A Grande Ilusão do Nosso Século

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Foto: Divulgação

Vivemos numa era em que a aparência suplantou a realidade. Das gôndolas de supermercado às tribunas do Congresso, do feed do Instagram ao cardápio de fast food tudo ostenta uma fachada polida que esconde o vazio ou a mentira por trás. O filósofo Guy Debord previu isso em 1967: a sociedade do espetáculo. Mas o que vivemos hoje vai muito além do que ele imaginou. Não se trata apenas de aparências superficiais. Trata-se de uma arquitetura sistemática do falso, erigida camada por camada, que substitui o real pelo simulacro, até que ninguém mais consiga distinguir um do outro.

George Orwell, em 1984, descreveu um Estado que fabricava mentiras. O que não previu é que o mercado faria o mesmo trabalho, com mais eficiência e sem precisar de cassetetes. “Quando tudo é espetáculo, nada é real — e quando nada é real, qualquer mentira pode parecer verdade.”

Consideremos a moda. Nas vitrines das redes mais populares do Brasil, expõem-se calças jeans fabricadas com rasgos e furos propositais, desbotamento artificial e manchas simuladas vendidas a R$ 350 a peça ou R$1.500. São roupas que, há três décadas, seriam enviadas ao brechó com pena. Hoje, são vistas como sinal de status, dependendo de uma etiqueta na peça. O consumidor paga como rico e se veste como pobre. A indústria da moda transformou o desleixo em estética, o pijama em roupa de rua e o moletom em traje para reuniões remotas. A pandemia acelerou esse colapso das fronteiras: o que se usava para dormir passou a ser aceitável em videoconferências profissionais. O conforto virou desculpa para a dissolução de qualquer padrão. E a indústria, naturalmente, lucrou em cada etapa.

No universo alimentar, a situação é ainda mais grave. Segundo a UFCSPA, mais de 57% das calorias consumidas por brasileiros vêm de alimentos ultraprocessados, aqueles compostos, majoritariamente, de amido modificado, xarope de glicose, corantes artificiais e estabilizantes. São produtos que ostentam embalagens vibrantes com imagens de frutas frescas, enquanto seus ingredientes reais se escondem em letras minúsculas numa fonte ilegível. Um iogurte industrializado típico pode conter apenas 3% de componente lácteo real. O resto é gelificante, adoçante e aroma artificial de morango que nunca viu um morango. A comida de astronauta, desenvolvida para sobrevivência em missões espaciais, desceu às gôndolas dos mercados populares não como inovação, mas como substituição da comida de verdade.

Na arena política, o fake ganhou sofisticação cirúrgica. Pesquisa do Instituto Reuters de 2024 apontou que o Brasil é o país com maior exposição à desinformação política no mundo. Não porque os brasileiros sejam mais ingênuos, mas porque as estruturas de distribuição de mentiras são aqui mais eficientes. Vemos candidatos que se apresentam como ‘do povo’ enquanto gerenciam fortunas offshore. Basta escolher qualquer nome e ler o discurso de posse. Vemos líderes que bradam contra a corrupção enquanto seus filhos registram contratos milionários com o Estado. A dicotomia esquerda-direita, que mobiliza multidões, serve muitas vezes apenas para ocultar que ambos os lados compartilham os mesmos financiadores.

A Guerra do Iraque em 2003 é o caso mais documentado: os EUA invadiram o país com base em ‘provas’ de armas de destruição em massa que jamais foram encontradas. Colin Powell apresentou ao Conselho de Segurança da ONU imagens de satélite que provaram ser fabricadas. Centenas de milhares morreram. Quando a mentira foi revelada numa publicação no The Guardian que dizia: “Um relatório do Senado dos EUA de 2004 detalhou que as avaliações da comunidade de inteligência sobre as armas de destruição em massa iraquianas, feitas antes da guerra, eram fundamentalmente falhas e amplamente influenciadas pela pressão do governo.” O mundo havia mudado e ninguém foi responsabilizado. O padrão se repete. A verdade que liberta chega sempre depois que os fatos já foram sepultados sob novos ciclos de notícias, novas guerras, novas indignações fabricadas. A mentira original cumpriu sua função; a revelação posterior é apenas uma nota de rodapé.

