Nova York — Lionel Scaloni encontrou no ciclismo uma aliada para o futebol. O treinador da Argentina pedala para escapar da pressão, organizar os pensamentos e preservar o espírito competitivo herdado dos tempos de lateral-direito — agora aplicado à função de comandante. Nas montanhas de Mallorca, entre subidas intermináveis e longas distâncias, o técnico campeão da Copa do Mundo desafia os próprios limites com a mesma disciplina usada para conduzir a seleção da Argentina.
O ciclismo se transformou em uma espécie de refúgio para Scaloni. Longe dos holofotes, das entrevistas e das cobranças que acompanham o atual campeão mundial, ele encontra sobre duas rodas um espaço para refletir, planejar e manter a mente em equilíbrio. A modalidade exige paciência, resistência e controle do esforço. Virtudes que também fazem parte do trabalho de um treinador durante uma Copa do Mundo.
“Quando eu era jogador profissional e olhava o Tour de France em julho pensava: esses caras ficam sete, oito horas em cima de uma bicicleta, que coisa chata. Hoje digo que estava muito errado, porque é um esporte maravilhoso”, contou Scaloni. A descoberta tardia ajudou a transformar a relação dele com a modalidade.
Para alguém que passou anos dentro de campo, competindo como lateral-direito, o ciclismo mantém viva uma sensação que o futebol deixou para trás: a disputa contra os próprios limites. Scaloni encontra no esporte uma forma de continuar competindo, mesmo depois de pendurar as chuteiras. “Quando você está cansado, sabe muito bem quais são os limites que tem e, quando está bem, também percebe até onde pode chegar”, explicou.
A comparação com o futebol é inevitável. Uma grande prova de ciclismo não é vencida apenas pela força física. Existe estratégia, leitura do momento, capacidade de sofrer e inteligência para saber quando atacar. Exatamente como uma Copa do Mundo, em que uma seleção precisa atravessar diferentes obstáculos até chegar ao último jogo.
A um passo de igualar o italiano Vittorio Pozzo, único treinador bicampeão mundial da história do torneio quase centenário da Fifa, Scaloni tenta levar a Argentina ao quarto título. O caminho até a final foi construído com a mesma filosofia que aplica nas pedaladas: disciplina, constância e controle emocional.
No ciclismo, uma subida longa pode definir uma prova. No futebol, um detalhe pode decidir uma Copa. Scaloni sabe. Talvez por isso prefira encarar os desafios como encara uma montanha: respeitando o percurso, administrando a energia e mantendo a convicção de que a chegada depende da capacidade de resistir.
Antes de comandar uma seleção em busca da glória, o treinador argentino continua sendo um homem sobre duas rodas, em uma estrada silenciosa, onde encontra respostas que depois leva para o banco de reservas.
As milhas acumuladas nos Estados Unidos registram passeios contra Argélia, Áustria e Jordânia na primeira fase e subidas mais exigentes no percurso do mata-mata diante de Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra. A linha de chegada contra a Espanha é o desafio final de Scaloni para manter a Copa do Mundo na garupa da Argentina e fechar mais um ciclo vitorioso.
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