O Estado como quintal: o preço de insistirmos num modelo viciado

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O patrimonialismo no Brasil e o conceito do Homem Cordial, formulado por Sérgio Buarque de Holanda em 1936, aliam-se ao corporativismo entranhado nas nossas instituições. Consequentemente, esses fatores transformaram a nossa república e o presidencialismo num sistema corroído por crises contínuas.

Portanto, existe aqui uma espécie de enfermidade hereditária, transmitida de governo para governo fruto da assimilação de uma cultura nefasta. De fato, são situações que transformam o aparelho do Estado num quintal para a satisfação de interesses privados. Diante disso, esses interesses nunca são públicos e jamais atendem ao bem comum. Em síntese, presenciamos a privatização do Estado por um sistema vicioso. Esse modelo resiste a todo remédio, inclusive àqueles recomendados pela Constituição de 1988. Por causa dessa estrutura, não surpreende que permaneçamos correndo em círculos. Ficamos entregues à sanha de vontades que corroem o Estado por dentro. Além disso, essas práticas distanciam-se do que deseja o cidadão comum, que é quem paga essa conta.

A herança do patrimonialismo no Brasil se recusa a morrer

Convém lembrar que o problema não nasceu ontem. Da mesma forma, a questão não pertence a um único partido, governante ou ideologia. Na verdade, essa tragédia vem da própria formação do Estado brasileiro. A Coroa portuguesa ergueu o país tratando o território e a administração como extensões do patrimônio do soberano. Naquela época, o mundo ocidental seguia os ditames do mercantilismo.

Mais tarde, o jurista e sociólogo Raymundo Faoro detalhou essa estrutura em sua obra clássica de 1958:

“O estamento burocrático se apropria da máquina pública e a conduz em benefício próprio, sobrevivendo a todas as mudanças de regime: da Colônia ao Império, do Império à República, da República Velha ao Estado Novo e à democracia de 1988. Trocam-se as vestes, permanecem os donos.” — Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder

Por sua vez, Sérgio Buarque de Holanda ofereceu a chave de leitura mais fina desse fenômeno. Segundo o autor, o “homem cordial” não representa uma pessoa bondosa. Pelo contrário, trata-se daquele que atua a partir do coração e das afinidades pessoais. Por essa razão, esse indivíduo enfrenta dificuldades para distinguir a esfera íntima da esfera pública. Para ele, o critério da regra impessoal cede sempre ao favor, ao parentesco e à lealdade pessoal. Como resultado, o Estado passa a conceber o cargo como benesse, a regra como obstáculo e o interesse coletivo como mera abstração.

O impacto do corporativismo no século XX

Ademais, o corporativismo somou-se a esse caldo cultural ao longo do século XX. A engenharia institucional herdada do varguismo organizou a sociedade em categorias tuteladas pelo Estado e deixou marcas profundas. Hoje, diversas corporações, de carreiras estatais a grupos econômicos organizados, operam a defesa de seus privilégios com extraordinária eficácia. Enquanto isso, o cidadão comum sem lobby nem gabinete paga a conta integralmente.

Por exemplo, levantamentos recentes de portais de transparência indicam que penduricalhos e verbas indenizatórias elevam os vencimentos de milhares de servidores acima do teto constitucional de R$ 44,0 mil. Assim, supersalários, benefícios fiscais sem avaliação de resultado e aposentadorias especiais tornaram-se sintomas de um mesmo mal: a captura do interesse geral por grupos de pressão.

O presidencialismo como correia de transmissão dos privilégios

Atualmente, o nosso presidencialismo de cooptação assenta-se exatamente nesse terreno viciado. O sistema combina eleições proporcionais, multipartidarismo fragmentado e um Executivo que necessita de maioria para governar. Por isso, essa fórmula produziu o arranjo que o cientista político Sérgio Abranches batizou de “presidencialismo de coalizão”. Em tese, a fórmula é legítima, pois toda democracia plural exige negociação. Contudo, na prática, a coalizão tem sido construída menos em torno de programas e mais na distribuição de cargos, verbas e vantagens.

Assim, cada novo governo descobre que a governabilidade possui um preço elevado. Esse preço é cobrado em ministérios, estatais, fundos e emendas parlamentares. Inclusive, a execução dessas emendas tornou-se obrigatória e pouco transparente nos últimos anos. De acordo com dados do Orçamento Geral da União, os recursos alocados via emendas parlamentares saltaram de cerca de R$ 10 bilhões em 2015 para mais de R$ 50 bilhões nos ciclos orçamentários recentes.

