De Domènec Torrent a Hernán Crespo: o risco das entrevistas na seleção do técnico do time

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O Flamengo lançou moda e o São Paulo copiou. Fez processo seletivo para recrutar o novo técnico. Realizou entrevistas, ouviu conceitos de jogo, promessas e decidiu contratar o Hernán Jorge Crespo. Aos 45 anos, o ex-centroavante do River Plate, Parma, Lazio, Internazionale, Chelsea, Milan e da seleção da Argentina em três edições da Copa do Mundo (1998, 2002 e 2006) levou o modesto Defensa Y Justicia ao título inédito da Copa Sul-Americana, em 23 de janeiro deste ano, ao vencer o Lanús por 3 x 0, em Córdoba.

Nada contra as entrevistas, óbvio. É assim nas pequenas e grandes corporações. Por que não pode ser também no futebol. A questão é se o candidato ao cargo entregarrá o que combinou ao tomar posse. Neste ponto, o São Paulo precisa aprender com o Flamengo.

A diretoria rubro-negra ouviu de Domènec Torrent que o catalão daria continuidade ao legado de Jorge Jesus. Bastou a estreia contra o Atlético-MG na primeira rodada do Brasileirão para o catalão romper com o que o português havia construído. Quando o Galo vencia por 1 x 0, Dome encheu o time de atacantes em busca do empate e irritou a torcida. Na segunda partida, deixou Rafinha no banco e escalou Rodrigo Caio na lateral. O restante da história você conhece. O Flamengo mudou do vinho para água.

Há uma diferença nos processos seletivos do Flamengo e do São Paulo. Jorge Jesus deixou um time com mais títulos que derrotas. Ganhou Libertadores, Brasileirão, Carioca, Supercopa do Brasil e Recopa Sul-Americana. Qualquer mudança mínima causada por Dome seria sentida pela torcida. Era como se o time de Jesus estivesse numa redoma de vidro com plaquinha de intocável, imutável, proibido de ser melhorado ou piorado, como, aliás, foi.

Fernando Diniz entrega a Hernán Crespo um São Paulo carente de títulos e ajustes. Coincidentemente, o último título do São Paulo foi o mesmo do seu novo técnico — a Copa Sul-Americana de 2012. Muricy Ramalho e os demais responsáveis pela contratação ouviram de Crespo que ele não romperá com o estilo do antecessor, Fernando Diniz.

Dá para acreditar?

Hernán Crespo tem, sim, alguns conceitos similares aos de Fernando Diniz. A construção do jogo desde a defesa, por exemplo. Mas futebol lembra política. Geralmente, o prefeito adora inaugurar o banco da pracinha para deixar sua marca. Técnico não é diferente.

O escolhido pelo São Paulo gosta de velocidade. Curte definição rápida das jogadas. Aceleração da intermediária ofensiva para a frente. Dome tinha a pressão de não mexer no time que estava ganhando de Jorge Jesus. Crespo chega com a missão de evoluir uma equipe que esteve próxima das conquistas da Copa do Brasil e do Brasileirão e frustrou sua torcida. O argentino gosta de linha de três ou de cinco na defesa, por exemplo. Combina um pouco com o estilo daquele São Paulo do Muricy Ramalho, tri brasileiro de 2006 a 2008.

Fernando Diniz achou o time ideal, achou que seria campeão com ele e pagou caro por não apresentar variações táticas capazes de surpreender, por exemplo, Grêmio e Internacional na eliminação da Copa do Brasil e no vexame por 5 x 1 que custou a liderança. Quem entrevistou Crespo tem a sensação de que o novo técnico será capaz de surpreender tanto quanto na entrevista que convenceu a os aliados do presidente Julio Casares a contratá-lo.

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Marcos Paulo Lima

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