Del Valle jogou de igual para igual com o Flamengo na altitude de Quito. Foto: Cristina Vega Rhor/AFP
Adversário do Flamengo na final da Recopa Sul-Americana nesta quarta-feira, às 21h30, no Maracanã, o Independiente Del Valle é a parte visível de uma revolução. Há mais motivos do que o empate por 2 x 2 no jogo de ida na altitude de 2.850m de Quito para não subestimar o potencial do atual campeão da Sul-Americana. Uma delas é o recente contexto competitivo e vitorioso do futebol do Equador em competições de clubes e seleções.
O Barcelona de Guayaquil chegou a duas finais da Libertadores nas edições de 1990 e 1998, mas o “boom” do país começou no início do século 21 com a classificação inédita para a Copa de 2002, realizada no Japão e na Coreia do Sul. Até então, o Equador dividia com a Venezuela a fama de fiel da balança na América do Sul. A autoestima aumentou com a ida ao Mundial de 2006 e a passagem inédita às oitavas de final; e a participação no torneio realizado no Brasil em 2014. Das cinco copas disputadas no século, La Tricolor participou de três.
Paralelamente, os clubes equatorianos ganhavam respeito nas competições continentais. A LDU calou o Maracanã duas vezes nas conquistas da Libertadores 2008 e da Sul-Americana em 2009 — ambas contra o Fluminense. O time também faturou a Recopa em 2009 e em 2010. Em 2016, o Independiente Del Valle disputou o título da Libertadores contra o Atlético Nacional da Colômbia. No ano passado, arrematou a Copa Sul-Americana.
O Equador faz sucesso ainda nas competições de base. É o atual campeão do Sul-Americano Sub-20 disputado em 2019, no Chile, e terminou o Mundial da categoria, na Polônia, em terceiro lugar. Perdeu para a Coreia do Sul nas semifinais e venceu a Itália no prêmio de consolação. No Sub-17, ficou em quarto lugar no Sul-Americano de 2015. No mesmo ano, alcançou as quartas de final no Mundial.
O Independiente Del Valle era base da seleção equatoriana na conquista do Sul-Americano Sub-20 do ano passado. O elenco tinha cinco jogadores do clube da cidade de Sangolquí, a 18km de Quito: Moisés Ramírez, Johao Chávez, Jordan Rezabala, Emerson Espinoza e Gonzalo Plata. O clube virou uma usina de talentos para o país. Metade do elenco com média de 25,3 anos é formado na base. As joias adestradas no CT do clube moram, treinam e estudam lá. Saem com diploma de ensino médio numa parceria com o Ministério da Educação do Equador com direito a status de Clube de Alto Rendimento Especializado Independiente Del Valle.
O Independiente Del Valle provou mais de uma vez que não teme camisa pesada nem estádio lotado. Na campanha da Sul-Americana do ano passado, eliminou os gigantes Independiente da Argentina e Corinthians no mata-mata antes de superar o Colón na final. No vice da Libertadores 2016, desbancou River Plate, Pumas e Boca Juniors até a derrota para o Atlético Nacional da Colômbia na decisão.
Em 2007, o Independiente Del Valle foi comprado por um pool de empresas lideradas por Michelle Deller, do ramo de construção civil; e Franklin Tello, gerente-geral da rede de fast food KFC no país, e atual presidente do time equatoriano. O modelo administrativo é baseado em quatro ideias: gestão empresarial, formação de atletas, infraestrutura e gestão de talentos. Em quatro anos, satou da terceira divisão para a elite em 2010. Nesta temporada, disputará a Libertadores pela sexta vez em sete anos (2014, 2015. 2016, 2017, 2018 e 2020). O sucesso tem impacto nas seleções de base e profissional do país.
Há uma intersecção entre o sucesso dos clubes e seleções do Equador e o Flamengo: a aposta em técnicos estrangeiros. O colombiano Hernan Dario Gómez foi o primeiro a levar o país à Copa em 2002. Luis Fernando Suárez comandou a seleção em 2006, e Reinaldo Rueda na edição de 2014. Filho da lenda Johan Cruyff, Jordi assumiu o emprego neste ano e tem a responsabilidade de levar o Equador ao Qatar-2022. O argentino Jorge Célico era o comandante do Equador no título no Sul-Americano Sub-20 do ano passado e no terceiro lugar no Mundial da Polônia. O Flamengo saiu da fila de 38 anos na Libertadores e de 10 anos no Brasileirão sob influência do português Jorge Jesus.
Os treinadores estrangeiros também elevam o patamar dos clubes equatorianos. O argentino Edgardo Bauza brindou a LDU com o título da Libertadores em 2008. O uruguaio Jorge Fossati foi o mentor da conquista da Sul-Americana no ano seguinte. A prancheta do Independiente Del Valle pertence ao espanhol Miguel Ángel Ramírez, cujo trabalho recebeu elogios do português Jorge Jesus após o empate por 2 x 2 na ida: “Impressionante”, resumiu o técnico rubro-negro.
O respeito do Flamengo ao adversário é o primeiro passo em busca do terceiro título em 11 dias depois das conquistas da Supercopa do Brasil e da Taça Guanabara. Não será fácil. O futebol equatoriano evoluiu e o Independiente Del Valle é muito mais moderno e organizado do que muitos adversários rubro-negros, por exemplo, da Série A do Campeonato Brasileiro. Ainda assim, se a arbitragem não se complicar como na partida de ida, o Flamengo é, sim, favorito a erguer o troféu inédito.
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