Cosette Castro
Brasília – No Coletivo Filhas da Mãe diariamente damos apoio às pessoas que têm mães, pais ou outros familiares com demências, entre elas o Alzheimer. Ele é o mais conhecido tipo das síndromes neurodegenerativas progressivas e sem cura.
Apoiamos e acolhemos pessoas que cuidam familiares, assim como amigas e vizinhas que cuidam sem remuneração em todas as etapas, do começo a fase final da doença. Um processo difícil e doloroso.
É muito desafiador cuidar de alguém que vai esquecendo da gente, de tudo ao seu redor e de si mesma/o aos poucos, todos os dias.
Trata-se de um desafio físico e emocional diário que se estende por anos, até mais de 15 anos. Em meio ao medo da perda, das entradas e saídas de hospitais, há um estresse constante, silencioso que a maioria da população não conhece por falta de campanhas nacionais sobre as fases das demências.
É neste contexto que esta semana assistimos a quase cassação do deputado Glauber Braga (PSOL/RJ) que há nove anos tem mandato parlamentar. Ele é conhecido por suas denúncias contra o orçamento secreto no Congresso. E isso tem incomodado parlamentares que não estão acostumados a prestar contas sobre os seus gastos e são contra a transparência.
Entre ameaças e perseguições por suas denúncias, o deputado Glauber Braga também passou a sofrer constante assédio físico, verbal e emocional. Essas são táticas características de perseguidores radicais de direita a políticos e juristas dos quais discordam.
Segundo especialistas sobre o radicalismo de direita, nos últimos 10 anos essa prática, em geral paga, passou a acontecer com frequência em locais públicos, como restaurantes, aeroportos e até hospitais. E também dentro do Congresso Nacional.
Foi o que ocorreu com Glauber Braga. Ele foi seguido e assediado sete vezes pela mesma pessoa, um representante do MBL, com insultos contra ele e seus familiares.
Ao não atingir seus objetivos, o provocador profissional passou a ofender a mãe do deputado que tinha Alzheimer avançado e se encontrava hospitalizada em uma situação muito frágil.
Em meio ao agravamento da doença da mãe, o deputado passava por um momento de grande estresse e fragilidade emocional. Foi esse contexto que o provocador escolheu para insultar a mãe de Glauber Braga. Isso ocorreu na entrada da Câmara dos Deputados e não aconteceu por acaso. Foi um assédio planejado para calar politicamente o Deputado carioca.
Com isso, Glauber Braga virou alvo do pedido de cassação solicitado rapidamente por seus adversários políticos. O assediador até hoje não foi punido, mas Dona Saudade Braga, faleceu 15 dias depois do episódio, aos 75 anos. Já o Deputado, mal teve tempo de fazer o luto da sua mãe em meio a ameaça de perda do mandato.
Esta semana o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, decidiu acelerar o processo de cassação e, junto, colocou em pauta um projeto de anistia a golpistas e a outros criminosos condenados (leia o PL aqui). O PL da Dosimetria foi aprovado de madrugada e seguiu para o Senado.
No dia da votação da possível perda de mandato, 10/12, coincidentemente Dia Internacional dos Direitos Humanos, Glauber Braga subiu na tribuna e ocupou por uma hora a cadeira do Presidente da Casa. Nela, denunciou que a tentativa de cassação era política e chamou atenção para o PL da Dosimetria.
A sequência do que ocorreu no Congresso chocou o país.
Foi bem diferente do tratamento dado em agosto a um grupo de deputados bolsonaristas que permaneceram 48 horas no plenário usando a cadeira do Presidente para exigir anistia aos golpistas. Desta vez, Hugo Mota chamou a polícia parlamentar para retirar a força o deputado carioca. Em seguida, censurou a TV Câmara, tirando-a do ar, expulsou do plenário jornalistas e funcionários da Câmara em uma clara censura à liberdade de imprensa.
Hugo Mota também fechou os olhos para a população que, em consulta pública, em 2025 disse “Não à Anistia aos Golpistas’ com mais de 1 milhão de votos. Sem se importar, ele desrespeitou a democracia várias vezes em uma semana.
No Coletivo Filhas da Mãe acreditamos que apenas com a democracia é possível construir uma Sociedade do Cuidado com respeito à população, políticas públicas, participação social e liberdade de imprensa.
Por isso, no domingo, dia 14, será realizada a última caminhada do ano na Esplanada dos Ministérios. Será uma Caminhada Urbana saindo da Torre de TV, às 8h30. Em defesa da democracia.
No mesmo domingo, haverá atos em todo o país. Em Brasília, a concentração será no Sesi Lab, a partir das 10h.

