A troca da inteligência artificial

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Papa Leão XIV. Foto: Reprodução/Vatican News

 

Numa segunda-feira de maio, enquanto os mercados globais de tecnologia somavam mais um trilhão em capitalização, um homem de hábito branco sentou-se diante de cardeais e engenheiros de inteligência artificial (IA) no Vaticano. Nunca antes um papa havia estado presente na Sala Sinodal para apresentar ao público um documento magisterial próprio. O gesto era, em si, uma declaração. E o documento que trazia nas mãos, a encíclica Magnifica humanitas, pode ser a mais importante provocação ética do ano. Existe uma tradição dentro da Igreja Católica de responder às grandes revoluções do capitalismo com documentos sociais.

Em 1891, o papa Leão XIII publicou a Rerum novarum, enfrentando de frente os horrores da industrialização, o trabalho infantil, a miséria operária, o acúmulo obsceno de riqueza numa era de máquinas a vapor e chaminés negras. Cento e trinta e cinco anos depois, e não por acaso nessa data exata, o papa Leão XIV assina a Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA. O nome escolhido para o pontificado não foi acidente: é uma declaração de continuidade histórica. A nova revolução industrial chegou, e a Igreja pretende ter algo a dizer sobre ela.

A encíclica, dividida em cinco capítulos e com mais de 230 páginas, parte de uma premissa que parece singela, mas é radicalmente subversiva dentro do espírito da época: a tecnologia não é neutra. Numa era em que Silicon Valley vendeu ao mundo a ideia de que o código é pura ferramenta, um martelo não tem moral, argumentam os tecnoentusiastas, Leão XIV diz o contrário com precisão teológica e filosófica.

A IA não é má em si mesma, reconhece o documento, mas também não é inocente. Toda tecnologia carrega consigo os valores, as estruturas de poder e os interesses econômicos de quem a projeta e de quem financia seu desenvolvimento. Fingir o contrário é uma mentira confortável e lucrativa.

Segundo a encíclica, o desafio é “construir uma nova Torre de Babel ou edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitem juntos”. A metáfora da Torre de Babel, usada pelo próprio papa na abertura do documento, é mais do que retórica bíblica. É um diagnóstico preciso da arquitetura atual do poder tecnológico: uma construção monumental financiada por um punhado de corporações, edificada sobre a ilusão de que a tecnologia nos tornará onipotentes, capaz de conectar tudo e a todos e, ao mesmo tempo, profundamente destrutiva da linguagem comum, da confiança mútua e do sentido coletivo.

A Babel digital não derruba as torres; ela destrói os laços. E o papa parece ter enxergado isso. A encíclica não é um documento reacionário. Leão XIV não pede que se apague o código. Pelo contrário: reconhece que a IA pode ser instrumento de libertação, de diagnóstico médico, de democratização do conhecimento. O que o documento questiona, e aqui está sua força provocadora, é quem decide como, a serviço de quem e com qual velocidade essa tecnologia é implantada. Pede prudência. Pede sobriedade. Pede, em linguagem papal, algo que os conselhos de administração das grandes techs tratam como blasfêmia: desaceleração.

O papa chama isso de “desarmar a IA”. A expressão é feliz e incômoda ao mesmo tempo. Desarmar não significa destruir, significa retirar da tecnologia a pretensão de ser neutra, inevitável, imparável. Significa questionar a ideia, hoje dominante nos corredores do poder técnico-financeiro, de que quem tem o poder computacional tem automaticamente o direito de governar.

Como as “novas formas de escravatura”, a encíclica denuncia a economia digital: trabalhadores precários que treinam modelos de linguagem por salários miseráveis, crianças em regiões pobres que trituram terras raras com as próprias mãos para que os chips existam, comunidades inteiras cujos dados são extraídos como matéria-prima sem consentimento real. É um retrato que os relatórios anuais das grandes corporações de tecnologia sistematicamente omitem. Que a imprensa econômica raramente coloca em manchete. Que os governos, seduzidos pela promessa de crescimento e pela pressão dos lobbies, evitam regulamentar com seriedade. A Igreja, sem acionistas a satisfazer, sem anunciantes a proteger e sem eleições a vencer, pode dizer o que muita gente sabe e poucos têm coragem de gritar.

