Como as associações ofensivas do Botafogo minaram a retranca do Peñarol

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Há 270 dias, Artur Jorge conquistava o único título na carreira de técnico: a Taça da Liga de Portugal. O lusitano comandava o Sporting Braga e superou o modesto Estoril na decisão. Empatou por 1 x 1 no tempo regulamentar e triunfou por 5 x 4 nos pênaltis. Deixou o time para assumir o Botafogo e viu o Braga cruzar a linha de chegada do Português em quarto lugar, atrás apenas dos óbvios favoritos de sempre: Sporting, Benfica e Porto.

Uma temporada antes, ele havia feito melhor. O Sporting Braga terminou a liga em terceiro lugar com recorde de pontos e vaga para a Liga dos Campeões da Europa. Amargou o vice na Taça de Portugal contra o Porto e chamou a atenção na primeira participação na Champions League ao virar uma partida contra o Union Berlim da Alemanha na segunda rodada da fase de grupos. Perdia por 2 x 0 e venceu por 3 x 2. Jamais um time lusitano havia protagonizado esse feito na história da competição continental.

A introdução é para contextualizar o momento de Artur Jorge no Botafogo. O treinador se preparou para liderar o Campeonato Brasileiro e antecipar a classificação para a final única da Libertadores depois de golear o Peñarol por 5 x 0 no estádio Nilton Santos, no Rio. O Campeón del Siglo que nos perdoe, mas a partida de volta será meramente protocolar por um motivo simples: a modernidade do futebol associativo de Artur Jorge.

Chamo a atenção para as sincronias de movimentos do Botafogo com a posse da bola. O time alvinegro encerrou a partida com 69% e soube exatamente o que fazer com ela no segundo tempo depois da resistência uruguaia na etapa inicial. Artur Jorge tinha certeza de que o primeiro gol, o mais difícil deles, implodiria a retranca arquitetada por Diego Aguirre.

A chave para o sucesso era o 2-3-5. Como o Peñarol pouco ou nada agrediu durante o placar parcial de 0 x 0, o Botafogo instalou-se no campo do adversário à caça de brechas ou uma desatenção dos marcadores. Bastava um dormir no ponto para o jogo mudar. Os zagueiros Bastos e Alexander Barboza ficaram quase no meio de campo. Vitinho, Gregore e Marlon Freitas alinhavam bem próximos em cima da risca que divide o gramado.

Na frente, Luiz Henrique e Savarino se posicionaram perto um do outro pela direita para uma associação. Alex Telles, Thiago Almada e Igor Jesus formava um outro grupinho do meio para a esquerda. Eram cinco homens para cima da muralha da muralha do Peñarol.

De uma associação ofensiva nasce o primeiro gol. O primeiro é uma assistência de Luiz Henrique para Savarino abrir o placar e a porteira. A fisionomia dos jogadores do Peñarol era de pânico. Estavam certos de que o rolo compressor estava prestes a entrar em ação. Alexander Barboza achou espaço dentro da área em uma cobrança de escanteio e ampliou.

Mais solto depois do segundo gol, o lateral-direito Vitinho deixou a linha de três no meio de campo com Gregore e Marlon Freitas, avançou ao ataque, aproximou-se de Luiz Henrique, recebeu a bola na ultrapassagem e serviu Savarino com um passe para trás. O venezuelano vinha de frente. Estava desenhada a goleada no estádio Nilton Santos.

A sincronia do quarto gol é maravilhosa. Ponta, Luiz Henrique recebe a bola como se fosse um meia direita. O lateral Vitinho passa como se fosse ponta. Marlon Freitas invade a área como uma flecha atraindo a marcação e indicando que ele receberia a bola. Savarino espera o tempo certo para receber o cruzamento de Vitinho e finaliza com ajuda do goleiro.

Uma das virtudes do sistema de jogo de Artur Jorge é não tratar os jogadores como peças de totó ou de pebolim. Há liberdade para eles se mexeram. Luiz Henrique recebe a bola de Igor Jesus na esquerda antes da obra-prima na finalização do quarto gol. No quinto, Tiquinho Soares, Savarino e Thiago Almada tramam juntos até a conclusão de Igor Jesus.

Duzentos e setenta dias depois do primeiro título como técnico, Artur Jorge está na final do principal torneio continental de clubes da América do Sul. Caminha na tentativa de repetir os feitos de dois compatriotas dele. Jorge Jesus levou o Flamengo ao título da Libertadores em 2019. Abel Ferreira, ao bicampeonato nas edições de 2020 e de 2021. Cada um ao seu estilo, os lusitanos descobriram a América do Sul como solo fértil para novas ideias de jogo.

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Marcos Paulo Lima

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