Cosette Castro & Sofia Duarte

Brasília – Em um mundo em constante estímulo ao individualismo, qual a diferença entre morar em um edifício ou  quadra onde os vizinhos não se conhecem e viver uma comunidade urbana que apoia e incentiva a criatividade das crianças?

Para refletir sobre essa diferença, a edição de hoje traz o relato da estudante de Arquitetura e Urbanismo na UnB, Sofia Duarte, 19 anos, que mora na Capital Federal. Com suas memórias da infância e adolescência vivendo na Asa Norte, Sofia descortina uma Brasília acolhedora e solidária, onde teve a oportunidade de construir amizades duradouras estimulada por pais participativos.

Ao contar sua história,  ela mostra na prática que criar crianças e adolescentes saudáveis depende sim  da participação, da presença e envolvimento dos pais. E, principalmente, do incentivo à vida comunitária e à criativdade. Com a palavra, Sofia Duarte.

“Tive uma infância maravilhosa, onde tudo começou nas brincadeiras nos parquinhos públicos. Nasci e cresci na 416 Norte e falar sobre esse tema traz um turbilhão de memórias. Desde bebê, brincava nos parquinhos da quadra, onde conheci meus melhores amigos.

Como fruto da nossa amizade, nossos pais criaram uma relação muito forte. Os parquinhos, além de serem lugares de convivência para crianças, também criam laços entre os adultos que as acompanham. Escrever sobre a relação dos pais é relevante, já que eles, tão animados com a ideia de uma nova vida coletiva, começaram várias brincadeiras dentro do espaço urbano. Hoje lembro delas como minhas memórias preferidas.

Todo ano acontecia a caça aos ovos na Páscoa, uma gincana em que eles faziam uma caça ao tesouro pela vizinhança e tínhamos que seguir as pistas andando pelas quadras para achar os chocolates. Depois de encontrar tudo, nos reuníamos na quadra de esportes para pintar cascas de ovo de colorido e fazer cartões de Páscoa.

A mesma dinâmica acontecia no Halloween, quando os pais criavam uma história misteriosa que precisávamos desvendar andando pelos blocos e gramados das entrequadras, onde cada um deles nos esperava vestido de monstro, dando dicas de onde estavam os doces.

Esse tipo de evento também era combinado com intervenções no espaço público, como no Dia das Crianças de 2016, quando o prefeito da época, pai de uma das crianças da quadra, realizou um evento para que as crianças pintassem o muro do parquinho. Nossos desenhos marcaram a mureta do parquinho por um longo tempo.

A convivência coletiva não se limitava apenas às datas comemorativas. Também por volta de 2016, houve a iniciativa de criar uma horta comunitária feita pelos vizinhos, que se tornou mais um lugar de brincadeiras. Eu adorava escalar as amoreiras que tinham lá perto, brincar nas poças de lama que se formavam nas chuvas e experimentar as frutinhas e verduras que ajudamos nossos pais a plantar.

Havia brincadeiras perto da horta e outras que também aconteciam fora dos parquinhos com o passar do tempo. Entre elas  escorregar nos gramados com pedaços de papelão, escalar as árvores dos canteiros dos prédios, se pendurar nos trapézios improvisados que ficavam nas árvores, brincar de pique-esconde embaixo dos pilotis dos prédios. Eu poderia ficar horas e horas lembrando.

Essas vivências me fazem refletir sobre a riqueza de crescer em meio a tanta gente, especialmente em uma cidade como Brasília, onde muitas famílias chegam de fora e constroem suas vidas. Nesse cenário, as amizades formadas na infância se transformam em uma segunda família, construída no cotidiano e na partilha dos mesmos espaços, como foi pra mim.

Os espaços públicos voltados para as crianças deixam de ser apenas lugares de brincar e passam a ser espaços de formação, onde o sentimento de pertencimento se constrói. Por isso, é fundamental que existam próximos a todo tipo de moradia, pois, quando pensados com cuidado, podem sustentar uma infância mais livre e fortalecer as conexões que fazem da cidade um lugar vivido, e não apenas habitado”.

O Coletivo Filhas da Mãe acredita no poder das relações intergeracionais, onde  um primeiro passo é a escuta e leitura das novas gerações. Também acreditamos na importância de ocupar a cidade para além da vivência individualizada e no cuidado coletivo como possibilidade tirar pessoas de todas as idades da solidão, transformando as cidades em espaços de conexão e encontros.

PS: Conheça aqui a pesquisa “Retratos do Cuidado” lançada esta semana pela Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), em parceria com outros países.