Hoje o Brasil abriga mais de 600 mil estabelecimentos religiosos registrados numero que supera farmácias, escolas e hospitais somados. Parte expressiva desses templos opera como franquias espirituais, onde a fé é monetizada com precisão empresarial: dízimos compulsórios, ‘sementes’ financeiras prometendo retorno sobrenatural, transmissões ao vivo com botão de PIX integrado. O Conselho Federal de Teologia não existe; qualquer pessoa pode se autointitular pastor e iniciar uma congregação. A ausência de regulação cria terreno fértil para o predador espiritual, aquele que usa o sagrado como alavanca para extrair recursos de quem já tem pouco. A fé é real; a estrutura que a comercializa, frequentemente, não.

O mundo fake não é um fenômeno recente nem uma conspiração organizada. É o resultado lógico de sistemas econômicos e políticos que recompensam a aparência sobre a substância, o curto prazo sobre o duradouro, o clique sobre a reflexão. A boa notícia, e há sempre uma, é que a mentira tem custo energético. Exige manutenção constante. A realidade, por mais inconveniente que seja, sempre encontra uma fresta. Cabe a cada um decidir se quer viver no conforto do simulacro ou na lucidez desconfortável do real.

 

A frase que foi pronunciada:
“As bombas atômicas estão se acumulando nas fábricas, a polícia patrulha as cidades, mentiras ecoam pelos alto-falantes, mas a Terra continua girando em torno do Sol.”
George Orwell

George Orwell

 

História de Brasília
O total das verbas liberada num só dia para Brasília atinge a cifra de um bilhão, quinhentos e oitenta e quatro milhões. (Publicado em 20.05.1962)

Programa interno

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)

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Charge: Schmck

 

         Não se sabe que razões levaram a mídia nacional a dar pouca atenção e espaço a uma notícia de grande relevância para o país e que foi veiculada essa semana pela CNN Brasil, dando conta de que, caso venha a ser eleito nesse segundo turno, o governo petista irá, logo nos primeiros dias, implementar o que chama de uma “suspensão temporária de regras fiscais”. O documento interno, preparado, entre outros, pelos ex-dirigentes petistas, José Genuíno e Rui Falcão, que comandam as discussões de bastidores da campanha, prevê, logo no início de governo, a decretação dessa medida excepcional, dada a situação de emergência, que o partido enxerga na área econômica nacional.

         Com essas medidas extraordinárias, o governo petista teria em mãos os meios legais necessários para enfrentar o que chamam de caos herdado do governo anterior, possibilitando, ao Executivo, ampla liberdade para romper as regras fiscais, utilizando o orçamento livre de amarras e de todas as regras impostas pela responsabilidade fiscal. Em outras palavras, o que poderá acontecer, caso vença o candidato da esquerda, é a decretação do vale tudo, com o orçamento sendo usado fora de critérios técnicos, como manda o manual de contabilidade básica, onde as colunas do passivo e ativo ou dos gastos e receitas são preenchidos e executados sob rígida e séria previsões.

         Essa ideia de um plano emergencial, mesmo que temporário, nos traz de volta a um passado recente, onde os planos econômicos se sucediam de forma contínua, sendo acompanhados apenas pelo tilintar da maquininha de reajuste de preços nos supermercados. É tudo o que o mercado e, principalmente, as Bolsas não querem. É a reinvenção da roda e a transformação do Brasil num laboratório de testes.

         Esse retorno ao passado, onde a imaginação ia além dos dogmas da economia, custou, ao país, décadas de atraso e estagnação. A ideia de que o “novo” governo, que de novo nada possui, no andar da carruagem, virá para consertar o país é um perigo e já foi visto no passado, quando essa mesma turma denominava o boom econômico, deixado por Fernando Henrique Cardoso, de “herança maldita”.

