Blog Drible de Corpo

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Marcos Paulo Lima

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Fluminense 2 x 0 Platense: a maestria anacrônica de Ganso

Análise: Em noite de gala do camisa 10, o Fluminense supera os argentinos com inteligência tática, cadência de jogo e a força de um elenco veterano na Libertadores

Paulo Henrique Ganso fez a diferença nos dois gols do Fluminense no Maracanã. Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC

Lembro-me de uma capa da revista Placar, em fevereiro de 2010. A manchete dizia: “De Pato a Ganso”. Nas páginas internas, o complemento: “Aves raras”. A publicação projetava dois talentos para o futuro da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014: o atacante Alexandre Pato e o meia Paulo Henrique Ganso.

O tempo passou. Nenhum dos dois disputou a Copa do Mundo.

Ganso esteve perto. Antes do Mundial de 2010, na África do Sul, constava na lista de alternativas de Dunga para uma eventual substituição provocada por corte antes do início do torneio. Não passou disso.

Ganso é um dos grandes desperdícios da história recente do futebol brasileiro.

Escrevo depois de vê-lo novamente no papel de maestro do Fluminense. Em uma época de carência absoluta de camisas 10, Paulo Henrique Ganso continua oferecendo aquilo que o futebol moderno parece ter decidido descartar: pausa, leitura, passe, inteligência espacial e uma relação quase artesanal com a bola.

Há algo deliciosamente anacrônico em Ganso.

Enquanto o futebol acelera, ele desacelera. Quando todos correm, procura o espaço. Enquanto a obsessão contemporânea valoriza intensidade, transição e capacidade atlética, ele continua demonstrando que pensar também pode ser uma maneira de correr mais rápido do que os outros.

O Fluminense, aliás, parece ser o habitat ideal para essa espécie ameaçada de extinção. O ex-técnico tricolor Fernando Diniz fez questão de resgatá-lo. O atual, Marcão, viu tudo aquilo e recicla.

O Fluminense venceu o Platense utilizando uma fórmula que desafia parte dos dogmas contemporâneos. A equipe tem experiência, jogadores rodados e uma espinha dorsal capaz de resistir à tentação do etarismo. Fábio, Thiago Silva, Ganso e Hulk são símbolos de uma geração que seria descartada em muitos clubes pela certidão de nascimento antes mesmo de uma análise técnica.

E daí?

O Fluminense conhece o caminho.

Em 2023, conquistou a Libertadores com a formação mais experientes da história do torneio. A média de idade era de 31,6 anos, mas o resultado desmontou uma das maiores simplificações do futebol contemporâneo: a ideia de que juventude é, por si só, sinônimo de competitividade.

Contra o Platense, a experiência voltou a ser um ativo: 32,7 anos.

Ganso participou da construção das jogadas, organizou o time e deu sentido a uma equipe que sabe jogar com a bola. Ao seu redor, Martinelli, Nonato e Hércules ajudam a dar sustentação e dinamismo ao meio-campo. A combinação permite ao Fluminense ter algo raro: jogadores capazes de recuperar a bola e outros suficientemente inteligentes para saber o que fazer com ela depois.

É impossível observar Ganso e não olhar para o passado.

Parece absurdo pensar que o Brasil disputou as Copas do Mundo de 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026 sem encontrar, em nenhum daqueles ciclos, uma função para um jogador com suas características.

Não se trata de afirmar que Paulo Henrique Ganso deveria ter sido titular absoluto da Seleção Brasileira durante toda a carreira. Essa seria uma simplificação tão equivocada quanto ignorá-lo completamente.

A questão é outra.

Nenhum treinador parece ter se disposto a entender como aproveitar um meia daquele perfil. Ganso vestiu as camisas de Santos, São Paulo, Sevilla, Amiens e Fluminense. Em diferentes momentos, demonstrou talento suficiente para merecer, ao menos, uma tentativa mais persistente no cenário internacional. Nem mesmo Fernando Diniz e Dorival Júnior, que trabalharam com ele no Fluminense e no Santos, respectivamente, o consideraram.

Enquanto o Brasil procurava soluções, era eliminado por seleções comandadas por meias capazes de controlar partidas: Sneijder, Toni Kroos, Schweinsteiger, De Bruyne, Modric e Odegaard.

A Seleção Brasileira deixou de produzir — ou simplesmente deixou de convocar — jogadores com capacidade para pensar o jogo.

Ganso sobreviveu.

Talvez porque nunca abriu mão do estilo próprio. Não virou um meia de intensidade. Não se transformou em um jogador de pressão incessante. Não adaptou a característica às modas. Continuou sendo Ganso.

E talvez esteja aí a grandeza dele.

A vitória do Fluminense contra o Platense é mais um capítulo de uma história construída na contramão de parte do futebol contemporâneo. O clube campeão da Libertadores de 2023 continua confiando na experiência e na inteligência.

O Fluminense parece ter descoberto uma maneira particular de combater o etarismo.

No futebol das métricas, dos sprints e das distâncias percorridas, ainda há espaço para um jogador que prefere enxergar o jogo.

A maestria de Ganso pode soar anacrônica.

Mas continua sendo extraordinariamente atual.