Marinho morreu nesta segunda-feira: 23/5/1957 - 15/06/2020
POR CARLOS MOLINARI*
Especial para o blog Drible de Corpo
Certa vez, em entrevista à revista Placar, em 1985, Marinho — no auge da forma — perguntava aos leitores: “Marinho é ou não herói?”. O ponta-direita, praticamente sinônimo dos bons tempos do Bangu, não se referia ao futebol, às belas atuações que davam alegrias aos torcedores alvirrubros. O camisa 7 referia-se à sua vida sofrida e que, enfim, após muito batalhar, tinha conseguido virar a mesa.
Nascido numa área pobre do bairro de Santa Ifigênia, em Belo Horizonte, Marinho era o sétimo filho de uma lavadeira que, ao invés de roupas, lavava cadáveres no necrotério da polícia mineira.
O garoto passou fome, passou frio, foi catador no lixão de Belo Horizonte, começou a andar com más companhias, até ser internado num reformatório da polícia, em Pirapora.
A vida de sofrimentos só começou a melhorar quando um massagista do Atlético-MG o levou para treinar nas categorias de base do “Galo”. Não havia a certeza de que Marinho daria certo como jogador, mas era uma esperança de livrá-los das ruas, dos bares e do cigarro, que já começava a usar com 12 anos.
Com a bola nos pés, o “crioulinho” agradou. Galgou espaço no clube alvinegro e em 1975 — com 18 anos — era transformado em profissional, pelas mãos do técnico Telê Santana.
Em 1976, foi convocado para a Seleção Brasileira de amadores que iria disputar os Jogos Olímpicos de Montreal. A carreira deslanchava, mas Marinho começava a se perder na fartura, nos prêmios, nos bichos. Com farra todos os dias, natural que o seu futebol fosse decaindo, ficasse na reserva do timaço que o Atlético tinha montado e, em 1979, fosse vendido para o América de São José do Rio Preto (SP), onde teria que, praticamente recomeçar a carreira.
No interior, Marinho brilhou. Foi vice-artilheiro do Campeonato Paulista de 1980; convocado para a Seleção Brasileira de Novos de 1981 e regressou para o Atlético-MG em 1982, por empréstimo de cinco meses.
Marinho era cobiçado por grandes clubes. Grêmio, Internacional, Santos, Cruzeiro, Flamengo queriam o passe do ponta-direita, mas o presidente do América-SP não liberava o jogador por quantia nenhuma.
Até que o Patrono do Bangu, Castor de Andrade, foi até São José do Rio Preto. Numa negociação irritante, em que Castor era chamado de “Esquilo de Andrade” pelo tal de Birigui, o “homem forte” decidiu a questão colocando o revólver em cima da mesa com uma das mãos e assinando com a outra um cheque de CR$ 40 milhões, mais o passe do ponta-direita Dreyfus.
Em janeiro de 1983, Marinho chegou ao Rio com 300 mil cruzeiros no bolso e hospedagem no Hotel Plaza, por ordem do “homem”.
No Bangu, Marinho demorou um tempo para se adaptar e deslanchar. Estreou durante o Campeonato Brasileiro da segunda divisão de 1983 e passou em branco. Só foi marcar o seu primeiro gol com a camisa alvirrubra num amistoso contra o Botafogo-PB, em João Pessoa. Mas, depois que se adaptou ao clima, ao grupo, foi um dos grandes nomes do time na campanha do Campeonato Carioca naquele ano. O time chegou em terceiro lugar, Marinho fez partidas incríveis, principalmente uma contra o América, no Maracanã, quando marcou dois gols. A vida começava a melhorar.
Em 1984, fez um péssimo Campeonato Brasileiro da primeira divisão, mas se regenerou ajudando o time a conquistar a XIV President´s Cup – um torneio internacional disputado na Coréia do Sul. No Carioca, foi o herói de uma vitória por 2 x 1 sobre o Vasco, ao anotar os dois gols. Com boas apresentações, Marinho era todo sorriso, tido como o jogador mais irreverente do futebol carioca. Soma-se a isto os bichos gordos de Castor de Andrade, que propiciaram a Marinho morar em um casarão no bairro de Jacarepaguá.
Seu grande ano foi realmente 1985, quando conquistou o prêmio de melhor jogador do Campeonato Brasileiro, ganhando a Bola de Ouro da revista Placar. O hábil ponta-direita colocou o time nas costas durante a fase final e levou o Bangu à decisão contra o Coritiba. Antes, tinha acabado com o Brasil de Pelotas, nas semifinais, anotando dois gols belíssimos.
