No desfile em homenagem a Lula, quem ganhou foi a oposição, diz professor de marketing político

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ANA MARIA CAMPOS/EIXO CAPITAL

À QUEIMA ROUPA: Marcelo Vitorino, estrategista, consultor e professor de marketing político

“Cada vez que Bolsonaro é retratado como vítima de perseguição, seja judicial, seja cultural, seja carnavalesca, o eleitorado dele se mobiliza. É combustível emocional”

A Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula, ficou em ultimo lugar e
foi rebaixada do Grupo Especial no Carnaval do Rio de Janeiro. Essa homenagem foi um tiro no pé para a campanha do Lula?

O rebaixamento é técnico. Escola estreante que não aguentou o nível do Grupo Especial. Acontece quase todo ano. Mas em política, o que importa não é o que aconteceu de fato, é o que as pessoas vão lembrar. E o que vão lembrar é: “a escola do Lula ficou em último.” Pronto. Vira piada de grupo de WhatsApp, vira meme, vira argumento de botequim. E argumento de botequim move mais voto do que editorial de jornal. O erro de campanha não está no rebaixamento. Está na exposição voluntária a um evento que o governo não controlava. Em comunicação de crise, a gente ensina uma coisa básica: nunca entre numa sala onde você não sabe quem mais vai estar. A comunicação do Lula entrou na Sapucaí sem saber o que ia encontrar nas alegorias. É amadorismo.

Acha que foi um erro do presidente ir ao sambódromo e aplaudir a escola que humilhou evangélicos e a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro?
Pensa comigo: se um prefeito vai inaugurar uma obra e, no meio do evento, alguém sobe no palco e faz um discurso ofendendo metade da cidade, o prefeito paga o preço mesmo que não tenha escrito uma linha daquele discurso. Porque ele estava lá. Porque ele não saiu. Porque a câmera registrou ele sorrindo. Foi exatamente o que aconteceu. Lula não escreveu o enredo, não desenhou as fantasias, não montou os carros alegóricos. Mas estava sentado no camarote quando tudo isso passou na frente dele, em rede nacional. E não se levantou para sair. Se levantou para descer à avenida. Isso muda completamente o enquadramento. O presidente saiu da posição de espectador e se colocou dentro do espetáculo. A partir dali, tudo que a escola fez tem a digital dele.

Em que eleitorado Lula mais perdeu?
Perdeu onde mais precisava ganhar, que é a parte mais grave da história. Um presidente com rejeição na casa dos 54% não pode se dar ao luxo de irritar justamente quem ele precisaria seduzir. O bloco evangélico é o mais óbvio. Representa um quarto do eleitorado e já vinha num processo de distanciamento que o próprio governo reconhecia. Havia um trabalho discreto de reaproximação ao longo de 2025, com gestos calculados, encontros com lideranças moderadas. Meses desse trabalho evaporaram em uma noite. É como alguém que passa seis meses fazendo dieta e, numa única festa, come tudo que não devia. A diferença é que na política não tem segunda-feira para recomeçar. Mas o dano mais subestimado é no eleitor que não se define nem de esquerda nem de direita. Esse eleitor assiste de longe e forma opinião pelo conjunto. Ele viu um presidente que, em vez de governar acima da polarização, escolheu se divertir dentro dela. Isso confirma a imagem de um governo que não fala para o país inteiro.

Ganhou em alguma parcela do eleitorado?
Ganhou aplauso de quem já ia aplaudir de qualquer forma. E aplauso de convertido não muda resultado de eleição. Se o objetivo era energizar a militância, funcionou. O problema é que energizar militância em fevereiro é como aquecer o motor seis meses antes da corrida. Quando chegar outubro, ninguém vai lembrar do samba. Mas vão lembrar da lata. A assimetria é essa: o ganho é emocional e efêmero. O custo é político e duradouro. A imagem da “família em conserva” vai reaparecer em horário eleitoral, em panfleto, em corte de vídeo. O samba-enredo, não.

Quem ganhou nesse episódio?
Todo mundo que não estava no camarote.
A oposição ganhou algo que dinheiro não compra: um símbolo. A “lata de conserva” virou identidade visual de campanha sem que nenhum publicitário precisasse criar. Saiu pronta da avenida. E o mais interessante foi a velocidade da reação. Em menos de um dia, a direita já tinha se apropriado do insulto e transformado em orgulho. Isso mostra uma máquina de comunicação digital operando em tempo real, enquanto o governo ainda redigia nota jurídica. A bancada evangélica saiu mais coesa do que entrou. Quando um grupo se sente atacado publicamente, a primeira reação é fechar fileiras. O desfile funcionou como fator de unificação para um segmento que tem muitas divisões internas. Ironicamente, a escola de samba fez pela unidade evangélica o que nenhum pastor conseguiu sozinho.

Muita gente que entende de carnaval já dizia que a Acadêmicos de Niterói não tinha chance de permanecer no grupo especial. Lula deu munição para a oposição?
Existe um conceito em estratégia militar que se aplica perfeitamente aqui: “erro não forçado.” É quando você comete o erro sem que o adversário tenha feito nada para provocá-lo. Ninguém obrigou Lula a ir ao sambódromo. Ninguém o forçou a descer à avenida. A oposição não armou essa situação. Recebeu de presente. E o timing é o que mais me chama atenção. Estamos em fevereiro. A campanha eleitoral oficialmente começa em agosto. A oposição agora tem seis meses para trabalhar essa imagem, testar variações dela nas redes, medir o impacto, refinar a mensagem. Entregaram a matéria-prima da campanha negativa com meio ano de antecedência. Na minha experiência com campanhas, material desse tipo, visual, emocional, autoexplicativo, é o que mais machuca porque não precisa de legenda. A imagem fala sozinha.

Tratar Bolsonaro como palhaço foi um erro?
É uma armadilha clássica. Você acha que está atacando o adversário, mas está alimentando ele. Cada vez que Bolsonaro é retratado como vítima de perseguição, seja judicial, seja cultural, seja carnavalesca, o eleitorado dele se mobiliza. É combustível emocional. O boneco de palhaço com tornozeleira não enfraquece Bolsonaro. Dá a ele o roteiro que mais funciona: “estão contra mim porque estou do lado de vocês.” O paralelo mais útil nem é com Trump. É com o próprio Lula nos anos 2000. Quando tentaram ridicularizá-lo como “analfabeto” e “sem diploma,” o efeito foi o contrário: consolidou a identificação com o eleitor que também não tinha diploma. O mecanismo é o mesmo. Ridicularização pública de um líder popular gera identificação por empatia, não rejeição. A comunicação política que funciona não é a que humilha o adversário. É a que torna o adversário irrelevante para a conversa. E ninguém se torna irrelevante quando ganha uma alegoria inteira num desfile de carnaval.

Ana Maria Campos

Editora de política do Distrito Federal e titular da coluna Eixo Capital no Correio Braziliense.

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