O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais
A eleição brasileira chega à reta final sob pressão internacional, um cenário muito diferente daquele de 2022. Há quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa Branca. Embora não fosse aliado ideológico de Lula, seu governo trabalhou para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vitória do petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da eleição, para advertir Jair Bolsonaro contra a manipulação do processo eleitoral. Agora, o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mantém afinidades políticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez mais hostil.
O Itamaraty passou a conviver com uma variável que não controla: a militância internacional bolsonarista, que atravessa fronteiras e tenta transformar seus aliados externos em atores internos. Nessa quinta-feira, o presidente argentino Javier Milei, em entrevista ao jornal francês Le Point, manifestou esperança de que seu “amigo Flávio Bolsonaro” vença e realize um programa liberal no Brasil. Voltou também a insultar Lula. São vizinhos politicamente adversários, mas seus governos precisam negociar comércio, fronteiras e integração das cadeias de valor. Entretanto, Milei enxerga na derrota de Lula uma oportunidade. É uma espécie de troco, porque Lula interferiu nas eleições argentinas contra ele.
A grande preocupação do Itamaraty é a Casa Branca. Nessa quinta-feira, o presidente Donald Trump declarou que está “acompanhando muito de perto as eleições brasileiras” e chamou o Brasil de “um país muito importante”. Lacônico, acrescentou: “É uma eleição muito importante”. Entretanto, mostrou cautela e não anunciou apoio a nenhum candidato. A três dias da votação, manteve uma aparência de distância. Mas não está neutro, a discrição verbal precisa ser confrontada com a atuação do governo americano e com os interesses que cercam a disputa, principalmente as ações do secretário de Estado, Marco Rubio, aliado do clã Bolsonaro.
Reportagem do New York Times, publicada na segunda-feira, mostrou essa diferença. Trump não endossou formalmente um candidato, mas sua administração favoreceu Flávio por caminhos indiretos. Aponta o interesse de Washington numa aproximação em segurança e minerais estratégicos. O Brasil seria o principal terreno ainda em disputa numa região em que aliados da direita vêm ampliando seu poder. O jornal descreve esforços brasileiros para monitorar lobby estrangeiro, combater desinformação e buscar respaldo internacional.
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Recursos americanos estão sendo mobilizados supostamente para financiar a oposição. Segundo o jornal britânico The Guardian, um programa de US$ 1 milhão pretende financiar organizações que contestam o que classificam como abusos judiciais e censura no Brasil. O alvo é o Supremo Tribunal Federal, que virou um ponto fraco na arquitetura institucional da democracia brasileira. A iniciativa integra uma redistribuição mais ampla de verbas do Departamento de Estado para pautas conservadoras. Diante dessa informação, a Advocacia-Geral da União pediu ao Ministério Público Federal que a Polícia Federal investigue o caso.
Valor intangível
Do ponto de vista da política, as pressões da Casa Branca sobre o governo Lula são muito mais importantes do que o valor anunciado. Financiar atores que combatem uma instituição brasileira, durante uma eleição atravessada pela crise dessa mesma instituição, é uma situação nova. A vulnerabilidade do Supremo no caso Master oferece a Flávio Bolsonaro uma bandeira e dificulta a resposta às ações norte-americanas. Lula é obrigado a defender a soberania do país sem parecer defensor automático dos ministros do Supremo.
Enquanto o Guardian associa uma eventual vitória de Flávio ao fortalecimento da “doutrina Monroe”, a revista The Economist, também britânica, concentra sua crítica à ausência de respostas convincentes para o combate à corrupção e expansão dos gastos públicos. Seu diagnóstico é de que o país tem enormes recursos e possibilidades, porém, continua sem oferecer uma perspectiva segura de transformação econômica. Até agora, o debate eleitoral passou ao largo dessas preocupações, embora tenham alcance internacional.
Dentro do Brasil, porém, a disputa chega ao eleitor misturada à vida cotidiana e à fé. A controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, os ataques à CNBB e a proibição das bets mobilizam as paixões na reta final da campanha. Os números apresentados pela Quaest sugerem melhora de Lula, mas não permitem atribuí-la à polêmica da padroeira. Renda, raça e região atravessam essas escolhas.
A reeleição de Lula, esta é a verdade, está no telhado. Enfrenta duas batalhas simultâneas: convencer os brasileiros insatisfeitos com seu governo de que merece uma nova chance e resistir a um ambiente externo favorável ao adversário. Flávio procura transformar suas relações internacionais, principalmente com Rubio e Milei, num trunfo eleitoral. Não é fácil, porque nenhum dos dois goza de muito prestígio no Brasil. Lula ainda tenta capitalizar politicamente as pressões externas. Do ponto de vista geopolítico, ao escolher seu presidente, o Brasil também decidirá com que autonomia pretende ocupar seu lugar no mundo, em que pese a Casa Branca tratar a América Latina como seu quintal.
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O perigo é que os eixos da eleição sejam reduzidos às questões religiosa e geopolítica, enquanto segurança, renda e serviços públicos, os problemas da vida banal que afligem os brasileiros, permanecem subordinados ao confronto ideológico que divide o país. O saldo da campanha eleitoral em termos de propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais do país, que são de ordem objetiva e não ideológicos.
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