O craque tinha a certeza do título, assim como as 91 mil pessoas que lotaram o Maracanã naquela noite de quarta-feira. Autor de 16 gols naquele Campeonato, Marinho era o vice-artilheiro do Brasileirão. Em campo, jogou tudo que sabia.
Com o placar empatado em 1 x 1, Marinho teve a chance de ouro aos 40 minutos do segundo tempo. Ele pegou a bola no meio de campo, driblou um, entrou na área e passou como quis pelo quase intransponível goleiro Rafael e viu o zagueiro Gomes embaixo da trave. Marinho fez o mais improvável: deu um leve toque por baixo das pernas do beque. Era um golaço: Bangu 2 x 1 e campeão brasileiro. O camisa 7 saiu para comemorar o gol que, com certeza, o levaria para a Seleção Brasileira, que consagraria sua carreira para sempre.
Porém, o estridente apito do árbitro Romualdo Arppi Filho paralisou a festa dos banguenses. Alegou impedimento no lance, embora tenha demorado demais para marcar — só o fez quando a bola já estava dentro do gol — e ignorou por completo a marcação do auxiliar que correu para o meio validando o lance. Um momento triste, estranho, polêmico, que prejudicou imensamente o Bangu.
Marinho ainda converteria sua cobrança na hora das penalidades, mas o título fugiu do Bangu. “Aquele gol ia me consagrar para o resto da vida” — lamentava o craque em qualquer entrevista que dava.
Mesmo valorizado, com o Flamengo tentando comprá-lo, Marinho continuou no Bangu para o Campeonato Carioca. Fez outra grande campanha até chegar à final contra o Fluminense. O ponteiro fez 1 x 0, gol de cabeça logo aos quatro minutos. O tricolor virou. No último minuto, Marinho fez um lançamento de um campo a outro para Cláudio Adão aproveitar. O centroavante foi derrubado na área, desta vez o “larápio” era José Roberto Wright, que não marcou a falta. Marinho perdia, outra vez por causa da arbitragem, a chance de ganhar um título em 1985.
O erro (ou o roubo) custou a Marinho CR$ 60 milhões, que seria o prêmio que Castor de Andrade pagaria ao seu melhor craque pela conquista.
Apesar de tanto drama, Marinho era um profissional e em 1986 viveu outra frustração. Foi convocado pelo técnico Telê Santana para os treinamentos da Seleção Brasileira. Estava no grupo que poderia ir à Copa do Mundo do México, mas não foi aproveitado. Fez apenas dois amistosos, chegou a marcar um gol de cabeça diante da Finlândia, mas foi cortado pelo treinador. O craque estava acabado. Perdeu a cabeça. Foi aos jornais e denunciou Telê como “racista”, passou a peregrinar pelos bares, voltou a beber, a fumar, perdeu a alegria de jogar futebol. Pelo Bangu, fez uma temporada apagada.
Voltou a jogar seu bom futebol em 1987, garantindo para o Bangu o título da Taça Rio, referente ao segundo turno do Campeonato Carioca, e ainda ajudou o clube alvirrubro a chegar às semifinais do Campeonato Brasileiro, perdendo para o Sport, que acabaria se tornando o polêmico campeão daquele ano (em eterna disputa de tribunais com o Flamengo).
Voltou a ser notícia de jornal, chegaram a dizer que Marinho estaria sendo negociado com o Paris Saint Germain da França pela quantia fenomenal de Cz$ 15 milhões. Já cansado de tantas frustrações com a bola, Marinho advertia em entrevista ao O Globo:
“Pelo amor de Deus, que ninguém bote olho grande na minha venda. Além do Paris Saint-Germain, existe um clube belga querendo comprar meu passe. Posso ir para qualquer clube da Europa, como também acabar ficando o resto da vida no Brasil, jogando no Flamengo… de Varginha”.
Realmente, Marinho não foi para a Europa. No início de 1988, Castor de Andrade “presenteou” o bicheiro Emil Pinheiro, do Botafogo, com os passes do ponta-direita, do zagueiro Mauro Galvão e do meio-campo Paulinho Criciúma. A negociação não envolveu dinheiro e sim muitos pontos de bicho que eram de Emil e passaram a ser de Castor.
