A história da única luta de Maguila (1958-2024) em Brasília no velho Mané Garrincha

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Era 14 de dezembro de 1991. Adilson Maguila Rodrigues, que morreu nesta quinta-feira, aos 66 anos, entrou no ringue do velho estádio Mané Garrincha na marra para colocar em jogo o cinturão de campeão sul-americano contra o chileno Miguel “Foreman” Cea. Disputado ao ar livre no centro do gramado do campo de futebol com transmissão do SBT à época, o combate quase foi cancelado.

A luta tinha patrocinadores. O empresário Dom Jack era o promotor do evento marcado para começar às 20h com uma sequência de oito combates. O mecenas chegou a anunciar o cancelamento alegando não ter dinheiro para honrar os compromissos. Os parceiros comerciais recuaram e decidiram não mais investir na luta.  Enquanto rolava uma queda de braço entre Irani, mulher de Maguila, e Abraham Katznelson, empresário de Maguila à época, com Dom Jack pelo pagamento da bolsa de US$ 35 mil, Maguila e Cea não saíam do hotel e a plateia ganhava chá de cadeira.

Chateado, Maguila havia treinado dois meses para o combate e decidiu pagar para ver. Assumiu a conta e desembolsou o cachê do chileno. Decidido, entrou no ringue e a luta começou à 0h40 de domingo. Restavam aproximadamente 1.500 pessoas à espera da luta principal. Os promotores acenaram com o pagamento de US$ 16 mil vindos do SBT e US$ 6 mil da venda de um carro.

“Eu vou tirar dinheiro do meu bolso para pagar a bolsa do chileno. Eu treinei dois meses para esse combate e vai ter luta”, desabafou naquela noite de sábado na capital do país. Cadeiras disponibilizadas no gramado deixaram os principais fãs do boxe pertinho das cordas — e do ídolo sergipano de Aracaju. Miguel “Foreman” Cea só havia recebido metade dos US$ 10 mil combinados com ele. Maguila depositou a diferença.

O golpe do nocaute contra Cea no Mané Garrincha. Foto: Antônio Cunha/CB/D.A Press

Maguila desembarcou em Brasília aos 33 anos. Acumulava 43 lutas no currículo. Ostentava 39 vitórias (31 nocautes) e quatro derrotas. Praticamente um sparring, o chileno foi além do esperado. Resistiu durante quatro assaltos, mas voltou a Santiago derrotado no quinto round por nocaute técnico justamente quando dominava o combate no Distrito Federal. O rival tentou se levantar, mas era tarde demais. A torcida havia decidido o duelo.

Miguel Cea tentou posar de dura na queda, mas o brasileiro manteve o cinturão de campeão sul-americano de pesos-pesados na 44ª das 77 lutas na carreira. Em certo momento, Maguila preocupou os súditos devido ao cansaço, ao desgaste, mas foi sustentado pelos gritos de “Maguila” da torcida brasiliense no Mané Garrincha no instante em que mais precisava. Castigado mo quarto round, Maguila chegou a sofrer um corte no supercílio.

O ringue montado no gramado do Mané para receber o combate entre Maguila e Cea. Foto: Antônio Cunha/CB/D.A Press

Quando a luta acabou, o sentimento de Maguila era de alívio por ter levado o desafiante à lona. “Graças a Deus eu fiz um grande combate. Passei por difíceis momentos, mas resisti e ganhei por nocaute. Aguentei os golpes, fui bastante castigado, mas me recuperei. Resisti muito. Quando a minha direita entrou, derrubou”, desabafou.

O pública à espera da luta entre Maguila e Miguel Cea nas cadeiras ao lado do ringue. Foto: Antônio Cunha/CB/D.A Press

Maguila encerrou o combate cantando no ringue improvisado no Mané Garrincha. Soltou a voz e escolheu o pagode “Dinheiro não há”, de Jair Rodrigues: “Dinheiro não há! Dinheiro não tem! Como eu não tenho dinheiro. não vou pagar a ninguém!”, ironizou, referindo-se ao calote dos patrocinadores e à grana que tirou do bolso para honrar o cachê do desafiante chileno.

No fim da luta, o empresário Dom Jack detonou Maguila. “Ele pode entrar na Justiça contra mim, mas acho que ele foi intransigente. Podia ter lutado na hora marcada e depois me processava. As pessoas que foram embora do estádio acabaram prejudicadas”, atacou. “Esperava 20 mil pessoas no estádio. O que posso fazer? “, alegou o empresário radicado em Brasília à época, alegando ter investido Cr$ 120 milhões à época.

Um dos pacificadores foi o senador Eduardo Suplicy. Ex-pugilista, o parlamentar deixou uma sessão extraordinária do Congresso para ir até lá colocar a casa em ordem. “Se o Maguila não tiver adversário, posso lutar com ele. Já o enfrentei num treino, em 1986, quando eu era meio-pesado”, brincou.

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Marcos Paulo Lima

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