Episódios como o chamado orçamento secreto mostram até onde avança a privatização do orçamento. O Supremo Tribunal Federal considera esse mecanismo incompatível com a Carta Magna. No entanto, o instrumento ainda serve para ameaçar opositores políticos na prática. Trata-se de dinheiro público distribuído sem critério claro e sem rastreabilidade para o contribuinte. Quando o dinheiro de todos atende à conveniência de poucos, o Estado deixa de ser a casa comum e converte-se num feudo.

Por conseguinte, o conflito deixa de ser um debate sobre projetos de país nesse arranjo. Tudo se reduz a uma contabilidade mesquinha de favores. O Executivo cede para sobreviver e o Legislativo cobra para apoiar. Da mesma forma, as demais instituições aprendem a defender o seu quinhão. Desse modo, ninguém se sente responsável pelo conjunto, pois o conjunto não pertence a ninguém.

Os perigos de manter o patrimonialismo no Brasil

Seria um grande erro tratar esse quadro como mera inconveniência administrativa. Pelo contrário, manter esse modelo gera custos concretos e crescentes para o país.

1. Gargalo econômico

Em primeiro lugar, enfrentamos o custo econômico. Um Estado capturado mostra-se caro e ineficiente. A máquina pública gasta muito com a própria manutenção e destina poucos recursos para o saneamento, segurança, educação e saúde. Embora a carga tributária brasileira supere 33% do PIB, o retorno em serviços públicos permanece desproporcionalmente baixo. Além disso, investidores reagem com cautela diante de regras instáveis e privilégios concedidos aos detentores do poder. Consequentemente, o crescimento econômico fica aquém do potencial do país década após década. Trata-se do “correr em círculo”: muito movimento e nenhum avanço real.

2. Impacto na estrutura social

Em segundo lugar, destacamos o custo social. A privatização do aparelho estatal aprofunda a desigualdade social. Afinal, os privilégios concentram-se no topo da pirâmide entre os cidadãos com acesso aos corredores do poder. Por outro lado, os serviços públicos mais precários atendem justamente à população mais vulnerável. Um país que aplica a lei com rigor para uns e com flexibilidade para outros ensina uma lição perversa diária. A sociedade aprende que o mérito e o esforço valem menos do que a proximidade com os poderosos.

3. Risco político e moral

Em terceiro lugar, encaramos o perigo político e moral. A repetição contínua de crises, escândalos e acomodações gera um cinismo corrosivo. O cidadão que enxerga a política apenas como balcão de negócios passa a desconfiar da própria democracia. Portanto, esse desencanto torna-se terreno fértil para aventureiros e salvadores da pátria. Esses atores prometem romper com a corrupção sem oferecer instituições melhores. Na verdade, eles buscam apenas a concentração de poder pessoal enquanto repetem o modelo viciado. A história brasileira e a de países vizinhos provam que o remédio autoritário não cura a doença patrimonialista. Pelo contrário, o autoritarismo agrava o quadro ao trocar o quintal dividido por muitos pelo quintal de um só.

4. O custo do tempo perdido

Por fim, sofremos com o custo do tempo perdido. Desafios urgentes exigem políticas públicas de Estado de longo prazo, tais como:

  • A transição demográfica acelerada e o envelhecimento da população;
  • A crise climática global e a transição energética;
  • A revolução tecnológica da inteligência artificial;
  • A qualificação profissional da mão de obra nacional.

Países que enfrentam essas transformações com instituições sólidas avançam rapidamente. Por outro lado, as nações reféns de interesses imediatistas ficam para trás. Uma vez consolidado, esse atraso histórico torna-se extremamente difícil de reverter.

Romper o ciclo do patrimonialismo no Brasil exige escolhas estruturais

Felizmente, nada disso representa um destino inevitável. Nenhuma herança cultural permanece imutável para sempre. O Brasil já provou sua capacidade de aprovar reformas importantes quando houve mobilização social. Contudo, precisamos reconhecer que o ciclo não se rompe por voluntarismo moral ou simples troca de nomes no poder. O avanço exige mudanças estruturais profundas:

  1. Transparência radical no uso dos recursos públicos: Rastreabilidade plena de emendas, contratos e benefícios fiscais, aliada à avaliação periódica de resultados. O que não pode ser explicado ao cidadão não deve ser pago com o seu dinheiro.
  2. Profissionalização da administração pública: Critérios estritamente técnicos para a ocupação de cargos de confiança, definição de metas e fim dos penduricalhos que desfiguram o teto remuneratório.
  3. Reforma do sistema político: Redução da fragmentação partidária, fortalecimento da fidelidade programática e adequação do custo das campanhas eleitorais.
  4. Fortalecimento dos órgãos de controle: Garantia de independência funcional para que a fiscalização não dependa da boa vontade do fiscalizado.
  5. Engajamento da cidadania: Formação de uma sociedade que vigie e cobre ativamente seus representantes, deixando de tratar o favor como algo normal.

