A força do centrão da bola no futebol brasileiro em tempos de pandemia

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Um ano depois do desembarque do novo coronavírus no país, o futebol não tem vergonha de apelar ao “jeitinho brasileiro” para driblar a gravidade da pandemia. Proibida de organizar jogos em São Paulo, a Federação Paulista articulou a continuidade do Estadual no Rio. Depois do “não”, abriu negociações com Minas Gerais e Espírito Santo. No Distrito Federal, os clubes pediram asilo às cidades mineiras e goianas do Entorno, mas o presidente Daniel Vasconcelos teve o bom senso e a sensibilidade de convencer seus pares a suspender o torneio.

Entendo que os 26 estaduais — e o distrital no caso do DF — não podem acabar. Discordo do calendário extenso e dos formatos inadequados. Não há interesse da CBF nem das 27 entidades filiadas de revolucionar o sistema. O motivo é político: as federações são para o futebol brasileiro o que o centrão representa nas promíscuas relações com o governo federal.

Inertes, enfraquecidos ou bananas, mesmo, os clubes pagam caro por isso. São incapazes de dizer que seus jogadores não entrarão em campo na fase mais dramática da pandemia. O país ultrapassou a marca de duas mil mortes em 24 horas causadas pela covid-19.

O centrão da Câmara dos Deputados é capaz de eleger o presidente da República e garantir a governabilidade. O centrão do futebol também catapulta candidato a mandatário da CBF, dá estabilidade e perpetua no poder dependendo das benesses. Ricardo Teixeira reinou por 23 anos (1989 a 2012). Renunciou quando era investigado. Alegou problemas de saúde.

As 27 federações somam 81 votos (peso 3) no colégio eleitoral da CBF contra 40 dos 20 clubes da Série A (peso 2) e 20 da B (peso 1). Os 27 presidentes das federações recebem mesadas da entidade máxima do futebol, além de mimos como viagens pelo mundo na chefia de delegações. Em contrapartida, com raras exceções, aprovam tudo sem questionar nada.

As federações interessam mais à CBF do que os clubes. Por isso, têm 15 a 20 datas por ano para os deficitários estaduais. É o período da temporada reservado aos apadrinhados ganharem um bom trocado. Dos times, a CBF suga jogadores para as mais diversas seleções.

É assim há dois séculos. Por que mudaria na pandemia? O futebol parou na marra em 2020, não porque os dirigentes são bonzinhos. Se houvesse coerência, suspenderiam novamente.

O contexto atual é pior que o do ano passado. Sim, o futebol investiu em segurança. Testa mais do que outras indústrias. A questão é o papel social do esporte. O centrão do futebol ignora isso e continuará usando o jeitinho brasileiro para driblar a pandemia. Afinal, o show de horrores de alguns deles não pode parar.

*Artigo publicado nesta segunda no Correio Braziliense

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Marcos Paulo Lima

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