Por uma Cultura do Cuidado 2

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Ana Castro & Cosette Castro

Brasília – Uma das poucas coisas que sabemos sobre o futuro, mesmo sem bola de cristal, é que, em algum dia, ou seremos cuidadoras familiares ou seremos cuidadas por alguém. A afirmação, que hoje pode parecer assustadora, se refere ao crescente envelhecimento populacional e à qualidade de vida que podemos cultivar desde cedo.

Pensando nisso, o Coletivo Filhas da Mãe, desde a sua criação há 2 anos e 7 meses, tem incentivado o debate e a reflexão sobre a necessidade de estimular e desenvolver uma cultura do cuidado em todo o país.

Apesar do que muita gente acredita, a cultura do cuidado não se limita ao espaço doméstico ou à família.

Se refere a algo mais amplo. Incluí o cuidado coletivo, comunitário, de nossas crianças, adolescentes, adultos até chegar às pessoas com 60 anos ou mais. Algo que as comunidades indígenas praticam desde a sua origem.

A cultura do cuidado é o contrário da cultura do silêncio.

A cultura do silêncio é um tipo de apagamento por opção. É conivente. Bem diferente da perda da memória das pessoas com demências.

A cultura do silêncio é prima do individualismo que, por sua vez, é irmã da competitividade.

Ela (a cultura do silêncio) se cala contra as constantes violências nas cidades, nos campos e nas florestas. Fecha os olhos sobre a crescente violência contra crianças e mulheres em todo o país. Só no Distrito Federal, foram 11 feminicídios até o final do mês de julho, sem contar os abusos contra crianças e adolescentes.

Ela fecha os olhos para o envenenamento de nossos rios, campos e alimentos. Silencia em relação à negligência, ao abandono e violência contra nosso maior patrimônio: as pessoas idosas, aquelas que carregam algo mais do que a memória individual ou familiar.

Pessoas com 60 anos ou mais são portadoras da memória coletiva, às vezes sem se dar conta de tudo que aprenderam, viram ou ouviram. Às vezes, sequer se dão conta do que essa experiência representa em termos de história, de coletividade, pertencimento e nação.

São historias familiares, sobre bairros, comunidades, cidades, estados e até países. Mas que, no caso brasileiro, não são protegidas nem cuidadas.

Como não há tempo para parar, escutar e ver, como o coelho de Alice, no livro “O País das Maravilhas”, essas histórias se perdem entre paredes caindo no esquecimento. Sem serem preservadas, vão se perdendo. Como não são cuidadas, vão se apagando.

Assim como (muitas vezes) as pessoas com 60 anos ou mais não são cuidadas dentro da família, também não são protegidas pelo Estado. Um Estado que se desresponsabiliza por seus cidadãos e cidadãs. Que cortou o orçamento da saúde, da educação e da assistência social pública por 20 anos.

E sem cuidado do Estado, como haveria estímulo para desenvolver uma cultura do cuidado no seio social, entre a sociedade civil?

Pensando nisso, e convivendo cotidianamente com os desafios das perdas cognitivas, de linguagem e de memória, o Coletivo Filhas da Mãe vem desenvolvendo várias ações para estimular uma cultura do cuidado em diferentes âmbitos.

Independente da idade, raça, religião, local de moradia ou orientação sexual chamamos atenção sobre a importância do cuidado coletivo, assim como não esquecemos as diferentes subjetividades, estimulando o autocuidado de mulheres cuidadoras.

As mulheres representam a maioria da atividade de cuidado (96%), um trabalho majoritariamente invisível e sem remuneração. E quando pago, recebem salários aviltantes, sem reconhecimento profissional.

Neste sábado, 13 de agosto, o Coletivo Filhas da Mãe, que é laico,  convida você a participar de mais uma atividade sobre a cultura do cuidado. Desta vez a partir da perspectiva da espiritualidade.

Convidamos representantes de diferentes religiões para uma reflexão sobre a cultura do cuidado, sobre a violência, o preconceito de idade e sobre a cultura da paz.

O encontro inter-religioso vai acontecer na Catedral Anglicana de Brasília, na 309 Sul, em Brasília, às 10h, e conta com o apoio da RENADIR, a Rede Nacional pela Diversidade Religiosa e pela Laicidade e da URI, sigla em inglês da Iniciativa das Religiões Unidas.

Todas e todos são bem-vindos, inclusive as pessoas agnósticas.

Cosette Castro

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