Perdeu e foi para o vestiário: a última cena de Tite como técnico da Seleção. Foto: Ina Fassbender/AFP
Em 2 de dezembro, eu estava na sala de conferências do Estádio Icônico de Lusail quando Adenor Leonardo Bachi disse: “A Copa do Mundo não dá segunda chance”. O torneio deu quatro a Tite.
A primeira na Copa do Mundo da Rússia.
A segunda depois da derrota por 2 x 1 para a Bélgica nas quartas de final. Ele continuou no cargo depois da eliminação. Somente Cláudio Coutinho teve esse privilégio depois do fracasso na Argentina, em 1978. Seguiu até a Copa América e aí, sim, foi substituído por Telê Santana.
A terceira chance de Tite foi chegar intocável ao Catar.
A quarta e última virou uma espécie de aviso prévio depois da derrota para Camarões na terceira rodada da fase de grupos. Era preciso repensar a Seleção a toque de caixa dentro do torneio. O hexa estava por um fio.
Houve quem se iludisse com a vitória por 4 x 1 contra a Coreia do Sul nas oitavas de final. A matéria enviada de Doha ao Correio Braziliense logo depois da goleada alertava para os riscos da Croácia. Os textos seguintes publicadas até o dia da eliminação apontavam os problemas.
De fato, a Copa não dá segunda chance, mas Tite teve bem mais do que isso e lamentavelmente as desperdiçou.
A assinatura do fim do contrato nesta terça-feira, na sede da CBF, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, é mais do que melancólica. Desqualifica o discurso final de Tite minutos depois do fracasso contra a Croácia na sala de conferências do Estádio da Educação, em Al Rayyan.
“O ciclo (acabou), como eu tinha colocado anteriormente, já coloquei há mais de um ano e meio. Foi um processo. A Copa anterior (2018) foi um processo de recuperação de formação da equipe e agora teve uma sequência inteira. O desempenho vocês fazem a avaliação, está à mostra”.
Tite saiu exaltando ciclos. Assim como na queda contra a Bélgica, minimizou os erros pontuais no fracasso diante da Croácia.
Ciclo é uma palavrinha traiçoeira. Engana muito. Nem sempre é um balizador. Ciclos curtos renderam títulos de Copa no século 21. Longos também.
Luiz Felipe Scolari estreou como técnico da Seleção em 1º de julho de 2001 na derrota por 1 x 0 para o Uruguai, em Montevidéu. Incríveis 364 dias depois, vencia a Alemanha por 2 x 0 na decisão do Mundial de 2002. A rigor, com menos de um ano de trabalho.
Marcelo Lippe assumiu a Itália em 1º de julho de 2004. Em 12 de julho de 2006, a Squadra Azzurra derrotava a França nos pênaltis no Estádio Olímpico, em Berlim, e celebrava o tetra. Vicente del Bosque não teve um ciclo inteiro para levar a Espanha ao título inédito em 2010. Herdou, sim, um timaço de Luis Aragonés, em 17 de julho de 2008, e sou administrá-lo não somente na conquista na África do Sul, mas no bicampeonato da Eurocopa em 2012.
Joachim Löw soube aproveitar suas chances. Sucedeu Jürgen Klinsmann em 2006. A Alemanha caiu nas semifinais na Copa de 2010, mas em 2014, lá estava Löw no pódio montado no Maracanã depois da vitória por 1 x 0 contra a Argentina. Didier Deschamps havia assumido a França em 2012. Tombou nas quartas de final justamente diante da Alemanha em 2014. Quatro anos depois, levou o país ao bi na Rússia. Em 2022, amargou o vice com sabor de título. Por fim, Lionel Scaloni teve uma bala no revólver. Deu o tiro certo e brindou a Argentina com o tri.
Todos esses episódios mostram a Tite que ciclos são enganosos. Disputada em 30 dias, a Copa do Mundo desnuda bons e maus trabalhos. Longos e curtos períodos de gestão. Tite acumulou seis anos e meio de trabalho, porém, errou quando não poderia: das convocações para as Copas de 2018 e 2022 até as eliminações contra Bélgica e Croácia. Comprometeu o que ficou para trás no curto ciclo antes da Copa de 2018 e no longo, de quatro anos, até a campanha no Catar.
Tite disse que a Copa não dá segunda chance. Luiz Felipe Scolari, Marcello Lippi, Vicente del Bosque e Lionel Scaloni aproveitaram a primeira que tiveram. Joachim Löw e Didier Deschamps aprenderam com o primeiro fracasso e voltaram campeões. Tite não deixa de ser competente por ter desperdiçado as oportunidades que a Copa lhe deu. Clubes e seleções enviarão mensagens e telefonemas para o smartphone dele e do agente Gilmar Veloz com ofertas.
Enquanto o novo emprego não chega, que Tite aproveite os meses ou anos sabáticos para desapegar da enganosa palavra ciclo. Ele precisa aprimorar a tomada de decisão nos 90 minutos ou mais de partidas eliminatórias. Aprimorar os reflexos, as reações táticas a planos de jogo como os apresentados por Bélgica e Croácia nas quartas de final de 2018 e 2022.
Entre tantos outros, este foi, para mim, o maior pecado do melancólico fim da Era Tite. Ele não se mostrou capaz de reinventar, recalcular a rota com o carro em movimento na Copa. Tamanhos de ciclos não decidem o sucesso de um trabalho. As partidas eliminatórias, sim, funcionam como o dia do juiz final. É preciso ser bom, trabalhar no limite da capacidade, nos 30 dias da Copa. É o que importa. Afinal, como sempre disse Tite em um dos seus bordões nos seis anos e meio de trabalho: “O campo fala”. As partidas contra Bélgica e Croácia que o digam.
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