         A baixa inflação e os números recordes de contratações com carteira assinada provam que a economia brasileira segue, atualmente, seu rumo ascendente, sendo, por isso, muito elogiada por diversas instituições internacionais, colocando o nosso país entre as nações que mais rapidamente têm se livrado dos malefícios da pandemia mundial. O que é temeroso e incerto é essa ideia vaga, contida no documento, de “corrigir imediatamente o orçamento herdado”, “para recuperar a capacidade de investimento do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal”, exatamente as instituições que ganharam protagonismo nesse mesmo governo, durante a chamada Operação Lava Jato.

          Com esse verdadeiro pacote de medidas, virão as versões remendadas do programa Mais Médicos, a cobrança de imposto sobre grandes fortunas e outras ideias de gênio que nos levaram, a partir de 2014, para o abismo mais fundo de toda a nossa história. Não surpreende que esse documento tenha sido mantido em âmbito interno do partido. Sua divulgação seria perigosa para o presente e, principalmente, para o futuro.

A frase que foi pronunciada:

“A economia é o começo e o fim de tudo. Você não pode ter uma reforma educacional bem-sucedida ou qualquer outra reforma se não tiver uma economia forte.”

David Cameron

David Cameron. Foto: © Arquivo/Agência Brasil

Beleza

Uma árvore com cachos de flores amarelas, no final da L4 Norte, chamou atenção por uma semana com a floração. Fila de carros parados para fotografar o presente da natureza.

Protesto

Recebemos, da Alemanha, a carta da eleitora de 73 anos, Diana M. Pinto Machado, que enfrentou a chuva em Frankfurt e uma fila por 3 quarteirões. Reclamou da falta de respeito aos preferenciais. Grávidas, cadeirantes e idosos não foram considerados pelo Consulado Brasileiro.

Foto: jovempan.com

Surpresa

“Adicionalmente aos procedimentos do caput deste artigo, a identidade poderá ser validada por meio do reconhecimento biométrico na urna eletrônica, quando disponível.” Essa é a única alusão da Resolução Nº 23.669, que dispõe sobre reconhecimento biométrico dentro dos atos gerais do processo eleitoral para as Eleições 2022. Foi uma surpresa usar a o reconhecimento biométrico durante o processo eleitoral, e não apenas anteriormente, como nas últimas eleições. Nenhuma notícia sobre o assunto foi dada antes do sufrágio.

Charge do Lute

 

Especiais

O verde que ilumina o Congresso é iniciativa do senador Romário. Trata-se do Dia Mundial da Paralisia Cerebral.

Senador Romário. Foto: senado.leg.br

 

História de Brasília

Nós sabemos que temos professôras demais na Fundação. Novecentas, ao todo, mas nem tôdas estão trabalhando. O ideal seria uma depuração total, trabalhando para quem ganha, e atividade para todo o mundo, e não para um grupo. (Publicada em 11.03.1962)

Mentiras históricas

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Charge do Duke

 

Que futuro harmonioso caberia a um país que tem construído seu caminho histórico com base em mentiras, meias verdades e outras imaginações fantasiosas? Essa é uma questão cujas respostas só podem ser buscadas em exemplos, também históricos, fornecidos por outras nações, ao longo do tempo. O que se sabe, a priori, é que parece existir uma relação subjacente entre progresso material e a capacidade de dizer a verdade de modo franco e aberto.

A verdade parece também estabelecer um vínculo direto entre o que é projeto e realidade. Para os antigos, a verdade sempre esteve ligada ao conceito do belo e da harmonia, querendo significar que somente por meio do atributo da ética moral é que se obtém a evolução humana. Já os religiosos e todos os mestres da espiritualidade sempre destacaram a importância da verdade para uma vida plena de realizações. Para isso, chegavam, inclusive, a dizer que todo mal tem sua origem numa raiz comum que é a mentira.

Houvesse um ranking internacional de classificação de nações, cujo critério fosse a capacidade de seu povo e principalmente de seus líderes de dizerem a verdade, mesmo em momentos adversos e delicados, por certo, o Brasil ocuparia o final da lista. Sem mais delongas, somos o que somos. Ou seja, um país em que dizer uma mentira é tão fácil como dizer bom dia. Fomos, de fato, desde o período das capitanias hereditárias, no século XVI, construindo nossa caminhada ao longo do tempo apoiados em mentiras e outras enganações. Até mesmo antes de ocuparmos esse continente, que já possuía donos há milênios, fizemos os primeiros contados com os povos dessa terra com base em falsas promessas de intercâmbio e amizade, para depois escravizá-los de modo bárbaro, tomando-lhes o chão ancestral, sem qualquer traço de remorso.

