhães apareceu como lateral-esquerdo e cruzou com precisão para Casemiro. O volante surgiu livre na área e cabeceou com violência, no limite da linha de impedimento, para aliviar a torcida brasileira.
O jogo de paciência aproximava-se perigosamente da prorrogação. O Brasil, porém, continuava procurando o gol. Tocava a bola, mapeava espaços, testava alternativas e anunciava o momento do bote. Insistia nos cruzamentos e também nas bolas roladas para a entrada da área. Uma delas encontrou Gabriel Martinelli.
Caprichoso como costuma ser no Arsenal, ele tirou tanto a bola do alcance de Suzuki que precisou da ajuda da trave esquerda para decretar a primeira virada do Brasil em um mata-mata de Copa do Mundo em 24 anos. Nos dois casos, em 2002 e em 2026, um erro individual foi compensado pela força coletiva.
O Japão outra vez não merecia a eliminação. O trabalho realizado no país é admirável. Os japoneses derrotaram Espanha e Alemanha na Copa do Catar, venceram Brasil e Inglaterra em amistosos neste ciclo e chegaram a este Mundial capazes de encarar qualquer potência sem complexo de inferioridade.
O azar do Japão foi cruzar o caminho de um técnico imune ao desespero. Carlo Ancelotti não abandonou o plano, não permitiu que o Brasil se perdesse emocionalmente e sufocou o Japão até a última bola. A Seleção errou, sofreu, insistiu e encontrou a recompensa. Vinte e quatro anos depois, voltou a buscar uma virada em um mata-mata de Copa do Mundo. E fez isso com a cara do treinador: calma, serena e tranquila. Até demais
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