Bola nas costas

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Por Renato Alves
Em tempos de crise, o Governo do Distrito Federal dá bola fora no que diz respeito ao bilionário Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Os 67 mil bilhetes postos à venda para Flamengo x Coritiba se esgotaram nesta nesta quarta-feira (16), um dia antes da partida. Além da torcida rubro-negra, empolgada com a ascensão do time no Campeonato Brasileiro, quem já está festejando são os organizadores do jogo. Eles pagaram menos do que todos os outros para alugar o espaço público e vão embolsar mais de R$ 5 milhões.
A partida veio para Brasília graças a uma agrado da administração Rodrigo Rollemberg (PSB). A taxa de ocupação do estádio havia sido estabelecida pelo governo dele em 15% da renda bruta do jogo. Com a escassez de jogos na capital e o temor da profecia de elefante branco de concretizar com o Mané Garrincha, assessores do GDF tiveram a ideia de fazer uma promoção. Avalizado pela “Consultoria Jurídica do DF”, Rollemberg acolheu despacho para “deferir a cobrança de preço reduzido para a utilização do Estádio Nacional de Brasília”, sem definição do valor.
Pelo decreto do socialistas, caso um clube (ou empresa) decidisse realizar quatro partidas em Brasília, ganharia um desconto e pagaria apenas 13%. Mas, para o confronto Flamengo x Coritiba, o GDF foi ainda mais camarada. Deu aos promotores da partida um abatimento de 46%. Nessa matemática, vão ficar para o governo local só 7% da renda da partida como pagamento pela taxa de ocupação.
A arrecadação do jogo deve ser divulgada apenas na noite desta quinta-feira. Mas, calculando por baixo, com o preço de todos os ingressos a R$ 50 (o mais barato), a renda chegará a R$ 2,7 milhões. Desse montante, o GDF fica com R$ 190 mil. Levando em conta os antigos 15% de taxa de ocupação, o governo local levaria cerca de R$ 410 mil. Mas os números finais serão maiores, pois há tíquetes de até R$ 200 e camarotes. Os organizadores ainda lucram com os bares. As despesas com água e iluminação estão no percentual do GDF.
O ex-jogador de futebol Roniéliton Pereira Santos, o Roni, com passagem pelo Flamengo, é o promotor do evento. A empresa de marketing esportivo R7, do ex-atacante, comprou o mando de jogo por R$ 1 milhão. O Coxa aceitou vir à capital do país em vez de ir ao Rio em troca de um cachê de R$ 200 mil.
Testemunhas
Esta será apenas a quinta partida oficial que o estádio receberá em 2015. O mais recente jogo de futebol realizado na arena ocorreu em julho, no empate entre Gama e Botafogo de Ribeirão Preto, com pouco mais de 3 mil presentes. As testemunhas proporcionaram a irrisória renda de R$ 46 mil.
Flamengo x Coritiba é o maior público deste ano do Mané Garrincha. Até então, a maior marca era de São Paulo x Coxa, em agosto, que teve 59.482 pagantes. O confronto também terá mais torcedores do que na reinauguração do Mané, em maio de 2013, quando 63.501 pessoas assistiram ao empate sem gols entre Flamengo e Santo.
Mil anos
Propagandeado pelo governo federal e pelo Distrito Federal como um exemplo de sucesso de público e renda, o Mané Garrincha pode levar até cerca de mil anos para recuperar aos cofres do DF o valor investido na obra. A arena teve um resultado operacional de R$ 1,371 milhão no primeiro ano de funcionamento — um período em que o estádio recebeu 30 eventos entre jogos e shows, incluindo uma apresentação da cantora norte-americana Beyoncé e a partida de maior renda na história do Campeonato Brasileiro. Neste ritmo o estádio irá levar exatos 1.167 anos para recuperar o que custou.
Considerada a previsão do Tribunal de Contas do DF de que o custo chegará a R$ 1,9 bilhão quando todas as obras de sustentabilidade e no entorno do local estiverem concluídas e a taxa de ocupação se mantenha no mínimo como neste primeiro ano — tido como “um êxito” pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e “um exemplo contra o derrotismo” pelo secretário-executivo da pasta, Luis Fernandes — o tempo para retorno do investimento chega a 1.385 anos. A conta não considera oscilações nas taxas de câmbio, inflação e outras variantes no período.
Em tempo: diferentemente do que que anunciava Agnelo Queiroz (PT), o construtor da arena, mais de uma ano após o fim da Copa do Mundo no Brasil, motivo pelo qual o estádio foi erguido, não apareceu ninguém interessado em arrendar o Mané Garrincha.
Guilherme Pera

Repórter de Cidades, graduado pela UnB. Acompanha atividades da Câmara Legislativa e bastidores da política local.

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Guilherme Pera
Tags: coritiba estádio estádio nacional flamengo futebol gdf mané garrincha Rollemberg

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