O Brasil não é refém do seu passado, mas continuará sendo enquanto fingir que ele não existe. Manter o patrimonialismo no Brasil e a estrutura corporativa atual significa aceitar que o Estado sirva a quem o ocupa, e não a quem o sustenta. Cada ciclo de crise encerrado sem reformas estruturais funciona apenas como o prólogo da próxima tragédia. A pergunta urgente para o país não é se podemos nos dar ao luxo de mudar, mas por quanto tempo mais suportaremos não mudar.

O país está num ponto de inflexão e reforma do Estado é urgente

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A discussão sobre a reforma do Estado no Brasil não é nova. No entanto, poucas vezes ela se mostrou tão urgente quanto agora. Em meio a um cenário de estagnação econômica, descrédito institucional e crescente insatisfação social, as ideias defendidas pelo deputado e pensador político Luiz Philippe de Orléans e Bragança voltam a ganhar força. Consequentemente, seu diagnóstico de que o Brasil vive um “ponto de inflexão” institucional ecoa em diferentes setores da sociedade. Isso ocorre especialmente entre aqueles que percebem que o modelo estatal concebido pela Constituição de 1988 já não responde com a agilidade e a eficiência que o país demanda.

  • VISTO, LIDO E OUVIDO
  • Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
  • Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com
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O Diagnóstico da Arrecadação e dos Serviços Públicos

O ponto de partida dessa leitura é simples e incômodo. Atualmente, o Brasil arrecada como país rico, mas entrega como país que ainda não resolveu seus problemas básicos. De acordo com dados recentes do Tesouro Nacional, a carga tributária no país ronda 33,07% do PIB, ou seja, cerca de um terço da produção nacional. Esse patamar é perfeitamente comparável ao de economias desenvolvidas da OCDE.

Por outro lado, o cidadão paga por saúde, educação, segurança e infraestrutura que raramente chegam com a qualidade proporcional ao que se cobra. O crescimento econômico, por sua vez, oscila em voos curtos. Dessa forma, ele é sempre interrompido por crises fiscais, instabilidade regulatória ou disputas entre os Poderes. Para os defensores da reforma, essa situação não representa mera coincidência de conjuntura. Em vez disso, é sintoma direto de um desenho institucional que concentra decisões, dilui responsabilidades e premia a manutenção do próprio aparato.

Origens Históricas e o Modelo da Carta de 1988

Nesse ponto, o argumento de Orléans e Bragança, desenvolvido em seus escritos e em sua atuação parlamentar, é o de que o problema é estrutural e histórico. O Estado brasileiro nasceu patrimonialista e centralizador. Por esse motivo, a Carta de 1988, embora tenha restaurado direitos e liberdades essenciais, consolidou um Estado extenso, caro e de difícil governo.

A Constituição brasileira é detalhista ao extremo. Assim, ela trata como matéria constitucional o que em outras democracias seria assunto de lei ordinária. Desse modo, ela transforma toda mudança de rumo em uma batalha permanente de emendas, interpretações judiciais e negociações de bastidor. O resultado prático é um país em que governar exige menos um projeto de nação do que uma capacidade constante de barganha política.

O Desgaste do Presidencialismo de Coalizão

A atualidade dessa crítica salta aos olhos quando se observa a rotina recente da vida pública. O presidencialismo de coalizão dependia de uma engrenagem delicada de cargos e emendas para sustentar maiorias. Contudo, esse sistema mostra sinais claros de desgaste. Por exemplo, o Executivo negocia cada votação em condições cada vez mais onerosas. Além disso, o Congresso ampliou seu controle sobre fatias do orçamento sem que a prestação de contas acompanhasse esse poder.

Impactos da Instabilidade na Economia do País

Ao mesmo tempo, o Judiciário, em especial a Suprema Corte, ocupa espaço crescente na arbitragem de questões políticas e administrativas. Em consequência disso, alimenta-se a percepção de que as fronteiras entre os Poderes se tornaram nebulosas. Pouco importa, para este debate, de que lado se está em cada disputa específica. O dado relevante é que a confiança nas instituições, medida por pesquisas como Datafolha e IPEC ao longo dos anos, permanece em níveis baixos. Por conseguinte, uma democracia que não é acreditada por seus cidadãos torna-se uma democracia vulnerável.

