Waldir Peres: inspiração em Gilmar, reconhecimento de Breitner e os desabafos sobre a Copa de 1982

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Era uma vez, um goleiro que escolheu ser goleiro por causa de um goleiro bicampeão mundial. “A molecada da minha rua adorava ouvir as defesas do Gilmar pelo rádio nas Copas de 1958 e de 1962. Quando menino, me acostumei a ouvir os locutores exaltarem o nome dele. Achava aquilo o máximo. Foi aí que decidi para mim mesmo: um dia vou ser que nem ele”, contou um dia Waldir Peres de Arruda ao colega jornalista Paulo Guilherme, autor do livre Goleiro: Heróis e anti-heróis da camisa 1. Aos 66 anos, o prata da casa da Ponte Preta, ídolo do São Paulo, com passagem pelo Corinthians e jogador da Seleção em três Copas do Mundo morreu neste domingo, aos 66 anos, em Mogi Mirim (SP), vítima de um infarto fulminante.

Era uma vez, um goleiro da Seleção Brasileira que ousou parar duas vezes um dos maiores cobradores de pênalti de todos os tempos em um amistoso disputado em Stuttgart. Ao fim da vitória por 1 x 0 sobre a Alemanha, ouviu Paul Breitner dizer à imprensa. “É preciso aceitar que apareceu um brasileiro chamado Waldir Peres que é tão esperto como eu sempre pensei que só eu fosse”. No dia seguinte ao jogo, o jornal Sueddetsche Zeitung também se rendeu ao escrever: “Waldir Peres acabou com a lenda de que, no Brasil, o goleiro é aquele que não conseguiu jogar bem em nenhuma posição”.

“É preciso aceitar que apareceu um brasileiro chamado Waldir Peres que é tão esperto como eu sempre pensei que só eu fosse”

Paul Breitner, sobre dois pênaltis defendidos em amistoso contra o Brasil

Faltava um ano para a Copa do Mundo de 1982. A Alemanha bombardeou o Brasil. Waldir Peres operou milagres. Na hora da cobrança de um pênalti a favor da Alemanha, contou com a ajuda do amigo Júnior. O Capacete lembrou que Breitner havia cobrado no canto direito na final da Copa do Mundo de 1974, contra a Holanda. Waldir Peres seguiu o conselho, deu um passo à frente e saltou para o lado direito, defendendo a cobrança. O árbitro mandou voltar acusando Waldir Peres de ter se adiantado. Breitner trocou o canto. Bateu no esquerdo e o brasileiro defendeu novamente e mandou a bola para escanteio.

Ao explicar a sequência de milagres, Waldir Peres contou. “Eu sempre me adiantei nas cobranças de pênalti. O juiz podia mandar repetir uma vez, mas não teria coragem de exigir outra cobrança”, explicou o homem de confiança de Telê Santana para a Copa de 1982.

Goleiro titular da Seleção Brasileira de 1982, uma das melhores da história

No Mundial da Espanha, Waldir Peres viveu um dos momentos mais tensos da carreira ao sofrer um gol da União Soviética entre as pernas na estreia da Seleção Brasileira. Em 16 de junho de 1982, o Jornal da Tarde publicou uma frase atribuída ao goleiro sobre o lance que abriu o placar para os soviéticos. “Quando olhei para trás e vi a bola lá no fundo do gol, pensei comigo: mas será que vim aqui para fazer essa merda?”

Na volta ao Brasil depois da Copa de 1982, Waldir Peres desabafou: “Só a minha família sabe o que passamos depois da Copa. Outro goleiro não conseguiria se recuperar daquilo. Não tem jeito, na Seleção Brasileira, você tem que ser campeão do mundo para ter algum reconhecimento. O goleiro brasileiro sempre foi muito criticado. Olha, o frango não é diferente de outro gol que a gente toma, não vale mais por ter sido uma falha. É apenas um gol. O importante é não deixar vir o próximo. O goleiro tem de ser assim: cabeça fria e corpo quente”, disse a Paulo Guilherme, autor do livro Goleiros: Heróis e anti-heróis da camisa 1.

Era uma vez, o goleiro que sofreu os três gols de Paolo Rossi na Tragédia do Sarriá e se autodefendeu das cobranças. “No primeiro gol, o Rossi cabeceou livre de marcação. No segundo, bem, não fui eu quem errou o passe.  Aquela jogada me pegou de surpresa. E no terceiro gol foi outro erro. Tínhamos treinado que depois de rebater a bola para fora da área o time todo deveria sair fazendo a linha de impedimento. Por isso, quando o Paolo Rossi apareceu livre desviando a bola para o gol, minha primeira reação foi erguer o braço alegando fora de jogo. Foi quando olhei para trás e vi o Júnior parado em cima da linha dando condição ao italiano. Nem reclamei com o juiz”, lembrou.

Valeu, Waldir Peres! Descanse em paz.

Títulos

  • São Paulo

Campeonato Brasileiro: 1977

Campeonato Paulista: 1975, 1980, 1981

  • Corinthians

Campeonato Paulista: 1988

  • Seleção Brasileira

Taça Oswaldo Cruz (1976)

Copa do Atlântico (1976)

Copa Roca (1976)

Taça Rio Branco (1976)

Marcos Paulo Lima

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