A Vida Entre Pequenas e Grandes Violências Cotidianas

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Cosette Castro

Brasília – O machismo estrutural  naturalizado entre homens, mesmo os progressistas,  ainda me surpreende. E entristece.

Exemplos não faltam. Imagine uma sala com 96 mulheres e quatro homens. Começo a falar no feminino.  Um deles questiona: “como assim uma fala no feminino?”

Não estamos mais no tempo em que as regras gramaticais eram elaboradas apenas por homens. Mas são essas regras, onde só os homens aparecem, que ainda seguem valendo.

Elas foram escritas por homens em um tempo em que as mulheres eram proibidas de estudar, inclusive nas universidades, de fazer cursos,  como o de Belas Artes, ou de terem vidas independentes. Sequer podiam ser juristas e participar da academia.

As leis e as normas linguísticas foram estabelecidas por homens. E no Brasil eles, homens brancos, seguem sendo maioria nos tribunais e nos espaços de poder. Pode parecer natural, mas não é.

Vivemos em uma sociedade pensada por homens que seguem privilegiando os homens. Está mais do que na hora de subverter a língua portuguesa para incluir as mulheres, assim como regras que só privilegiam um grupo social. Esta na hora das mulheres se candidatarem e serem eleitas. De propor novas leis, pois não somos apêndices.

A boa notícia é que as mulheres estão se candidatando e se elegendo e muitos homens estão se somando às mulheres e à diversidade de gêneros para transformar nossa língua e nossa sociedade. Inclusive muitos deles se juntaram à chamada do Presidente Lula contra a violência e o feminicídio e também à campanha de vídeo  “Homens que Apóiam e Defendem as Mulheres”, realizada pelo Coletivo Filhas da Mãe.

No século XXI é urgente falar no feminino para resgatar e homenagear as mulheres que foram caladas e apagadas antes de nós. E para resgatar aquelas que ainda vivem sob o manto do apagamento e do medo.

As mulheres já não são mais educadas exclusivamente para serem cuidadoras familiares. Nos damos as mãos, criamos redes de apoio, reivindicamos múltiplas formações e outros espaços de atuação, inclusive a política.

Entretanto, a maior parte do trabalho de cuidado segue sendo invisibilizado, feminino e não remunerado. O cuidado familiar, independente de quem se cuida,  segue sendo considerado um “não trabalho” (Castro, 2021). Apesar de consumir entre 12 e 14h do dia de quem cuida. Todos os dias.

Serão necessárias muitas campanhas públicas para desnaturalizar essa situação entre homens e também entre as mulheres. E para incentivar pedagogicamente a corresponsabilidade masculina no cuidado doméstico e familiar.

No Coletivo Filhas da Mãe falamos e escrevemos no feminino há 06 anos. Desde dezembro de 2019 quando criamos uma rede de apoio para acolher quem cuida. A pergunta que nos uniu foi “quem cuida de quem cuida?”

O cuidado de pessoas idosas, crianças e adolescentes, pessoas enfermas e pessoas com deficiência é uma questão presente em todos os lares, sendo mais pesado para as famílias de baixa renda. E desde dezembro de 2024 passou a ser parte da Política Nacional de Cuidados. A realidade de quem cuida também é prioridade na PNC.

Nós, mulheres, independente da idade, cuidamos em todos os cantos e recantos do país. Somos mais de 90% de quem realiza cuidado doméstico e cuida de um ou mais familiares sem remuneração (sem contar as vizinhas e amigas cuidadoras que sequer entram nos dados oficiais). O apagamento do trabalho de cuidado e sua gratuidade são formas de microviolências cotidianas.

Essas microviolências cotidianas, aliadas à violência doméstica e ao risco da violência extrema que é o feminicídio, fazem com que as mulheres de todas as idades sofram diariamente sobrecargas de medo e estresse.

Para construir uma Sociedade do Cuidado há uma longa caminhada de aprendizado e diálogo a ser incentivado. Validar as variações linguísticas que tentam expressar o cuidado de gênero é um bom começo.

Na construção de uma Sociedade do Cuidado, é preciso desconstruir todos os tipos de violências, estimulando desde a infância o respeito a todas as pessoas, em especial às mulheres.

PS: Este texto foi originalmentre publicado em 2024 e atualizado para esta edição

Cosette Castro

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