Jorge Jesus manteve o silêncio na decisão e levou o Flamengo ao bi. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
No mundo ideal, o da ansiosa torcida, Jorge Jesus deveria ter sido transparente como Joel Santana em 2008. O técnico rubro-negro à época abriu o jogo e deixou claro para o então vice de futebol Kléber Leite que estava de saída para assumir a seleção da África do Sul – anfitriã da Copa do Mundo 2010. Argumentou que ganharia salário 30 vezes maior do que havia recebido em 30 anos de carreira. O antecessor Carlos Alberto Parreira e a Federação Sul-Africana também informaram o dirigente sobre a proposta.
A sinceridade de Joel e transparência do Flamengo fizeram mal ao clube. Joel havia comandado uma reação espetacular do time no Brasileirão de 2007. Levara a equipe da briga contra o rebaixamento ao terceiro lugar. Três dias antes da despedida, brindou o clube com o bicampeonato carioca contra o Botafogo. Estava em lua de mel com a “nação”. Aí, o que fez a diretoria à época? Escolheu homenageá-lo em campo antes do duelo de volta contra o América do México pelas oitavas de final da Libertadores. Resultado: Cabañas liderou o triunfo por 3 x 0, calou a plateia e o novo técnico Caio Júnior herdou um elenco em crise e de ressaca. O jogo da despedida virou mico.
Não creio, mas, talvez, alguém tenha contado essa historinha a Jorge Jesus. O Flamengo sempre foi uma festa. Se brincar, faria mais uma caso o português antecipasse a decisão de ir embora a qualquer jogador ou membro da diretoria. Frio e calculista, o europeu mordeu a língua. Sofreu calado e deixa a “nação” angustiada com ele. Certo ou errado, é direito do profissional, como também é do clube de saber se há (ou não) interesse do Benfica nele. Neste episódio da final do Carioca, o suspense deu certo, mas, é óbvio, também poderia ter dado errado se o valente Fluminense superasse o arquirrival.
Uma das virtudes do time comandado por Odair Hellmann foi ter empurrado a decisão com o Flamengo até as últimas consequências. Venceu a Taça Rio, suportou o primeiro jogo da final com possibilidade inclusive de arrancar empate ou até a virada, e teve chance de forçar a disputa por pênaltis no terceiro round até o gol de Vitinho nos acréscimos da etapa final. São as reviravoltas financeiras do futebol. O Fluminense era o primo rico na época da Unimed e o rival contava moedas, tinha repertório escasso. Atualmente, a fartura está do outro lado da força.
Jorge Jesus soube usar o material que tem para asfixiar um Fluminense que deu problemas ao Flamengo a ponto de o Mister ser pragmático na decisão do Estadual. Respeitou Hellmann e usou como diferencial o material humano. Aos poucos, se impôs nos quesitos táticos, técnicos e físicos. A cada substituição, o português transformava o sistema de jogo. Criou um trevo na cabeça de Hellmann. Tirou da manga até um sistema com três zagueiros no fim da partida para suprir a saída do lesionado Rafinha e a carência de um reserva à altura. Não colocaria Matheuzinho numa fria.
A limitação técnica do elenco do Fluminense fez a torcida se irritar com Odair Hellmann no fim da partida. Quando o time precisava acelerar a partida em busca de pelo menos um gol, o treinador puxou o freio de mão da equipe ao colocar em campo o lento e sem ritmo de jogo Paulo Henrique Ganso em campo. Apostou, claro, em um contra-ataque que caísse nos pés dele para um daqueles lançamentos lindos dos tempos da parceria com Neymar no Santos. Aquele Ganso não existe há muito tempo. Não amedrontou Jesus. Foi a senha para o Flamengo ganhar de vez o meio de campo.
Sem o suspenso Gabigol, Vitinho assumiu o papel de artilheiro das decisões. O herói nascido e criado em Nova Brasília, uma das favelas do Complexo do Alemão, no Rio, fez o gol do título contra o Vasco em 2019. Marcou também o desta quarta-feira contra o Fluminense. As entradas dele no lugar de Everton Ribeiro indicam que, em breve, ele pode assumir aquela posição.
Nem tudo é belo no bi do Flamengo. A pressa para a retomada do futebol em meio à pandemia virou uma das manchas no título. A negociação da MP 984/2020 nos bastidores com o presidente da República Jair Bolsonaro, e a consequente guerra de liminares envolvendo a Federação do Rio, a Globo e o Fluminense também.
Uma última observação: poucas vezes vi conquista de título ser menos valorizada do que a permanência (ou não) do técnico, o mentor do título. Claro, Jorge Jesus tem um lugar imenso na história do Flamengo. Talvez, o maior deles. Só faltam a Copa do Brasil e a Copa Sul-Americana entre os títulos possíveis deste lado do Oceano Atlântico. E o Mundial de Clubes, claro. Embora ser vice do Liverpool seja um feito gigante. Acho.
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