O sapo na viola

Há ainda a dimensão econômica, que torna a discussão menos abstrata do que parece. Investidores, nacionais e estrangeiros, tomam decisões com base em previsibilidade. Por isso, eles querem saber quais serão as regras tributárias nos próximos anos. Querem entender se contratos serão respeitados, se a política fiscal tem âncora crível e se disputas regulatórias serão resolvidas em prazo razoável.

Quando o ambiente institucional gera dúvidas permanentes sobre cada um desses pontos, o custo é alto. Desse modo, o país paga o preço em juros mais altos, em projetos que deixam de sair do papel e em empregos que não são criados. A reforma do Estado no Brasil, nesse sentido, não representa uma pauta exclusiva de gabinete. Pelo contrário, é condição indispensável para que o país cresça de maneira sustentada e deixe de depender de ciclos de entusiasmo seguidos de frustração.

Custo Burocrático e Complexidade do Sistema Tributário

A própria complexidade do sistema tributário brasileiro ilustra esse ponto com clareza. Especialistas de todos os espectros apontam esse fator como um dos maiores entraves à produtividade nacional. Segundo dados históricos do relatório Doing Business do Banco Mundial, empresas no Brasil gastavam cerca de 1.500 horas por ano apenas para apurar e pagar tributos.

Além disso, a multiplicidade de regimes especiais, criados ao sabor de pressões setoriais, produz sérias distorções. Essas distorções beneficiam os setores mais bem organizados em detrimento dos demais. Mudanças pontuais avançaram nos últimos anos. Entretanto, a lógica de fundo permanece. Trata-se de um Estado que cria exceções para sustentar sua base de apoio. Por essa razão, a máquina pública enfrenta enorme dificuldade em simplificar a si mesma.

Os Pilares para a Reforma do Estado no Brasil

É nesse contexto que as propostas associadas a Orléans e Bragança ganham sentido prático. Acompanhe a seguir os três eixos principais dessa agenda reformista:

1. Descentralização e Fortalecimento dos Municípios

O Brasil é formalmente uma federação. Todavia, na prática o país funciona com estados e municípios dependentes de transferências, normas e autorizações emitidas em Brasília. Devolver competências, receitas e responsabilidades a quem está mais próximo do problema é a lógica de qualquer sistema em que o gestor local responde diretamente ao eleitor local.

Um prefeito que arrecada mais do que recebe de favores federais tende a sofrer fiscalização mais rigorosa pela própria comunidade. Adicionalmente, a experimentação de políticas públicas em escalas menores permite que os acertos sejam copiados e os erros, contidos.

2. Revisão do Sistema de Governo e Governança

O diagnóstico sobre o presidencialismo brasileiro é antigo e reúne defensores de diferentes matizes ideológicos. Ele aponta que o sistema concentra, em uma só figura, as funções de chefe de Estado e chefe de governo. Consequentemente, a estrutura expõe o país a crises sucessivas toda vez que o titular perde apoio ou popularidade.

Orléans e Bragança vai além e discute, de forma aberta, modelos alternativos de governança. Ele analisa arranjos nos quais a chefia de governo responda de maneira mais direta ao Parlamento. Nesses modelos, busca-se criar uma instância de estabilidade institucional acima da disputa partidária.

Certamente, esse debate desperta resistências na sociedade. Isso ocorre também pelo simbolismo de sua origem familiar e de sua defesa histórica da monarquia parlamentar. Porém, a discussão merece atenção com base em argumentos sólidos. Afinal, o plebiscito de 1993 encerrou uma consulta popular específica, mas não encerrou o debate sobre o aperfeiçoamento do sistema.

3. Redução do Aparato Estatal e Eficiência do Gasto

Reduzir a máquina pública, simplificar o sistema tributário e abrir espaço para a iniciativa privada são medidas fundamentais. Além disso, garantir previsibilidade às regras que regem contratos e investimentos destravaria um potencial de crescimento sufocado pela burocracia.

Trata-se de reconhecer que um Estado que tenta fazer tudo acaba executando mal o essencial. Menos privilégios corporativos, mais foco em serviços básicos, mais transparência e responsabilização sintetizam essa agenda. Portanto, essa proposta dialoga tanto com o contribuinte exausto quanto com o jovem empreendedor que enfrenta labirintos para manter um negócio.

