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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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(Carta imaginária de Immanuel Kant para o Brasil em 2026)
Se me fosse permitido observar o estado presente da humanidade, após mais de dois séculos de minha passagem pelo mundo, encontraria uma civilização dotada de recursos materiais e capacidades técnicas que ultrapassariam qualquer expectativa concebível no século XVIII. O homem atravessa oceanos em horas, comunica-se instantaneamente através dos continentes e dispõe de instrumentos capazes de armazenar e processar mais informações do que todas as bibliotecas conhecidas de meu tempo. Mas a questão fundamental permanece inalterada: tornou-se o homem mais livre? A resposta, infelizmente, não parece tão evidente quanto os avanços tecnológicos poderiam sugerir.
Durante muito tempo, a humanidade acreditou que o progresso material seria acompanhado pelo aperfeiçoamento moral. Supunha-se que a expansão do conhecimento conduziria naturalmente ao esclarecimento, que denominei Aufklärung, a saída do homem de sua menoridade autoimposta. Esperava-se que cidadãos instruídos fossem menos suscetíveis ao medo, à manipulação e à tutela dos poderosos. Os acontecimentos recentes parecem desafiar tal esperança.
Uma epidemia de alcance global revelou não apenas a fragilidade dos corpos, mas também a vulnerabilidade dos espíritos. O medo, esse antigo instrumento de governo, reapareceu com extraordinária eficácia. Em muitas nações, homens e mulheres acostumados a proclamar sua independência aceitaram restrições antes impensáveis sem questionamento significativo. Não cabe aqui discutir a necessidade ou não de medidas específicas. O ponto filosófico é outro. A verdadeira preocupação surge quando a obediência deixa de ser resultado da convicção racional e passa a ser produto da simples conformidade. O esclarecimento exige coragem. Exige a disposição de perguntar, de duvidar, de examinar. Quando a dúvida passa a ser considerada suspeita e o questionamento converte-se em transgressão moral, algo essencial à liberdade humana encontra-se ameaçado.
A divisão crescente das sociedades contemporâneas constitui outro fenômeno digno de atenção. Em vez de cidadãos empenhados na busca comum da verdade, observam-se tribos ideológicas empenhadas na confirmação de suas certezas. Os indivíduos não procuram argumentos para testar suas crenças; procuram argumentos para protegê-las. A razão, criada para servir ao conhecimento, converte-se em advogada das paixões. Cada grupo considera-se portador exclusivo da virtude. Cada facção vê na outra não um adversário a ser persuadido, mas um inimigo a ser derrotado. O resultado inevitável é a deterioração do espaço público. O diálogo transforma-se em disputa, a disputa transforma-se em hostilidade e a hostilidade prepara o terreno para novas formas de autoritarismo. Nenhum governo precisa impor censura severa quando os próprios cidadãos aprendem a censurar uns aos outros. Entretanto, seria equivocado atribuir toda responsabilidade aos governantes. A servidão raramente se sustenta apenas pela força. Ela frequentemente depende da colaboração dos próprios submetidos. Muitos indivíduos preferem a segurança da orientação externa ao peso da responsabilidade moral. Desejam que alguém lhes diga o que pensar, o que sentir, o que aprovar e o que condenar. A liberdade exige esforço. A dependência oferece conforto.
Outro aspecto preocupante consiste na crescente subordinação dos princípios aos interesses. Observa-se, em diversos campos da vida pública, uma tendência a avaliar a moralidade das ações não por sua conformidade com o dever, mas por sua utilidade imediata. O que gera lucro torna-se virtuoso. O que produz vantagem política torna-se justificável. O que fortalece determinado grupo passa a ser considerado legítimo. Entretanto, uma sociedade incapaz de distinguir entre conveniência e dever encontra-se em processo de erosão moral.
O imperativo categórico permanece simples em sua formulação e exigente em suas consequências. Antes de agir, cada indivíduo deveria perguntar a si mesmo se aceitaria que a máxima de sua conduta se transformasse em lei universal. A resposta a essa pergunta eliminaria grande parte das hipocrisias contemporâneas.
Muitos defendem para si direitos que negam aos outros. Muitos exigem tolerância para suas opiniões enquanto recusam tolerância às opiniões divergentes. Muitos denunciam abusos quando são vítimas deles, mas permanecem silenciosos quando os abusos favorecem suas causas. Nenhuma dessas atitudes resiste ao teste da universalização.
Ainda assim, não convém concluir este ensaio em tom de desespero. A história humana jamais foi uma marcha linear em direção ao aperfeiçoamento. O progresso moral sempre ocorreu por meio de avanços e retrocessos. A liberdade frequentemente parece enfraquecida antes de recuperar sua força. Permanece válido, portanto, o ideal do esclarecimento.
O destino da civilização não será decidido pelas máquinas, pelos mercados ou pelos governos, mas pela capacidade dos indivíduos de exercerem sua autonomia moral. O maior perigo continua sendo a renúncia voluntária ao uso da própria razão. Enquanto existirem homens e mulheres dispostos a pensar por si mesmos, a examinar criticamente as autoridades, a submeter suas próprias convicções ao escrutínio da razão e a tratar os demais como fins em si mesmos, a esperança não estará perdida.
A frase que foi pronunciada:
“Não somos ricos pelo que possuímos, mas pelo que podemos dispensar.”
Immanuel Kant

História de Brasília
O Ministério da Saude, por sua vez, autorizou a liberação de uma verba de 574 milhões de cruzeiros para a Fundação Hospitalar. Esta verba irá para o Rio, onde passará pela Divisão de Orçamento. Em seguida, será registrada no Tribunal de Contas, para pronta utilização. (Publicado em 20.05.1962)