Com as Capitanias Hereditárias, recebidas, por doação, das mãos do rei português D. João III, numa espécie de parceria público-privada, das 14 entregues, apenas duas prosperaram. As restantes malograram em falsas promessas, quando o confronto com a realidade selvagem, que nada mais era do que a verdade da situação, se antepôs às mentiras e ao pouco apreço dos donatários com uma tarefa dessa envergadura.

Só nesse período, excetuando as capitanias de São Vicente e Pernambuco, que obtiveram relativo sucesso, duzentos anos se passaram entre mentiras e enganações entre a Coroa e os donatários, com muitos, sequer, dando-se ao trabalho de aportarem por essas bandas. Com o sistema de Governo-Geral, e que resultaria na fundação da primeira capital do país na Bahia, em 1549, prosseguimos na mesma direção torta.

Desse período, o melhor retrato tirado da colônia talvez tenha sido feito por Pe. Antônio Vieira, com o “Sermão do Bom Ladrão” em 1655, onde o clérigo relata a situação de uma colônia que parecia já não ter remédio, tomados por “ladrões de maior calibre e de mais alta esfera e aos quais os reis encomendam o governo das províncias, ou a administração das cidades… e que furtam e enforcam”.

Apenas para ficar nesses primórdios de nossa história, muito antes do primeiro e segundo império, da proclamação da República e de outros fatos históricos, a maioria deles apoiados no alicerce da mentira e da enganação, que em um átimo de tempo nos conduziu ao ponto em que hoje estamos.

A frase que foi pronunciada:

Um lado interessante da CPI do Covid são as amizades impossíveis sendo desenhadas pela conveniência.”

Dona Dita, pensando enquanto monta um tabuleiro de xadrez

Exemplo

José Antonio Reguffe é o parlamentar do DF, incluindo todos senadores e deputados, que mais destinou recursos de suas emendas ao Orçamento da União para a Saúde do DF. Só este ano, foram R$ 11,2 milhões. Foram R$ 8,2 milhões para a compra de equipamentos para os hospitais públicos do DF, como tomógrafos, ventiladores mecânicos e oxímetros. E mais R$ 3 milhões para custeio e aquisição de medicamentos para a rede pública de saúde do DF. “Estou cumprindo a minha obrigação, fazendo a minha parte e dando uma contribuição prática, dentro do que é da alçada de um parlamentar, para melhorar a saúde pública que a população tanto precisa”, disse o senador Reguffe.

Senador Reguffe. Foto: senado.leg.br

Mecanismo

Faltam mecanismos, como o portal da transparência, onde a população possa acompanhar a verba destinada pelo parlamento ao executivo federal e local; onde foi efetivamente aplicada. Só esse mecanismo acompanhado por fiscais, auditores e população já bastaria como prestação de contas, atividade fundamental para quem recebe verbas. Ter as contas fechadas e aprovadas seria a condição para receber novas verbas. Simples assim.

Print: transparencia.df.gov

Campanha

Agasalhos, cobertores, lençóis, em boas condições de uso podem ser doados na Administração do Lago Norte. A campanha do GDF tem as administrações como parceiras.

Cartaz: GDF

Dúvida

Por que as pessoas que defendem a segurança das urnas são contrárias ao voto impresso?

1. Não é para substituir. Trata-se de um custo que paga a democracia. Eletrônico + online = segurança máxima. Não há o que temer.

2. O sigilo do voto é mantido porque o eleitor confere em quem votou e deposita o impresso na urna.

3. Mais valem 2 horas na fila do que 4 anos em dúvida

Foto: blogdoeliomar.com.br

História de Brasília

Veio a onda de bilhetinhos. Cometeu não cometeu o êrro de português no discurso de posse. Fica proibida qualquer luta de galo. O Jóquei Clube só funcionará aos domingos. Miss, sim, mas sem maiô. (Publicado em 02.02.1962)