No Botafogo, Marinho poderia decolar se não fosse outra tragédia pessoal. Durante o Carnaval daquele ano, quando dava entrevista a uma emissora de tevê em sua mansão, em Jacarepaguá, o filho Marlon, de um ano e sete meses, caiu dentro da piscina, ninguém viu e o garotinho morreu afogado.
A decepção foi enorme. Em pouco tempo, Marinho estava separado da esposa, tinha largado os treinos, abandonara a mansão, passara a dormir dentro do Mercedes-Benz que tinha na época. Vivia bebendo e sequer tomava banho.
“A Mercedes era minha casa e seu porta-malas, meu guarda-roupa. Ali eu dormia bêbado”, confessou o ponta.
No Botafogo, jamais conseguiu se fixar entre os titulares e durante o título carioca do alvinegro, em 1989, Marinho disputou apenas três jogos. Estava descendo a ladeira. Jamais ganharia os mesmos salários de antes.
O futebol imitava a própria vida e estava totalmente indefinido para o jogador. O alvinegro não queria mais o “problemático” Marinho e ele voltou ao Bangu no segundo semestre de 1989. Foi agraciado com uma vaga na excursão à Europa — sendo reserva de Gilson na ocasião —, mas teve poucas chances durante o Campeonato Brasileiro da segunda divisão daquele ano.
Em 1990, voltou para outra paixão antiga: o América de São José do Rio Preto. No final do ano, retornou ao Bangu para a disputa da Taça Adolpho Bloch. Depois, foi jogar no desconhecido San José Oruro, da Bolívia, sua única experiência em clubes do exterior.
O técnico Moisés tentou trazê-lo para o Bangu, dar mais uma chance ao jogador em 1993, mas aos 35 anos e após uma vida desregrada, Marinho fez apenas dois amistosos. Em 1994, novamente Moisés tentou trazê-lo de volta ao mundo do futebol, novamente Marinho decepcionou, realizando apenas um jogo pelo alvirrubro durante o Campeonato Brasileiro da segunda Divisão.
A carreira já tinha acabado, mesmo assim, ainda assinou contrato com o Entrerriense, em 1995, e com o São Cristóvão, em 1996. Em 1997, com 40 anos, fez suas últimas partidas pelo Bangu durante o Campeonato Carioca. Era um reserva de luxo, que entrava quando o jogo já estava decidido, só para o deleite dos torcedores mais saudosistas.
O “herói” dos anos 1980, o jogador que foi o melhor do país em 1985 e que tinha enfrentado tantas adversidades na vida, parava definitivamente. O dinheiro que tinha ganho nos tempos fartos de Castor acabara, surrupiado por más companhias e inúmeras bebedeiras. Marinho estava pobre de novo e passou a treinar times das categorias de base do próprio Bangu, do Ceres-RJ e do Juventus-RJ. Ensinava aos garotos que era preciso ter comprometimento com o futebol, não perder a cabeça como ele e valorizar as oportunidades que aparecessem.
Era um outro Marinho, o ponta que chegou a ser comparado com Garrincha. Era o ídolo Marinho, o décimo maior artilheiro do Bangu, com 86 gols.
Todos os 86 gols de Marinho pelo Bangu
Vasco (6), Fluminense (5), Bonsucesso (5), Desportiva (4), Volta Redonda (4), América (4), Brasil-RS (3), Goytacaz (3), Olaria (3), Porto Alegre-RJ (3), Flamengo (3), Seleção do Qatar (3), Leônico (2), Lierse-BEL (2), Mixto (2), Madureira (2), Sobradinho (2), Campo Grande (2), Botafogo (2), Sport (2), Botafogo-PB (1), Campinense (1), América-SP (1), Rio Branco (1), Bahia (1), Seleção de Honduras (1), Bayer Leverkusen-ALE (1), Friburguense (1), Corumbaense (1), Uberlândia (1), Villa Nova-MG (1), Seleção da Coréia do Sul (1), Seleção do Iraque (1), Internacional (1), Americano (1), Entrerriense (1), Deportivo Quito-EQU (1), Mesquita (1), Barcelona-EQU (1), Joinville (1), Portuguesa-RJ (1), Cabofriense (1), Vitória (1), Selecionado de Valença (1).
*Historiador e jornalista, Carlos Molinari é autor dos livros Almanaque do Bangu, Nós é que somos banguenses e O livro dos craques.
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