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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Em 1960, o Brasil assistia a um de seus maiores atos de ousadia histórica: erguer, no coração do país, uma capital inteira praticamente do nada. Brasília surgia sob o signo do concreto, da poeira vermelha e da esperança. Mas não foi apenas o traço de Lucio Costa ou a genialidade de Oscar Niemeyer que deram forma à nova capital. Havia algo invisível, mas profundamente presente, que preenchia os vazios do Planalto Central: a música. Enquanto caminhões levantavam nuvens de terra e os candangos enfrentavam jornadas duras sob o sol do Cerrado, rádios chiavam em barracos improvisados, transmitindo aquilo que, mais do que entretenimento, era consolo, identidade e sonho. A capital nascia do barro, mas também nascia do som. O rádio era o coração pulsante de um país que buscava seu rumo com a construção de uma nova capital.
Antes da televisão dominar os lares, o rádio era soberano. Em 1960, ele não era apenas um meio de comunicação: era companhia, palco e ponte cultural. Programas de auditório, radionovelas, notícias e, sobretudo, música, faziam das ondas do rádio uma espécie de cimento simbólico que unia o país, inclusive aquela nova cidade que ainda nem tinha identidade própria. As listas das músicas mais toca das naquele ano revelam um Brasil musicalmente plural. Entre os grandes sucessos, estavam canções como Banho de lua, de Celly Campello; A noite do meu bem, de Dolores Duran; e Menina moça, de Tito Madi, ao lado de hits internacionais como Put your head on my shoulder, de Paul Anka; e It’s now or never, de Elvis Presley, além de Maysa, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Cauby Peixoto e por aí ia.
Essa mistura de influências não era casual, era o retrato de um país aberto ao mundo, mas ainda profundamente ligado à própria sensibilidade romântica, melancólica e popular. Em Brasília, onde tudo era provisório, o rádio era permanente. Figuras pioneiras da comunicação local, como Galebi Balfaker e outros radialistas que ajudaram a dar voz à nova capital, transformaram o silêncio do Cerrado em um espaço sonoro vibrante. Eles não apenas transmitiam música, ajudavam a criar uma cultura urbana onde antes havia apenas canteiros de obras.
A vida dos candangos era árdua. Vindos de todas as regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, carregavam consigo não só ferramentas, mas também suas referências culturais. Nesse contexto, a música funcionava como refúgio emocional. Luiz Gonzaga, com seu baião, levava o Nordeste para o Planalto Central. Seus acordes de sanfona ecoavam como memória viva de uma terra deixada para trás, amenizando a saudade e reforçando a identidade daqueles trabalhadores. Ao mesmo tempo, boleros interpretados por nomes como Nelson Gonçalves embalavam noites solitárias, enquanto o Trio Irakitan trazia harmonias que misturavam romantismo e sofisticação.
Era um período de efervescência musical sem precedentes. No Brasil, nascia a MPB como conceito, enquanto a bossa nova ganhava o mundo com sua batida suave e sofisticada. Poucos anos depois, surgiria a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, que aparecia nas paradas de 1960 com “Brotinho sem juízo”. Paralelamente, o mundo vivia a explosão do rock internacional. Elvis Presley era um fenômeno global e, em breve, os Beatles inaugurariam o movimento que ficaria conhecido como iê-iê-iê, influenciando profundamente a juventude brasileira. Essa convivência de estilos criava uma paisagem sonora rica e diversa. Era como se Brasília, ainda em construção, estivesse sendo em balada por uma trilha sonora igualmente em construção.
Brasília não foi apenas um projeto urbanístico. Foi, acima de tudo, um projeto simbólico: a ideia de um Brasil moderno, integrado e voltado para o futuro. E toda grande narrativa precisa de uma trilha sonora. As músicas que tocavam nas rádios naquele período ajudaram a moldar o imaginário coletivo. Elas davam ritmo ao trabalho, preenchiam o silêncio das noites e alimentavam a esperança de que aquele esforço gigantesco resultaria em algo duradouro. Entre um turno e outro, entre um barraco e outro, entre o concreto fresco e o horizonte infinito, havia sempre uma canção. Às vezes romântica, às vezes dançante, às vezes nostálgica, mas sempre presente. Era sem dúvida um tempo de esperança e muita criação nas áreas artísticas. O Brasil de 1960 vivia um raro momento de otimismo.
Construir Brasília simbolizava a capacidade de realização de um país que acreditava em si mesmo. E a música refletia exatamente isso: criatividade, diversidade e vitalidade. Hoje, ao olhar para a cidade consolidada, com suas avenidas largas e monumentos imponentes, é fácil esquecer que tudo começou com improviso, esforço e sonho. Mas há algo que permanece intocado, inclusive a memória afetiva daquele tempo. A memória tem som, cheiro e gosto. O som das rádios chiando ao fundo. O som de um bolero atravessando a noite. O som de um baião trazendo saudade da terra natal, o som de um país que, entre dificuldades e esperanças, ousou reinventar-se. Brasília foi erguida com um misto de concreto e de música. E, talvez, seja essa trilha invisível feita de vozes, acordes e emoções que melhor explica a grandeza daquele momento histórico que ficou perdido na poeira do tempo há 66 anos no passado.
A frase que foi pronunciada:
“Ao voltar a Brasília e vê-la construída, com tanta vida, gostaria de lembrá-lo que o Brasil não tem vocação para mediocridade…”
Lucio Costa

História de Brasília
Está marcado para amanhã o julgamento mais sensacional do Tribunal do Júri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17/5/1962)

