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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Mitos antigos costumam sobreviver porque descrevem, com imagens poderosas, dilemas permanentes da condição humana. Entre essas imagens destaca-se o labirinto erguido pelo rei Minos na ilha de Creta, destinado a aprisionar o temido Minotauro. Estrutura complexa e quase inescapável, o labirinto simbolizava tanto o poder de quem o construiu quanto o perigo que nele habitava. Curiosamente, esse mito continua sendo uma metáfora eficaz para compreender certos aspectos da vida pública contemporânea.
Ao longo da existência, homens e mulheres constroem em torno de si uma espécie de labirinto pessoal. Esse labirinto é formado por relações, alianças, amizades, compromissos e circunstâncias que, somados, constituem o universo particular de cada indivíduo. Trata-se de um espaço simbólico, onde a identidade se consolida e onde a própria razão de existir passa a ganhar sentido. Dentro dele estão os afetos, as expectativas e também as responsabilidades que moldam trajetórias individuais.
Reflexões da psicanálise ajudam a compreender esse processo. O médico austríaco Sigmund Freud dedicou grande parte de sua obra a examinar os conflitos internos que estruturam a psique humana. Em seus estudos aparece a tensão entre duas forças fundamentais: Eros, associada à vida, ao desejo e à construção; e Tânatos, vinculada à destruição e à pulsão de morte. Entre esses dois polos, cada indivíduo precisa encontrar caminhos para organizar seus impulsos e dar sentido à própria existência. Freud observou, ainda, que a sublimação constitui um dos mecanismos mais importantes para a vida civilizada. Por meio dela, impulsos primários podem ser transformados em energia criativa, socialmente útil e culturalmente produtiva. Arte, ciência, política e instituições surgem, em grande medida, dessa capacidade humana de converter tensões internas em realizações coletivas. O problema surge quando esse processo de transformação falha, especialmente no campo do poder.
Homens públicos, por ocuparem posições estratégicas dentro do Estado, frequentemente constroem labirintos muito mais complexos do que aqueles que cercam a vida privada do cidadão comum. Redes de influência, estruturas burocráticas, alianças políticas e interesses institucionais passam a compor um sistema intrincado que tende a proteger seus integrantes. Em certos momentos, esse sistema adquire características semelhantes ao labirinto mitológico de Creta. O monstro que deveria ser contido passa a confundir-se com o próprio construtor da estrutura. A metáfora torna-se perturbadora: quem ergue o labirinto para dominar a criatura acaba por compartilhar sua natureza. A figura do Minotauro, nesse sentido, deixa de ser apenas uma ameaça externa e passa a simbolizar a fusão entre poder e impulso destrutivo.
O cenário político brasileiro atual revela sinais dessa dinâmica paradoxal. Escândalos sucessivos, disputas institucionais intensas e revelações que emergem periodicamente criaram ambiente de permanente tensão. A cada nova investigação ou denúncia, parte da opinião pública percebe a existência de estruturas complexas de poder que parecem operar dentro de circuitos fechados, frequentemente distantes do escrutínio cidadão. Observadores da vida pública apontam que determinadas figuras políticas, cercadas por redes de proteção institucional ou partidária, acabam presas em seus próprios sistemas de influência. Para preservar posições conquistadas, esses personagens precisam alimentar continuamente a estrutura que os mantém no poder.
Assim como no mito antigo, o labirinto passa a exigir manutenção constante, e o monstro interno precisa ser alimentado para que a própria arquitetura permaneça intacta. Consequência desse processo é um tipo peculiar de aprisionamento político. Personagens públicos passam a agir não apenas de acordo com convicções pessoais ou interesses da coletividade, mas também em função das exigências do sistema que ajudaram a construir. O poder, que inicialmente parecia instrumento de realização, transforma-se gradualmente em mecanismo de autopreservação.
O momento político brasileiro apresenta características singulares nesse aspecto. Revelações envolvendo disputas institucionais, decisões judiciais controversas, investigações de corrupção e conflitos entre poderes criaram um ambiente em que a própria estrutura republicana parece tensionada por forças contraditórias. Cada novo episódio expõe camadas adicionais desse labirinto institucional. Diante desse cenário, cidadãos observam perplexos a repetição de um padrão histórico: indivíduos que deveriam administrar o poder em nome da sociedade acabam aprisionados em sistemas que exigem sua permanente manutenção.
Em vez de governar o labirinto, passam a correr dentro dele, tentando escapar das consequências das próprias decisões. A metáfora do labirinto revela, portanto, um dilema profundo da política contemporânea. Estruturas criadas para organizar o poder podem transformar-se em armadilhas para aqueles que as controlam. Tal situação explica parte do clima de inquietação que marca a vida pública brasileira. Revelações sucessivas alimentam a percepção de que o sistema político opera em uma lógica muitas vezes distante das expectativas da sociedade. Enquanto isso, personagens centrais da cena pública continuam a percorrer corredores cada vez mais complexos de seus próprios labirintos. A história antiga sugere, contudo, que nenhum labirinto é eterno.
No mito grego, a estrutura aparentemente inescapável acabou sendo superada quando alguém encontrou o fio capaz de revelar o caminho de saída. Na política real, esse fio costuma ser representado pela transparência, pela responsabilidade institucional e pela vigilância permanente da sociedade sobre aqueles que exercem o poder. A repetição do homem em seu labirinto, talvez, seja uma das imagens mais precisas para descrever o momento singular e turbulento que atravessa a política brasileira.
A frase que foi pronunciada:
“Papel do juiz é resolver conflitos, e não criá-los”
Teori Zavascki
História de Brasília
O comércio de Brasília está apavorado com o numero de publicações que tem saido ultimamente. Quando sai uma publicidade local no CORREIO BRAZILIENSE, os nossos dêsses jornais” atiram-se contra os comerciantes, e, às vezes, ameaçam até chantagem. Denunciem, e nós publicaremos. (Publicada em 16.05.1962)


