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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Números recentes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI, com base em dados da UNIDO, trazem um diagnóstico incômodo, embora já não propriamente surpreendente, o Brasil está perdendo relevância industrial em ritmo acelerado. Em um mundo no qual a indústria de transformação permanece como eixo estruturante da inovação tecnológica, da produtividade e da geração de empregos de maior qualificação, o país parece avançar na contramão, como se observasse, à distância, uma corrida da qual já participou com mais vigor.
A retração de 1,8% na produção industrial brasileira em 2025 não é apenas um dado conjuntural, desses que se diluem com o tempo e desaparecem das análises mais rigorosas, mas um sintoma de um problema mais profundo, persistente e, sobretudo, cumulativo: a falta de dinamismo. A trajetória recente evidencia uma perda contínua de posição relativa no cenário global, algo que não se constrói de um ano para outro, mas que também não se explica apenas pelo peso do passado. No ranking global de dinamismo industrial elaborado pelo IEDI, o Brasil aparece na 72ª colocação entre 83 países no quarto trimestre de 2025, um resultado que o coloca atrás de praticamente todos os polos industriais relevantes. Mais eloquente do que a posição em si é o movimento: uma queda sequencial que inclui o recuo expressivo de 44 posições em relação ao mesmo período do ano anterior, um deslocamento que, por sua magnitude, dispensa e, ao mesmo tempo, exige explicações.
Esse tipo de deterioração raramente decorre de um único fator. Ele é, em geral, a expressão visível de engrenagens que deixam de funcionar de forma coordenada. Custos elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e infraestrutura deficiente continuam a compor o conhecido mosaico de entraves à competitividade, mas o que chama atenção é a persistência desses elementos, mesmo diante de sucessivos diagnósticos. Como observou recentemente o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, “o Brasil não enfrenta um problema de falta de diagnóstico, mas de dificuldade em transformar diagnóstico em ação consistente”, uma constatação que, embora recorrente, parece resistir ao desgaste do tempo.
No plano internacional, o cenário tampouco oferece conforto. Ao contrário, tornou-se mais competitivo e mais estratégico. Países centrais passaram a adotar políticas industriais ativas, muitas vezes combinando subsídios diretos, incentivos fiscais e investimentos robustos em inovação e transição energética. Os Estados Unidos, por meio do Inflation Reduction Act, mobilizaram centenas de bilhões de dólares em apoio à indústria verde, enquanto a União Europeia avançou com seu plano de reindustrialização focado em autonomia estratégica. Não se trata apenas de proteger mercados internos, mas de reposicionar cadeias produtivas inteiras. Nesse contexto, a ausência de resposta coordenada não é neutra, ela implica perda de espaço.
O problema brasileiro, como frequentemente apontam relatórios do Banco Mundial e da OCDE, reside menos na falta de iniciativas pontuais e mais na fragmentação das políticas públicas. Programas são anunciados com frequência, mas carecem de continuidade, integração e avaliação de impacto. A instabilidade regulatória e a imprevisibilidade das regras acabam por elevar o custo de investimento, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia.
Outro ponto crítico, talvez o mais silencioso e ao mesmo tempo o mais determinante, é a produtividade. Dados recentes do IBGE indicam que o crescimento econômico observado em 2025, da ordem de 2,3%, não foi acompanhado por ganhos robustos de eficiência, o que reforça a percepção de que o país cresce sem transformar estruturalmente sua base produtiva. Como sintetizou um relatório do IPEA, “sem avanços consistentes de produtividade, o crescimento tende a ser limitado e vulnerável a choques externos”, uma advertência que se projeta para além do curto prazo.
Essa limitação se manifesta de forma concreta: produtos importados tornam-se progressivamente mais competitivos no mercado interno, enquanto as exportações brasileiras enfrentam dificuldades crescentes para se inserir em cadeias globais de valor, especialmente aquelas mais intensivas em tecnologia. O resultado é um processo de desindustrialização que não se anuncia de forma abrupta, mas que se consolida lentamente, quase de maneira silenciosa, até se tornar evidente demais para ser ignorado.
Evidentemente, o impacto desse quadro ultrapassa os limites das fábricas. A indústria possui um conhecido efeito multiplicador sobre a economia, ela articula cadeias produtivas, estimula inovação e sustenta empregos de maior qualificação e renda. Quando esse setor perde dinamismo, o efeito se difunde, menor crescimento, redução de oportunidades e aumento da vulnerabilidade externa. Como já afirmou a própria Confederação Nacional da Indústria, “não há desenvolvimento sustentável sem uma base industrial sólida”, uma frase que, à primeira vista, pode soar como um lugar-comum, mas que encontra respaldo consistente na experiência internacional.
O debate sobre as causas, inevitavelmente, transita pelo terreno das escolhas de política econômica. Há leituras distintas, por vezes conflitantes, sobre prioridades e estratégias. No entanto, independentemente da perspectiva adotada, há um ponto de convergência difícil de contornar, resultados importam, e os resultados, até aqui, têm sido insuficientes para reverter a tendência de perda de relevância industrial.
Isso não significa, contudo, que o cenário esteja dado de forma irreversível. Experiências internacionais mostram que processos de reindustrialização são possíveis quando há consistência de políticas, estabilidade institucional e foco claro em competitividade. Mas essas experiências também indicam que o primeiro passo é reconhecer o problema sem ambiguidade, o segundo é transformá-lo em prioridade política efetiva. A competição global por produção, tecnologia e investimento tornou-se mais intensa e mais seletiva. Países que hesitam, que fragmentam suas estratégias ou que postergam reformas estruturais acabam ficando para trás, e recuperar terreno, uma vez perdido, tende a ser um exercício mais custoso e mais demorado.
Recolocar a indústria no centro da estratégia de desenvolvimento implica em avançar na simplificação tributária de forma efetiva, melhorar o ambiente de negócios, investir em infraestrutura, qualificar a mão de obra e estimular a inovação de maneira integrada. Sem esses elementos, o país continuará assistindo, quase sempre com perplexidade tardia, à erosão de sua base produtiva. A década que se desenha ainda está em aberto, mas os sinais já são suficientemente claros para indicar os riscos de repetição de padrões conhecidos, crescimento baixo, produtividade estagnada e perda de protagonismo. Trata-se, como quase sempre, de escolhas, e das consequências que inevitavelmente decorrem delas.
A frase que foi pronunciada:
“Por meio de um processo contínuo de inflação, o governo pode confiscar, secretamente e sem ser notado, uma parte importante da riqueza de seus cidadãos.”
John Maynard Keynes

Gordon Anthony (Getty Images)
História de Brasília
Se os cariocas soubessem disto, viriam fazer compra em Brasília. O feijão aqui custa 75 cruzeiros, o arroz 35 e o filet mignon (que existe) está sendo vendido a 140 cruzeiros. (Publicada em 17. 05.1962)

