Kaio Jorge deu assistência para Villarreal e partiu para o abraço. Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro
Melhor do que ter um centroavante é ostentar dois em um abafa. O Cruzeiro derrotou o Boca Juniors por 1 x 0 no Mineirão justamente quando Kaio Jorge e Neyser Villarreal estavam em campo. No lance do gol, um abriu para receber o passe de Matheus Pereira; o outro ocupou a referência como camisa nove, praticamente em cima da linha. O brasileiro serviu o colombiano e aliviou a China Azul no Gigante da Pampulha.
Neyser Villarreal tem quatro gols na temporada. Marcou contra Vasco, Athletico-PR, Red Bull Bragantino e Boca Juniors. É um centroavante com mobilidade, capaz de cair pelo lado direito e atacar espaços. O mais importante: tem apetite pela rede.
Quem acompanhou o Mundial Sub-20 do Chile, em 2025, sabe disso. Foi um dos quatro artilheiros, com cinco gols, e ficou com a Chuteira de Prata. A Colômbia terminou em terceiro lugar após bela campanha.
O Boca Juniors atual está longe daquele do início dos anos 2000 — e isso diz muito. Falta o talento de Riquelme, a velocidade de Schelotto ou Palacios e o oportunismo de Martín Palermo. Em contrapartida, a limitação técnica é compensada por um futebol físico e reativo, dentro da proposta de Claudio Úbeda. O time xeneize lembra um pugilista que prefere se agarrar ao adversário para amarrar a luta e reduzir o ritmo.
O estilo cobra caro. Adam Bareiro foi expulso corretamente em uma partida de muito contato físico. A vitória do Cruzeiro ganha ainda mais peso diante do contexto: o Boca estava invicto havia 14 jogos. A última derrota tinha sido para o Vélez Sarsfield, por 2 x 1, pelo Campeonato Argentino.
A superioridade do Cruzeiro era evidente desde o início e se acentuou após a expulsão. O time chegou a 63% de posse de bola, mas encontrou dificuldades para transformar o controle em chances claras. Faltou agressividade entre as linhas e mais infiltrações no último terço.
A circulação era constante, porém pouco incisiva, o que permitia ao Boca se manter confortável mesmo em desvantagem numérica. Ao todo, foram 25 faltas (11 do Cruzeiro e 14 do Boca), nove cartões amarelos e um vermelho — um jogo truncado e pouco fluido.
Importante notar a entrada do Cruzeiro nos trilhos. O trem azul havia descarrilado na derrota em casa para a Universidad Católica por 2 x 1. De lá para cá, a equipe de Artur Jorge venceu Grêmio, Remo e Boca Juniors, além de empatar com o Goiás. Há um claro viés de alta, que dá ao técnico português mais tranquilidade para implementar suas ideias.
Também chamou atenção a decisão de escalar o goleiro Otávio Costa em uma partida de Libertadores. O jovem de 20 anos já havia atuado contra o Goiás e começa a ganhar rodagem em jogos grandes — um movimento ousado e, ao mesmo tempo, necessário.
Quem sabe não surge na Toca da Raposa um novo nome para a posição. A lembrança de Gomes é inevitável. Revelado pelo clube, ele ganhou espaço com Vanderlei Luxemburgo, aproveitou a má fase de André e assumiu a titularidade.
Gomes estreou aos 21 anos contra o São Paulo, no Independência, e se consolidou como peça fundamental da Tríplice Coroa de 2003. Ainda é cedo para qualquer comparação, mas o contexto mostra como oportunidades podem acelerar trajetórias — especialmente em momentos de ajuste no elenco.
Vitórias como essa não definem a temporada, mas revelam um caminho.
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