Crédito: Caio Gpmez
O ministro do STF criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente
A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na percepção dos estrategistas de campanha, mais favorece do que prejudica o parlamentar na disputa pela Presidência da República, num momento em que o candidato do PL se beneficia da carta de seu pai defendendo sua candidatura.
Na decisão, o ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para burlar a proibição imposta ao pai de utilizar redes sociais por intermédio de terceiros, porém a medida interfere diretamente na dinâmica da campanha presidencial e pode alterar a disputa pelos eleitores independentes. Moraes criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente. Por isso, favorece a candidatura de Flávio, no momento de interrupção de sua trajetória de queda.
Nas últimas semanas, a campanha de Flávio enfrentou seu momento mais delicado. A crise com ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, marcada por troca de acusações nas redes sociais e sua renúncia à Presidência do PL Mulher, expôs profunda divisão no coração do bolsonarismo: a família do ex-presidente da República. A divulgação da carta manuscrita de Jair Bolsonaro, lida pelo filho durante transmissão nas redes sociais, reunifica a militância conservadora e reafirmar Flávio como seu herdeiro político.
Em resposta, Moraes proibiu novas visitas do senador durante 90 dias, determinou que a defesa esclareça se Bolsonaro tinha conhecimento da divulgação da carta e encaminhou ao Ministério Público Eleitoral a apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada. Sob o ponto de vista jurídico, a decisão é coerente com a interpretação de que a visita foi utilizada para produzir material político em desacordo com as restrições impostas ao ex-presidente.
Entretanto, sob a ótica eleitoral, seus efeitos podem ser exatamente opostos àqueles pretendidos. Fornece ao bolsonarismo a imagem de um filho impedido pela Justiça de visitar o pai em prisão domiciliar. Esse tipo de episódio costuma produzir mobilização emocional entre os eleitores já identificados com uma liderança política e, sobretudo, reduzir resistências entre simpatizantes menos engajados. Mesmo no STF, alguns ministros avaliam que Moraes deu um drible a mais.
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A pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, reforça essa percepção. Lula lidera a disputa presidencial, mas sua vantagem voltou a diminuir. No principal cenário estimulado de primeiro turno, o presidente aparece com 40% das intenções de voto contra 34% de Flávio Bolsonaro. Na pesquisa espontânea, Lula registra 35%, enquanto o senador alcança 24%. Entre março e junho, Flávio havia caído de 38% para 33%, enquanto Lula permanecia entre 41% e 42%. Agora, o senador volta a crescer para 34%, interrompendo a trajetória de queda, ao mesmo tempo em que Lula recua para 40%.
Pontos fortes e fracos
Mesmo dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, esses números encerram uma tendência que favorecia muito o presidente Lula. Os dados segmentados mostram a força e a vulnerabilidade do presidente, que mantém enorme vantagem entre as mulheres, de 45% a 30%, uma diferença de 15 pontos percentuais.
Entre os homens, entretanto, ocorre um empate invertido: Flávio registra 38%, contra 34% do presidente. O petista continua dominante entre os idosos, obtendo 47% entre os eleitores com mais de 60 anos, enquanto Flávio alcança apenas 28%. Também lidera amplamente entre os brasileiros com ensino fundamental e entre os beneficiários do Bolsa Família, grupo no qual abre impressionantes 33 pontos de vantagem: 58% contra apenas 25% do senador. Regionalmente, o Nordeste continua sendo seu principal reduto, concentrando 30% dos chamados “lulistas convictos”.
Flávio, por sua vez, consolida sua força entre os homens, os evangélicos e parte significativa da classe média. Entre os evangélicos, lidera por expressivos 45% a 29%, uma diferença de 16 pontos percentuais. Também mantém vantagem entre os eleitores de ensino médio e apresenta forte desempenho entre os bolsonaristas históricos. Nada menos que 68% declaram voto no senador, enquanto apenas 16% migram para Lula. A transferência de capital político do ex-presidente para o filho permanece elevada: entre os eleitores que votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 72% continuam apoiando Flávio.
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Lula sofre com o desgaste natural de quem governa. Sua aprovação encontra-se rigorosamente empatada com a desaprovação, ambas em 47%, enquanto a avaliação negativa supera a positiva. Além disso, sua rejeição permanece elevada: 46% afirmam que não votariam nele de jeito nenhum. Flávio, porém, enfrenta rejeição ainda maior, de 50%, o que limita seu potencial de crescimento entre os eleitores moderados. Por ora, nem Lula nem Flávio têm margem confortável para ampliar sua base convencendo os adversários; a disputa será decidida principalmente pelos segmentos independentes. Quatro em cada 10 brasileiros não estão vinculados a um dos polo, são sensíveis aos acontecimentos da campanha.
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