João Vítor cobra o pênalti enquanto o bate-boca continuava. Foto: Jonatan Dutra/Ferroviária SA
O presidente da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Leonardo Gaciba escreveu um texto quando era comentarista do grupo Globo com o seguinte título: “O pênalti fora da área!”. Era 28 de agosto de 2012. Ele criticava possível influência externa em um lance do duelo entre Athletico-PR e Joinville pela Série B do Brasileirão. No estilo “faça o que eu digo não faça o que eu faço”, o ex-juiz passa de pedra a vidraça na derrota do Brasiliense por 1 x 0 para a Ferroviária e a eliminação da Série D do Brasileiro. A discussão vai muito além desse jogo específico. Tem a ver, principalmente, com a falta de padrão das competições organizadas pela CBF. Uma com VAR do início ao fim, outra em um turno só e outras somente na fase decisiva, casos das séries C e D.
A série pela fase de 16 avos do mata da Série D estava entre Ferroviária e Brasiliense estava empatada por 0 x 0 no placar agregado até os 22 minutos do segundo tempo do jogo de volta na Fonte Luminosa, em Araraquara. Aí, Alex Murici derrubou Júlio Vitor fora da área. O juiz mineiro Antônio Márcio Teixeira da Silva acertou ao apontar falta, mas foi induzido pelo auxiliar ou interferência externa baseada em alguma imagem inconclusiva a rever a decisão e deu pênalti. Júlio Vitor decidiu a partida.
Leonardo Gaciba, hoje presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, deu opinião veemente sobre lance semelhante em 2012 corrigido a tempo de maneira polêmica. No segundo tempo do empate por 1 x 1 entre Athletico-PR e Joinville, o zagueiro do Furacão saiu jogando errado na Arena da Baixada e fez falta para evitar o ataque adversário. A infração aconteceu fora da área, mas o árbitro alagoano Francisco Carlos do Nascimento deu pênalti. Quando o Joinville se preparava para o ritual da cobrança, a auxiliar Lilian da Silva Fernandes Bruno avisou que o lance havia sido fora da área. O time catarinense bateu falta da meia lua e acertou o travessão.
Leonardo Gaciba abordou o lance da seguinte forma à época: “Não estava lá e não posso afirmar, mas acredito profundamente que o replay da televisão ‘salvou’ a equipe de arbitragem. Por que penso assim? Simples, caso a bandeira tivesse percebido no primeiro momento ficaria parada e não correria para a junção da área grande com a linha de fundo, confirmando a marcação do central. Mais, se o quarto árbitro tivesse a convicção no momento da marcação, não permitiria que o central retirasse os jogadores de dentro da área, posicionasse a bola na marca do pênalti para só depois passar a informação. Lembrem que eles estão com microfones. Então, por dedução e pelo tempo que demorou a informação para chegar ao árbitro, não tenho dúvida de que o quarto árbitro recebeu a informação ou viu o replay da jogada para ter a sua convicção”, opinou o então comentarista.
Ele foi além:
“Nunca os envolvidos irão admitir que isso ocorreu! Motivo: Caso o façam, o jogo pode até ser anulado pois os árbitros não podem valer-se de recursos televisivos para modificar ou ratificar suas decisões no campo de jogo!”, advertiu Leonardo Gaciba.
Mais à frente, o ex-árbitro faz uma cobrança. “Aí eu pergunto: Por que a Fifa não entende que o futebol precisa da tecnologia? Poxa, foi tão claro que a falta aconteceu fora da área que os próprios jogadores do Joinville aceitaram a volta da bola da marca do pênalti para falta. Está mais do que na hora de dar o braço a torcer para a JUSTIÇA!”, reivindicava em caixa alta.
Leonardo Gaciba encerra o texto de maneira ainda mais contundente.
