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Quem Cuida de Quem Cuida?, 06 Anos Depois

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Cosette Castro

Brasília – Quando começamos a idealizar o Coletivo Filhas da Mãe, no segundo semestre de 2019, uma pergunta nos atravessava: “Quem cuida de quem cuida?”.

Como familiares de pessoas com demência, vivíamos diariamente a dor da perda em conta-gotas, a solidão, o medo e a falta de informações. Foi esse vazio que nos levou a pesquisar quem são as pessoas cuidadoras no Distrito Federal, revelando um cenário de empobrecimento, endividamento e envelhecimento acelerado entre quem cuida, inclusive nós mesmas.

Além da sobrecarga física e emocional, havia o peso da invisibilidade. Estávamos confinadas a um papel social que pouco se vê, pouco se reconhece e quase nunca se valoriza: o de cuidadoras familiares. Sabíamos que era urgente nomear essa realidade, compreendendo como a desigualdade de gênero estrutura e reforça a sobrecarga e o adoecimento das mulheres.

O nome Filhas da Mãe não foi acaso. Somos todas Filhas da Mãe – como outras bilhões de pessoas no planeta –  e temos orgulho disso. Reapropriar esse termo foi um gesto político: desconstruir o palavrão, ressignificar, existir sem pedir licença. Ao longo de seis anos, afirmamos nossa presença e recusamos qualquer forma de apagamento.

Nos primeiros passos, queríamos chamar atenção para o cuidado sem remuneração e falar transversalmente sobre demências. Em 2019, quase não havia informações acessíveis sobre tipos de demência, sintomas e fases. Mas nunca quisemos ficar presas à doença. Informação melhora a vida de quem cuida e de quem é cuidado, mas o cuidado coletivo vai muito além disso.

Seguimos construindo acolhimento, escuta e troca entre mulheres que cuidam sem remuneração. Com o tempo, entendemos que não são apenas as cuidadoras familiares que sustentam esse trabalho invisível: amigas e vizinhas também cuidam e, muitas vezes, são a única rede afetiva de quem vive só. A pandemia escancarou isso.

O envelhecimento populacional, por sua vez, nos colocou diante de um espelho nacional. Estamos envelhecendo – todas nós – e, em algum momento, também poderemos precisar de cuidados. Por isso seguimos debatendo os diferentes tipos de velhices, em especial a das mulheres, participação social, qualidade de vida e políticas públicas, contribuindo ativamente para sua construção.

Nossas ações, como o blog no Correio Braziliense, as redes sociais digitais, entre elas a comunidade do Coletivo no WhatsApp, o programa de entrevistas mensal Terceiras Intenções, as lives, seminários, pesquisas, campanhas e conferências distritais, regionais e nacionais, são estratégias. Estratégias de existência, resistência e bem viver.

Promovemos o direito ao riso, à criatividade, ao lazer e ao encontro com a natureza. Criamos um Bloco de Carnaval, Oficinas de Escrita Criativa que ocorrem semestralmente e Caminhadas semanais nos parques do Distrito Federal abertas à comunidade. Além disso, em 2026 realizaremos em setembro a 5a. Caminhada da Memória no Distrito Federal, um mês especialmente voltado para a promoção da saúde de quem cuida e de campanhas de prevenção e esclarecimento sobre as demências.

Desde o início afirmamos: cuidar não é destino feminino. É construção histórica e pode, sim, ser transformada. Seguimos juntas, rompendo barreiras e tecendo redes para que o cuidado seja coletivo, digno e compartilhado.

Em 2026 seguiremos contribuindo para a construção de uma Sociedade do Cuidado igualitária, com  corresponsabilidade familiar e social.

PS: Durante janeiro e fevereiro as atividades do Coletivo Filhas da Mãe estão voltadas para as Oficinas de Samba no Pé e Oficinas de Adereços, preparatórias para o Carnaval 2026.

PS 2: Marque na Agenda: Já temos a data do Esquenta Carnaval 2026 na Asa Sul: domingo, dia 08 de fevereiro, das 14 às 17h, na Infinu (Beco da 506 Sul). E a festa de Pós-Carnaval vai acontecer na Asa Norte com o Bloco do Rivotrio e outras parcerias: domingo, dia 22/02, a partir das 10h, no Mimo Bar (Quadra 205).

Cosette Castro

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Cosette Castro
Tags: Bloco Filhas da MãeCarnaval 2026covid-19cuidadoCuidado Coletivocuidado familiarcuidadoras familiaresenvelhecimentoSociedade do Cuidado
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