O extremo Raphinha tem três gols em sete jogos pela Seleção. Foto: Lucas Figueiredo/CBF
Há 16 anos, Carlos Alberto Parreira convocava para a Copa da Alemanha três centroavantes: os titulares Ronaldo e Adriano, além do reserva Fred. Um dos clamores à época era pela entrada do driblador Robinho. Tite mal consegue encontrar um camisa 9 capaz de balançar a rede com regularidade, mas tem pontas de sobra na controversa safra. Carente de fenômenos e imperadores, o técnico da Seleção se vira com um punhado de “Bernardos” — meninos com alegria nas pernas. Culpa exclusiva dele? Não!
O drama começa na base. A indústria brasileira de jogadores de futebol passou a investir em massa na fabricação de pontas — os externos desequilibrantes, como o próprio Tite definiu certa vez. Eles são muitos e povoam as convocações: Neymar, Vinicius Junior, Richarlison, Raphinha, Antony, Everton Cebolinha, David Neres, Richarlison, Taison, Douglas Costa, Malcom, Lucas Moura, Bruno Henrique. Todos jogadores de lado do campo, como também nos acostumamos a chamá-los.
A goleada por 4 x 0 contra o Paraguai provou que o Brasil vive a era dos extremos — pego emprestado o título do excelente livro do historiador Eric Hobsbawm. Os pontas cada vez mais pedem passagem e pressionam Tite a definir o lugar do fora de série Neymar na engrenagem canarinha. Para mim, a função destinada ao quase trintão é a de falso 9.
Os centroavantes de Tite têm uma dificuldade imensa de balançar a rede com a camisa da Seleção. Matheus Cunha foi titular pelo terceiro jogo consecutivo. Fez um baita trabalho tático contra o Paraguai, inclusive ao protagonizar o paredão no lance do gol anulado de Raphinha no início da partida. No entanto, Careca, Romário, Ronaldo e até os últimos dos moicanos Luís Fabiano e Fred acostumaram o torcedor brasileiro a ver centroavante marcar gol. Gabriel Jesus passou o Mundial de 2018 inteiro sem cumprir a missão. Não vai às redes pela Seleção desde a final da Copa América de 2019 contra o Peru, no Maracanã.
Por incrível que pareça, Gabriel Barbosa, o Gabigol, tem sido o 9 mais eficiente. Balançou a rede três vezes, duas contra a Venezuela e uma diante do Uruguai em jogos oficiais, mas amarga o banco de reservas com Tite. Aparentemente, tem a paciência testada pelo técnico.
As opções de centroavante são escassas. Nenhuma delas encantadora. Um Roberto Firmino, Gabriel Jesus ou Gabigol aqui; um Matheus Cunha ou Pedro acolá; o híbrido Rodrygo; um Hulk no fundo do baú em caso de emergência… Enquanto ninguém se firma na posição, extremos como Raphinha e Antony decidem jogos. Outros, como Vinicius Junior, não marcam, mas desequilibram com velocidade e drible.
A 10 meses da Copa, não faz sentido posicionar Neymar aberto nas pontas. Muito menos no papel de meia. Lucas Paquetá e Philippe Coutinho mostraram capacidade para isso. Sim, contra o Paraguai, dirão alguns críticos azedos, como eu. O fato é que, a essa altura do ciclo liderado por Tite, a melhor forma de explorar o potencial do único fora de série da turma é deixa-lo livre, leve e solto para aprontar suas diabruras. O craque não tem mais físico e saúde para fazer a chamada recomposição, marcar lateral, fechar os corredores para o adversário.
Como Tite não chama o diferenciado Pedro, e na ausência de um centroavante inquestionável como Benzema (França), Kane (Inglaterra) Cavani e Suárez (Uruguai), Lukaku (Bélgica) ou Lewandowski (Polônia), uma alternativa é apostar em Neymar lá no comando do ataque verde-amarelo a fim de tê-lo com Vinicius Junior.
A era dos extremos da Seleção Brasileira exige adaptações, reinvenções, criatividade em tempo de vacas magras.
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