Minha mãe e os brinquedos que ajudaram a construir o sonho de ser jornalista esportivo

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Na infância, ganhei dela pelo menos quatro brinquedos inesquecíveis. Eram simples, mas, para mim, de um significado imenso: uma caixa de monta tudo, que deu asas à imaginação de uma criança apaixonada por esportes; cartelas e mais cartelas de futebol de botão; uma mesa para deixar de usar a fórmica da cozinha de casa e espalhar meus times em um campo oficial, sem improvisos; e uma camisa de goleiro, posição que gostava. Ah, tem um quinto presente: aquele troquinho diário e/ou semanal para comprar minhas revistas Placar e diários esportivos. Sempre fui freguês de bancas de jornal.

Guardo, até hoje, casa um desses presentes na memória. Transformei o monta tudo, nem sei se ainda existe, em jogadores de futebol. Com direito a 11 de cada lado e banco de reservas. Usava caneta BIC para numerá-los de 1 a 11. O chão do meu quarto virava estádio. Ficava intransitável. Este blogueiro virava dublê do Galvão Bueno e narrava o espetáculo nas maiores alturas.

Para criança, brincadeira não tem hora. Meus jogos eram de manhã, tarde, noite e até de madrugada. Sim, para dar realidade a eles, alguns tinham fuso-horário, como simulações das finais da Copa Toyota no Japão — atual Mundial de Clubes da Fifa.

Não foram poucas as vezes que os vizinhos reclamaram do barulho de uma criança que narrava jogos no apartamento de uma certa quadra de Brasília. Aquilo exigia habilidade da “cartola” Ana Maria para lidar com a pressão extracampo dos adversários, que tentavam impedir o filho dela de jogar em casa (risos). São muitos bastidores. Só ela para contar nos mínimos detalhes.

O monta tudo passou. Veio o sofisticado futebol de botão. Virou vício. Guardo com muito carinho os times que ganhei da mamãe em uma caixa de tênis. Eu dizia que era o ônibus dos times. Continua sendo. Organizava todos eles e tinha, tenho, um ciúme danado de quem os trata mal. Meus campeonatos de futebol de botão eram padrão Fifa. Eu fazia fichas escritas à mão com as escalações das equipes e formações táticas. Confeccionava a tabela e fazia a produção do evento esportivo.

Mamãe, torcedora fiel da Seleção Brasileira no Mané Garrincha

Picava papel para a entrada dos times em campo. Recortava caixas de creme dental e colava nos cantinhos da mesa de botão. Eram as placas de publicidade da minha arena. Modéstia à parte, eu era uma criança muito criativa para esse troço. Depois dos jogos, fazia uma resenha esportiva imitando apresentadores e comentaristas que passei a admirar ouvindo no rádio e assistindo na tevê. Nascia, crescia e evoluía a vontade de ser jornalista esportivo. Sem querer querendo, um sonho patrocinado pelos meus pais.

Dona Ana investiu até na minha carreira de jogador frustrado. Estava certa ela. Precisava saber se eu levava jeito pra coisa. Canhoto, era meio Robben na linha. Tinha uma jogada só. Quando a bola caia na perna direita… Resultado: nunca fui o primeiro escolhido no par ou ímpar. Mas logo dei um jeito de ser. Tinha talento para goleiro. Fui campeão de torneios escolares atuando na posição. Não era craque da posição como meu xará Marcos, ídolo do Palmeiras, longe disso, mas saí do fim da fila no par ou ímpar para número 1. Poucos, ou ninguém, gosta de jogar no gol nas peladas. Isso se resolve rapidamente escolhendo logo de cara um goleiro.

Orgulhosa do filho, dona Ana foi às compras nas nossas férias quase sempre lá em Belém, terra dos meus pais. Comprou uma inesquecível camisa de goleiro azul, cinza e branca acolchoadas com número nas costas: 21. Era a que tinha na loja. Com a blusa, meu primeiro par de luvas. Adorava a vida de goleiro, mas surtava quando a nossa defesa era fraca e sofria muitos gols. Queria ir para a linha tentar ajudar a resolver com o talento que não tinha. Só piorava as coisas…

Um dia, descobri que não tinha o mínimo talento para ser jogador profissional. Quando a ficha cai, ou você vira peladeiro ou jornalista esportivo. Parei de brigar com o óbvio ululante. Aliás insisti em lutar contra ele ao ser aprovado em vestibulares para administração e relações internacionais. Mas o monta tudo, o futebol de botão, a mesa que ganhei da dona Ana e a camisa de goleiro foram os meus testes vocacionais.

Não adiantava brigar com aquilo. Fui aprovado em comunicação social. No primeiro dia de aula na Universidade Católica de Brasília, fui questionado pela professora sobre por que havia escolhido o curso e o que eu queria com ele. Respondi de bate-pronto: quero ser jornalista esportivo.

E aqui estou eu, mãe, neste blog, agradecendo à senhora por ter despertado sonhos. Ajudado a torná-los realidade. Três coberturas Copas, uma Euro, uma final de Champions League, uma Olimpíada e tantas outras coberturas são imensas realizações pessoais. Mas nenhuma delas supera o seu coração de mãe, que não se enganou e tornou tudo isso possível graças a um monta tudo, cartelas de futebol de botão, a inesquecível mesa e uma camisa de goleiro. Hoje, posso dizer: trabalho me divertindo fazendo o que amo. Muita gente não imagina, mas a senhora sabe o quanto eu caminhei para chegar até aqui.

Neste Dia das Mães, só tenho palavras de gratidão.

Obrigado, dona Ana!

Te amo.

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Marcos Paulo Lima

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