Vivemos um momento de singular fragilidade coletiva. As democracias ocidentais enfrentam crises de legitimidade agravadas por algoritmos que amplificam raiva e desinformação. As guerras, e há mais de uma em curso, utilizam drones autônomos, vigilância por IA e sistemas de decisão que retiram o julgamento humano do campo de batalha. O aquecimento global acelera, enquanto os servidores que sustentam os grandes modelos de linguagem consomem quantidades crescentes de energia e água. A concentração de riqueza aumenta, e parte significativa desse aumento se deve à vantagem acumulada por quem controla os dados e as infraestruturas de IA. Nesse contexto, uma encíclica papal pode parecer um anacronismo para quem vive dentro da bolha secular do tecnocentrismo. Seria um equívoco grave pensar assim.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A inteligência artificial exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão e morte”.
Papa Leão XIV

 

 

História de Brasília

As notícias para Brasília são as melhores possíveis. O ministro da Fazenda não fez, no dia anunciado, o esquema de verbas para Brasília porque não veio ao DF na quarta-feira, como estava anunciado. (Publicado em 20/5/1962)

Entre gráficos e relógios

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: Hermínio Bernardo/TV Globo

 

Redução da jornada reacende debate sobre impactos econômicos e produtividade. A proposta de redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, acompanhada da revisão gradual da escala 6×1, voltou ao centro das discussões econômicas e legislativas no Brasil. A matéria mobiliza análises de entidades empresariais, centros de pesquisa econômica e organismos técnicos, que têm concentrado suas avaliações em três eixos principais: impacto sobre custos trabalhistas, efeitos sobre produtividade e capacidade de absorção da medida pelo atual cenário macroeconômico.

Em um contexto de desaceleração econômica e de restrições fiscais, os dados do Banco Central indicam que a dívida bruta do governo geral encerrou 2025 próxima de 79% do Produto Interno Bruto, com projeções de elevação para patamares superiores a 83% em 2026. O déficit nominal ultrapassou R$ 1 trilhão no mesmo período, enquanto os gastos com juros se aproximaram desse mesmo montante. A taxa Selic foi mantida em 15% ao ano, o maior nível registrado em quase duas décadas.

Estudos de entidades representativas do setor produtivo apontam estimativas de aumento expressivo nos custos operacionais. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria projeta impacto adicional entre R$ 178 bilhões e R$ 267 bilhões anuais sobre a folha de pagamentos com a redução para 40 horas semanais. Segundo a entidade, o custo unitário do trabalho apresentaria elevação em diferentes segmentos produtivos. Na indústria de transformação, a estimativa de aumento chega a 11,6%. Na construção civil, o percentual projetado alcança 13,2%.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais, estimou impacto adicional de R$ 158 bilhões ao ano. O levantamento indica que micro e pequenas empresas concentram parte significativa da exposição a esses custos. Segundo o Sebrae, esse segmento responde por mais de 50% dos empregos formais no país.

Análises produzidas pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas projetam efeitos macroeconômicos adicionais. De acordo com o FGV IBRE, a redução da jornada para 40 horas poderia representar retração equivalente a 2,6% da renda agregada da economia. Em cenário hipotético de redução para 36 horas, a estimativa alcança 7,4% do Produto Interno Bruto. A produtividade aparece como variável central nesse debate.Dados compilados pelo FGV IBRE indicam crescimento médio da produtividade do trabalho de aproximadamente 0,5% ao ano entre 1981 e 2024. Nos últimos cinco anos, a média desacelerou para cerca de 0,3%.

Comparações internacionais indicam que países com jornadas médias inferiores apresentam, em geral, níveis mais elevados de produtividade, maior intensidade tecnológica e maior investimento em inovação. Na Alemanha e na Dinamarca, por exemplo, jornadas médias menores coexistem com produtividade por hora significativamente superior à brasileira. No Brasil, a Organização Internacional do Trabalho aponta jornada média efetiva próxima de 39 horas semanais, índice ligeiramente inferior à média global de 39,9 horas. Esse dado tem levado parte dos estudos a concentrar atenção em fatores estruturais de eficiência econômica. Relatórios do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam entre os principais entraves brasileiros a elevada complexidade tributária, o custo do crédito, limitações logísticas, baixa taxa de investimento e entraves regulatórios.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou ao Brasil o fortalecimento de marcos fiscais de médio prazo. O Tribunal de Contas da União também tem publicado alertas relacionados à trajetória da dívida pública e à necessidade de consistência fiscal. A proposta de redução da jornada segue em discussão legislativa.

As análises técnicas produzidas até o momento indicam que seus efeitos estão diretamente relacionados à interação entre custo do trabalho, produtividade e condições macroeconômicas vigentes. Por um lado lado, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que os impactos financeiros “já foram, de certa forma, absorvidos ao longo dos anos”, ao defender a transição para o modelo 5×2. Já o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, declarou que “Sem aumento significativo na produtividade não é possível pensar em redução da jornada.” Em meio a esse cenário, propor novos choques de custo ao setor produtivo é uma opção ao palanque em detrimento do pais.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Se o partido é do trabalhador, porque não trabalhar?”
Dona Dita

Foto: poder360.com

 

História de Brasília
O leite do FISI que foi para o Ceará continua no depósito da Alfândega. Quando passarem as eleições, e os políticos chegarem a uma “solução honrosa” muita criança já terá morrido, e o leite já estará perdido. (Publicada em 18.05.1962)