Separação Institucional e Limites Entre os Poderes

Outro aspecto central aborda a separação e o equilíbrio entre os Poderes da República. Em qualquer arranjo republicano saudável, cada instituição possui atribuições claras e responde por elas perante a sociedade.

Entretanto, problemas graves surgem quando o Legislativo delega ao Judiciário a solução de impasses que deveria resolver pela via política. Da mesma forma, o equilíbrio se rompe quando decisões individuais de ministros produzem efeitos nacionais antes de qualquer deliberação colegiada. Nesses casos, a previsibilidade do sistema sofre forte abalo.

A reforma do Estado no Brasil inclui, portanto, redesenhar mecanismos de controle mútuo. Exige definir com precisão os limites de cada esfera de poder. Por fim, requer criar incentivos para que cada instituição cumpra seu papel sem invadir a competência alheia.

Janelas de Oportunidade para Mudanças Institucionais

Vale lembrar que reformas dessa envergadura nunca ocorrem no calor de uma crise aguda. Em vez disso, elas avançam na janela de lucidez que antecede ou sucede o momento crítico. Países que modernizaram suas instituições o fizeram porque lideranças e sociedade reconheceram a tempo o esgotamento do modelo anterior.

O Brasil encontra-se hoje diante de uma oportunidade semelhante. Há diagnóstico amplamente compartilhado entre analistas. Há desconforto generalizado com o status quo. Por fim, existem, no Parlamento e fora dele, vozes dispostas a transformar insatisfação em proposta concreta. Desperdiçar esse momento seria repetir o hábito nacional de adiar decisões difíceis até que elas se imponham de forma desordenada.

O Impacto da Estrutura Estatal na Cultura Cívica

Também importa considerar o efeito dessa estrutura sobre a cultura cívica da população. Quando o cidadão percebe que o Estado é distante, lento e pouco responsável, a participação política se reduz ao voto periódico e à indignação episódica.

Por outro lado, instituições mais próximas geram dinâmicas diferentes. Com responsabilidades claras e resultados verificáveis, elas ajudam a reconstruir o vínculo entre eleitor e representante. Isso constitui condição básica para que a democracia se renove por dentro.

Visões Contrárias e Objeções ao Modelo Reformista

Há, é claro, quem discorde dessa abordagem, e a honestidade intelectual exige registrar essas visões. Críticos lembram que a Carta de 1988 sustentou o mais longo período democrático da história republicana. Além disso, o texto constitucional ampliou direitos sociais que reduziram desigualdades históricas.

Outros analistas sustentam que a descentralização fiscal, sem mecanismos adequados de compensação, pode aprofundar disparidades entre regiões ricas e pobres. Apontam também que alterar o sistema de governo não resolve, por si só, vícios da cultura política. Por fim, argumentam que propostas de forte teor reformista, quando conduzidas sem amplo consenso, podem aumentar a instabilidade política.

Essas objeções são sérias e relevantes. Consequentemente, qualquer proposta de reformulação precisará respondê-las com dados consistentes, simulações econômicas e debate público transparente.

O Risco da Inércia e os Desafios do País

Contudo, o risco de nada fazer não é menor para o futuro do país. Instituições que perdem a capacidade de entregar resultados não permanecem inertes. Pelo contrário, elas se deterioram continuamente, e o vácuo resultante é ocupado pela desconfiança, pela polarização e por soluções populistas de ocasião.

Por isso, mais do que aderir integralmente a um projeto específico, o momento exige reflexão profunda. O país precisa voltar a discutir, com franqueza e sem tabus, como deseja ser governado. As ideias de Luiz Philippe de Orléans e Bragança possuem o mérito de recolocar a pergunta no centro do debate público e de apontar caminhos para respondê-la.

Cabe à sociedade, ao Congresso Nacional e à imprensa examinar essas propostas com rigor técnico. Cabe aceitar o que resistir ao escrutínio racional e descartar o que não resistir. O ponto de inflexão está posto. O que a nação fará dele é uma decisão que pertence exclusivamente aos brasileiros.

A frase que foi pronunciada:

“O Brasil vive um ponto de inflexão institucional onde o modelo de 1988 já não responde com a agilidade necessária.”

Luiz Philippe de Orléans e Bragança

História de Brasília

História de Brasília

A pena de tudo isto é, ainda, porque Claudionor Machado é ex-pracinha, tem medalha de campanha, e o presidente do IAPB não hesitou em jogá-lo na rua. É uma injustiça que o Ministro da Guerra bem poderia corrigir em despacho com o presidente da República. Há decreto amparando os ex-combatentes. ( Publicada em 26.05.1962)