“Então por que não utilizar um recurso tão próximo para corrigir uma enorme falha no exato momento em que ela é feita? Afinal, quem sofre após isso são os clubes que perdem seus pontos e até mesmo classificações e os árbitros que ficam marcados por erros graves que poderiam ser corrigidos instantaneamente. Sou a favor da tecnologia, sou a favor da Justiça. Errar é humano, persistir no erro, isso sim é burrice!”, cobra Leonardo Gaciba.
Errar é humano e Leonardo Gaciba e a CBF continuam errando. O comentarista passou de pedra a vidraça. Quem bradava por tecnologia para evitar o prejuízo dos clubes, hoje deixa várias partidas organizadas pela entidade máxima do futebol brasileiro com pontos cegos.
O único campeonato coberto de ponta a ponta pelo VAR, ou seja, nas 380 partidas, é a Série A. Os demais são híbridos, uma avacalhação. A tecnologia passou a ser adotada recentemente no início do segundo turno da Série B neste ano, ou seja, em 190 partidas — metade dos jogos. A ferramenta só entrará em cena na Série C a partir do quadrangular semifinal em 26 duelos. A quarta divisão contará com auxílio de imagens somente a partir das quartas de final.
Resumindo: como diria o castigado Gabriel Barbosa, a CBF trata as séries B, C e D como várzea. Desdenha do próprio torneio que organiza e dos investimentos dos 108 clubes dessas três divisões. A falta de isonomia — palavra da moda no futebol brasileiro — no direito ao VAR causa danos provavelmente irreversíveis como o da eliminação do Brasiliense e de tantos outros clubes prejudicados no primeiro turno da Série B, na fase de grupos da C e nas fases de grupos, 16 avos e oitavas de final da quarta divisão.
Detalhe: as outras divisões só terão VAR nas fases decisivas porque pressionaram a CBF. Virou praticamente um favor: “Estamos tirando do papel uma reivindicação que os clubes disputantes dessas séries faziam há tempos. É mais um aperfeiçoamento muito importante da CBF às competições nacionais. Isso trará mais justiça ao jogo e mais segurança aos árbitros. As Séries B, C e D mobilizam torcedores, comunidades, cidades e mereciam muito este investimento”, afirmou o então presidente interino da CBF, Antônio Carlos Nunes, em 22 de julho.
O constrangimento do técnico Elano Blumer da Ferroviária depois de ter sido beneficiado pela arbitragem resume o debate necessário. “O pênalti é complicado. Se tem o VAR, se o futebol é igual para todos, nas Séries A, B, C ou D, a gente tira essas dúvidas, não fica discutindo, os dois times brigando com o árbitro, fica uma coisa feia. Não é só porque jogamos a Série D que tem que ser bagunçado. Eu fico triste, me coloco na posição do Brasiliense. Não posso afirmar se foi ou não foi, não temos todas as imagens”, disse o treinador do time paulista.
Elano acrescentou: “É o que digo, a gente tem que olhar para o futebol independentemente da divisão, com igualdade para todos. Temos que olhar a base, o feminino, a Série A. Defendo a profissionalização do árbitro, para ser uma profissão apitar futebol. Normalmente a gente briga, mas um é preparador físico, um trabalha em outra situação e vem pra apitar um jogo, o culpado não é só ele. Fica feio quando acontecem essas situações, sinto muito, 15 minutos para bater um pênalti. Respeito, entendo e fizemos nosso papel. Foi marcado o pênalti, batemos e fizemos o gol”, argumentou o treinador da Ferroviária.
O que Leonardo Gaciba teria a dizer sobre mais um “pênalti fora da área”?
Em tempo: o Brasiliense foi eliminado apenas pela arbitragem? Não! Quem acompanha o blog sabe das minhas críticas a inúmeros erros não somente do atual campeão candango, mas, também, do Gama na Série D. Culpar somente o apito é injusto. É preciso admitir vários erros que foram apontados diversas vezes neste espaço depois dos sucessivos fracassos candango.
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