Brasil se despede da Copa de 2018: 20 anos de jejum. Foto: Luis Acosta/AFP
Quando o relógio marcou 13h em Brasília, horário da publicação deste post, estava aberta oficialmente por aqui a contagem regressiva de 100 dias para o jogo de abertura da Copa do Mundo entre o anfitrião Catar e o Equador, em 20 de novembro, às 13h (de Brasília) no Estádio Al-Bayt — uma belíssima tenda árabe erguida no país do Golfo Pérsico — o primeiro do Oriente Médio a receber o megaevento do esporte mais popular do planeta. No “countdown” para a quinta tentativa de conquistar o hexa, vale uma reflexão sobre como o Brasil perdeu a chance de bordar a sexta estrela 100 dias antes do início das edições de 2006, 2010, 2014 e 2018.
Cem dias antes de desembarcar na Copa de 2006, na Alemanha, o Brasil era apontado como favoritaço. Campeão vigente, havia conquistado a Copa América em 2004, terminado em primeiro lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas e conquistado a Copa das Confederações em 2005 com um recital de 4 x 1 contra a arquirrival Argentina.
O técnico Carlos Alberto Parreira contava com o último grande elenco do Brasil em Copas: Cafu, Roberto Carlos, Lúcio, Juan, Gilberto Silva, Zé Roberto e o quadrado mágico formado pelo melhor do mundo da época, Ronaldinho Gaúcho, e mais Kaká, Adriano e Ronaldo. Além deles, ostentava reservas de alto nível à época, como Juninho Pernambucano, Robinho e Fred.
O céu de brigadeiro foi abalado por turbulências antes do início da Copa. Jogadores do naipe de Ronaldo e Adriano, a dupla de ataque titular da Seleção, se apresentaram em mau estado físico. Paralelamente, o acesso aos jogadores nos preparativos do Brasil, principalmente em Weggis, na Suíça, foram transformados em um grande oba-oba. O desfecho você lembra: eliminação por 1 x 0 diante da França nas quartas de final.
Quatro anos depois, faltou sensibilidade a Dunga para tornar o elenco verde-amarelo mais forte e ter repertório nos momentos de dificuldade. O técnico ignorou as excelentes fases de Neymar e Paulo Henrique Ganso no Santos. Deixou ambos fora da lista dos 23. Sim, eles seriam calouros na Copa, mas poderiam ter funcionado como cartas na manga nos momentos em que o Brasil demandou válvulas de escape. Exemplo: a derrota de virada para a Holanda, por 2 x 1, nas quartas de final.
Dunga cometeu outro erro grave. Virou refém de jogadores responsáveis pelo ciclo quase perfeito. Aquele Brasil desembarcou na África do Sul ostentando o título da Copa América de 2007 com vitória por 3 x 0 contra a Argentina na final, o primeiro lugar nas Eliminatórias com direito a triunfo por 4 x 0 diante do Uruguai, em Montevidéu, e a virada épica na decisão da Copa das Confederações contra os Estados Unidos, por 3 x 2. Perdia por 2 x 0. Parecia tudo perfeito até os gols do carrasco holandês Sneijder.
Veio a Copa de 2014, no Brasil. Depois de Mano Menezes fazer o trabalho sujo de renovação e ser demitido por Marco Polo Del Nero e José Maria Marin, Luiz Felipe Scolari herdou a prancheta. Montou uma Seleção a toque de caixa para ganhar a Copa das Confederações em 2013 de maneira imponente: 3 x 0 contra a Espanha, campeã mundia e bi da Europa.
O time parecia pronto. A cabeça do elenco, não. Cem dias antes da Copa, a dupla Felipão e Parreira vacilou ao não elaborar um plano a fim de fortalecer o grupo mentalmente para o que viria pela frente: a caça ao hexa, em casa, 64 anos depois do Maracanazo de 1950. A fragilidade psicológica apareceu no empate por 0 x 0 com o México, no Castelão; na vitória nos pênaltis contra o Chile nas oitavas de final, no Mineirão; e de forma horripilante no 7 x 1. Um elenco incapaz de reagir sequer na decisão do terceiro lugar. Holanda 3 x 0 Brasil, em Brasília.
A campanha na Copa da Rússia, em 2018, também sofreu o impacto dos 100 dias anteriores ao início do torneio. Tite herdou de Dunga uma Seleção à beira do caos. Em sexto lugar nas Eliminatórias. Fora até mesmo da zona de repescagem. Arrumou a casa logo no primeiro jogo com vitória por 3 x 0 contra o Equador, em Quito, terminou o processo seletivo em primeiro lugar e encantava. Algumas exibições arrancaram suspiros dos fãs.
Tite se perdeu justamente antes de a bola rolar. Como se não bastasse a lesão de Daniel Alves antes do anúncio da convocação final, o treinador cometeu o pecado da avareza à época. Não abriu mão de jogadores que estavam muito mal clinicamente. Peça-chave da engrenagem, Renato Augusto se apresentou abaixo da capacidade física e técnica. Alternativas como Douglas Costa, Danilo e outros convocados também. A exemplo de 2014, faltou acompanhamento psicológico para colocar o foco do astro Neymar na campanha pelo hexa, não em viralizar nas redes sociais com o cai-cai do início ao fim do torneio. Vale ponderar que o camisa 10 também jogou no sacrifício. Recuperou-se de uma lesão pé direito pouco antes do Mundial.
As últimas quatro Copas devem servir de lições para as pretensões do Brasil a partir de 24 de novembro, na estreia contra a Sérvia. De 2006 a 2018, a Seleção provou mais de uma vez que nem sempre um trabalho irretocável no ciclo de quatro anos garante o título. É possível colocar tudo a perder na reta final, ou seja, 100 dias antes do início da Copa. Que o competente Tite, mantido no cargo mesmo depois da eliminação diante da Bélgica nas quartas de final da edição passada —, esteja ainda mais sensível às cascas de banana até o desembarque no Catar.
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