Paulo Angelo Alves Resende, coordenador do Observatório de Predição e Acompanhamento da Epidemia Covid-19 (PrEpidemia) da UnB Crédito: Arquivo pessoal
Paulo Angelo Alves Resende, coordenador do Observatório de Predição e Acompanhamento da Epidemia Covid-19 (PrEpidemia) da UnB Crédito: Arquivo pessoal Crédito: Arquivo pessoal Paulo Angelo Alves Resende, coordenador do Observatório de Predição e Acompanhamento da Epidemia Covid-19 (PrEpidemia) da UnB Crédito: Arquivo pessoal

“Podemos afirmar que temos o início de uma 2ª onda”, diz pesquisador da UnB

Publicado em Eixo Capital, Entrevistas
Coluna Eixo Capital – Por Ana Maria Campos

À QUEIMA-ROUPA

Paulo Angelo Alves Resende,
coordenador do Observatório  de Predição e Acompanhamento da Epidemia Covid-19 (PrEpidemia) da UnB

“Tecnicamente, podemos afirmar que temos o início de uma segunda onda, já que o número de reprodução está acima de um por alguns dias”

Os números indicam uma volta no crescimento de infecções pelo novo coronavírus e de mortes no mundo todo. Qual é a situação do DF?
No Observatório PrEpidemia, em razão de limitações de recursos, fazemos o acompanhamento apenas dos dados do DF. No nosso último boletim quinzenal, publicado em 9 de dezembro, observamos um aumento do número de leitos ocupados concomitantemente com o aumento do número de casos registrados, o que indica um aumento de casos (reais). Os dados referentes aos casos notificados pelo GDF podem sofrer variações em razão de oscilações no processo de testagem, por isso sempre comparamos com outras séries para ter uma visão mais assertiva da situação.

Estamos vivendo uma segunda onda ou é apenas a continuidade da primeira?
Tecnicamente, podemos afirmar que temos o início de uma segunda onda, já que o número de reprodução está acima de um por alguns dias. Todavia, os dados ainda não permitem identificar o tamanho dessa onda, que pode ser significativamente inferior do que a primeira. Embora já tenham sido confirmados casos de reinfecção, por mutação de vírus ou por perda de imunidade, não temos indicações claras de que esses casos sejam em número suficiente para alterar a curva epidemiológica. Supondo que não há reinfecção em quantidade significativa, é pouco provável que ocorra uma segunda onda no DF muito superior à primeira onda. Isso porque, pelas nossas estimativas, aproximadamente de 30% a 50% da população já teve algum contato com o vírus. Como a imunidade de rebanho para o número de reprodução inicial é por volta de 75%, não haveria muitas pessoas para serem infectadas em um segundo surto. Note que isso não é bom!

Por quê?
Um número grande de pessoas teve contato com a doença no DF, isso tem como consequência um alto número de óbitos.

Como o inquérito epidemiológico da Secretaria de Saúde vai ajudar a impedir a propagação da doença?
Entendemos que o inquérito epidemiológico da Secretaria de Saúde, da forma que foi divulgado, não terá muita utilidade para impedir a propagação. Isso porque o estudo avalia o passado, quando já temos estimativas que são suficientes para a tomada de decisões. O foco de acompanhamento deve estar na Inteligência Epidemiológica com ações do tipo: perguntar aos recém-infectados os locais que estiveram nos últimos dias a fim de identificar os focos de contaminação (transporte público, festas, família, etc.); identificar os contatos dos infectados e promover o isolamento precoce; e acompanhar os casos de reinfecções, com especial atenção a possíveis mutações.

Acredita que a vacina vai chegar logo ao DF?
A chegada da vacina ao DF depende da produção, burocracia de negociação e aquisição, além da logística de distribuição. Os governos distrital e federal ainda não apresentaram previsões objetivas sobre isso.

Quando estaremos livres dessa pandemia?
A epidemia no DF já poderia estar controlada e com uma quantidade bem menor de óbitos. Observe que alguns países da Ásia e Oceania obtiveram êxito no controle, exemplo da Coreia do Sul e Nova Zelândia. A grande diferença está na estratégia de controle. No Brasil, Estados Unidos e países europeus, as autoridades optaram pelo “achatamento da curva”, que se resume em reduzir a transmissão com o distanciamento social e hábitos de higiene e aguardar que a epidemia evolua atingindo um pico de infectados (no limiar de imunidade de rebanho para o número básico “amenizado”) e reduzindo em seguida. Essa abordagem é bastante arriscada e custosa do ponto de vista econômico e humanitário. Os riscos são “segundas ondas” e mutações do vírus que poderiam invalidar os esforços com a vacina, já os custos vêm dos longos períodos de cerceamento das funções sociais (e econômicas) e do alto número de óbitos. A solução seria aproveitar a infraestrutura que o Brasil já tem para vigilância epidemiológica e atuar com Inteligência Epidemiológica.

Como?
O Brasil tem uma das melhores estruturas do mundo e adotamos uma abordagem, que eu diria, equivocada. Em outras palavras, deixamos a nossa Ferrari na garagem e estamos viajando de patinete.
O Observatório PrEpidemia vem apontando essas questões desde sua primeira nota técnica, de abril de 2020. Lamentavelmente, vemos uma tragédia anunciada. Com a abordagem adotada, o término da epidemia deve ocorrer com a imunidade de rebanho, que pode ser natural ou com vacinação.