A inabalável fé de Weverton e a inaceitável intolerância religiosa no futebol

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Em meio às comemorações de títulos neste fim de temporada do futebol brasileiro, tenho observado um certo incômodo, nas redes sociais e fora delas, com declarações de jogadores cristãos que atribuem a Deus a graça pessoal obtida nas quatro linhas. Sou evangélico. Independentemente da minha ou da sua opção, o respeito ao próximo inclui a religião. Considero contrassenso empunhar bandeira contra as mais diversas intolerâncias e usar o mesmo mastro para bater na fé alheia.

O goleiro Weverton, um dos heróis do Palmeiras no tri da Libertadores, é um dos alvos recentes da intolerância religiosa. Atribuiu o sucesso pessoal a uma experiência dele no mundo espiritual. “Deus nos agraciou com essa conquista para que não fique dúvida do quanto Ele é bom”, compartilhou em Montevidéu.

É razoável questionar por que Deus escolheria a camisa do Palmeiras na final da Libertadores para abençoar Weverton — e amaldiçoar o vilão Andreas Pereira do Flamengo. Acho que Ele tem demandas pandêmicas mais graves a tratar. O fato é que atacar a fé do goleiro, como fez o ator Paulo Betti, é intolerância religiosa.

“O discurso do goleiro do Palmeiras depois do jogo, aquela falação sobre Deus, quando devia estar comemorando, aquela cena dele rezando antes de começar o jogo”, debochou Betti. Mais grave: comparou a fé de Weverton com a de Bruno — condenado por sequestrar, assassinar e ocultar o cadáver da ex-namorada, a modelo Eliza Samudio. O ator pediu desculpa. Weverton perdoou.

Felipe Melo também foi ironizado. Usou o episódio das sete voltas até a queda das Muralhas de Jericó como metáfora dos sete jogos das oitavas da Libertadores até o tri contra o Flamengo.

Sim, há casos de proselitismo religioso. Gente que festeja título com faixa “100% Jesus” na cabeça e não cumpre 1% das ordenanças do Mestre. Mas não se engane: há intolerância religiosa no futebol. Mais fora do que dentro de vestiários ecumênicos. Lá dentro, acende-se vela para o santo protetor do clube, reza-se o Pai-Nosso, faz-se missa e culto. Líderes espirituais — como o vascaíno Pai Santana, que morreu em 2011 — trabalham sem discriminação.

O preconceito vem do lado de fora. Cita-se a Missão Atletas de Cristo quase sempre ironicamente. Baltazar é lembrado como “Artilheiro de Deus” em tom pejorativo. Ouço críticas aqui e ali porque está cheio de cristão nos times de futebol e eles só pedem música gospel no Fantástico quando fazem três gols. Kaká incomodava por festejar gol apontando para o céu, e títulos com a frase “Eu pertenço a Jesus” na camisa. A Seleção do Dunga foi batizada de “igrejinha” na Copa do Mundo de 2010.

Cuca é criticado porque usou camisa com a imagem de Nossa Senhora na campanha do bi do Atlético-MG. Paulinho chocava intolerantes ao escrever “Que Exu nos ilumine” antes dos jogos do Brasil na Olimpíada de Tóquio.

Você não é obrigado a professar a fé de ninguém. A respeitar, sim. Sempre.

Coluna publicada na edição impressa de sábado (4/12/21) do Correio Braziliense

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Marcos Paulo Lima

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