Você Quer Morrer de Velhice? Nós Não Queremos

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Ana Castro e Cosette Castro

Brasília – Junho acordou violeta no Distrito Federal. A cor chama atenção e denuncia a violência contra idosas e idosos em todo planeta. E, embora culmine no dia 15 de junho., há atividades sobre o tema durante todo o mês.

A data (15J ) foi escolhida como o Dia Mundial da Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ela foi estabelecida em  2006 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência a Pessoa Idosa.

Para além das violências contra idosas e idosos mais conhecidas, a física, a psicológica, a sexual, a patrimonial e a financeira, há o abandono e o descaso. E não para por aí, como comentamos em texto anterior. Existe a violência social (preconceito) e a violência institucional (oriunda do Estado, em geral por omissão).

Esta semana a mídia mostrou que mais um tipo de violência social contra idosas e idosos – em escala internacional – está em marcha, prevista para entrar em vigor em janeiro de 2022.

Uma violência que passou pela anuencia de  cerca de 200 cientistas  e está sendo inserida na Classificação Internacional de Doenças (CID 11). A CID é adotada por um dos organismos internacionais mais respeitados do mundo: a Organização Mundial da Saúde (OMS)  para padronizar diagnósticos.

Para quem não sabe, a CID é utilizada  por seguradoras cujos reembolsos dependem da codificação de doenças. Por gestores nacionais de programas. Por especialistas em coleta de dados e outros profissionais que acompanham o progresso global e determinam a alocação de recursos na área.

A proposta da nova CID, acatada em 2019 em assembleia da OMS, afirma que a velhice é uma doença, como um diagnóstico,  sob o código MG2A. com sinais, sintomas ou achados clínicos.

Você quer morrer de velhice? Nós não.

Não é normal morrer disso. Velhice não é doença, assim como adolescência e gravidez também não. São etapas da vida.

A partir do momento em que se considera que uma pessoa morreu de velhice, há inúmeras implicações sociais. econômicas, culturais. E éticas.

Por exemplo: como os governos vão saber que políticas públicas serão adotadas para melhorar as condições de saúde de determinados públicos, particularmente os acima de 60 anos?

Ou para impedir que exista uma corrida nos seguros?. Ao fazer um seguro de vida aos 65 anos, por exemplo, a empresa vai perguntar se você tem alguma doença. E você terá de responder: sim, velhice.

Se velhice depende da faixa etária, somos velhas e velhos a partir dos 60 no Brasil. Onde fica  a longevidade que conquistamos, com qualidade de vida e novas possibilidades e experiências após os 60 anos?

Seremos “doentes” por 10, 20, 30 ou 40 anos, segundo a nova Classificação Internacional de Doenças.

Há várias consequências na decisão da OMS de trocar o termo senilidade (como era usado até então na CID 10) por velhice e considerá-la uma doença . E não se trata apenas de uma questão semântica.

Existe o risco de se mascarar problemas de saúde reais dos idosos e idosas. De aumentar o preconceito já existente. E, como se fosse pouco, há o risco dessa classificação interferir no tratamento, na  pesquisa de enfermidades e na coleta de dados epidemiológicos.

Vale perguntar a quem interessa que as pessoas com +60 sejam descartadas e tornadas oficialmente doentes? Esta não é a melhor forma de defender um dos grupos  populacionais  que mais crescem no mundo,  inclusive no Brasil.

O Outro Lado

Instituições de todo o mundo se juntaram para barrar  a  nova classificação. Entre elas a Aliança Global de Centros Internacionais de Longevidade, coordenada pelo epidemiologista brasileiro  Alexandre Kalache.

No Brasil, desde a semana passada  estão sendo realizadas lives para esclarecer e debater o tema.

Há posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), também  contrária a nova classificação. E uma votação na internet onde você pode se posicionar.

Nós, do Coletivo Filhas da Mãe,  somos contra todo e qualquer tipo de violência contra as pessoas idosas.

E acreditamos que o envelhecimento faz parte da vida. É uma conquista. Não é  doença.

Nós apoiamos a campanha #velhicenãoédoença

Cosette Castro

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