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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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“Ao progresso cabe o avanço da poeira”, escreveu o satirista austríaco Karl Kraus. A frase, aparentemente simples, carrega uma crítica profunda: nem todo avanço técnico ou econômico representa, de fato, um avanço humano. Quando o chamado progresso deixa de servir à dignidade das pessoas, ele se converte em força bruta, uma máquina que constrói à superfície enquanto empurra para debaixo dela tudo aquilo que não quer ou não sabe resolver. Essa contradição torna-se visível de forma incômoda no Brasil contemporâneo e, de maneira particularmente simbólica, em Brasília.
Cidade planejada, concebida como expressão máxima da modernidade urbanística do século XX, Brasília deveria representar ordem, racionalidade e desenvolvimento. No entanto, por baixo de suas vias largas, seus eixos monumentais e sua arquitetura celebrada internacionalmente, cresce uma realidade paralela que desafia qualquer narrativa otimista sobre progresso. Sob viadutos, em áreas esquecidas e até mesmo em galerias pluviais, comunidades inteiras de pessoas vivem à margem daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento. Não se trata apenas de indivíduos isolados, mas de agrupamentos humanos que, privados de acesso à moradia digna, trabalho formal e assistência contínua, acabam criando formas precárias de sobrevivência em espaços que nunca foram pensados para abrigar vida humana.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa situação encontra-se na região do Lago Norte, onde estruturas do complexo viário da nova Braguetto passaram a servir de abrigo improvisado para uma população invisível. Ali, entre concreto, sombra e fluxo constante de veículos, forma-se uma espécie de cidade subterrânea, distante do olhar cotidiano de quem transita acima.
É o retrato literal da poeira de que falava Kraus aquilo que o progresso levanta, mas prefere não enxergar. Fenômeno não é exclusivo da capital brasileira. Em Nova Yorque, uma das metrópoles mais ricas do planeta, comunidades semelhantes se formaram ao longo das últimas décadas nos subterrâneos do sistema de transporte da Metropolitan Transportation Authority. Reportagens e estudos acadêmicos documentaram a existência de populações vivendo em túneis de metrô, em condições extremas, longe da visibilidade pública e das políticas sociais convencionais.
Comparação entre essas realidades revela um ponto inquietante: níveis distintos de riqueza ou desenvolvimento não impedem a formação de bolsões de exclusão profunda. O que está em jogo não é apenas a capacidade econômica de uma sociedade, mas sua disposição política e moral de integrar todos os seus membros ao espaço público.
No Brasil, dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam crescimento significativo da população em situação de rua nos últimos anos. Estimativas apontam para centenas de milhares de pessoas vivendo nessas condições em todo o país. Esse aumento não pode ser explicado apenas por fatores individuais; ele reflete falhas estruturais em políticas habitacionais, mercado de trabalho e redes de proteção social.
Retomando a provocação de Kraus, percebe-se que o progresso material, quando desvinculado da dignidade humana, produz efeitos paradoxais. Grandes obras, expansão urbana e crescimento econômico coexistem com a ampliação da exclusão social. O mesmo trator que abre avenidas e ergue edifícios pode, simbolicamente, empurrar pessoas para as margens invisíveis da cidade. O filósofo Zygmunt Bauman descreveu fenômeno semelhante ao falar da “modernidade líquida”, na qual estruturas sociais se tornam instáveis e indivíduos considerados “excedentes” acabam sendo descartados pelo sistema. Em sociedades marcadas por eficiência e produtividade, aqueles que não conseguem se integrar ao ritmo econômico dominante frequentemente são empurrados para fora do campo de visão. Brasília, com todo o seu simbolismo político e arquitetônico, torna essa contradição ainda mais evidente.
A cidade que abriga os centros de decisão do país convive, ao mesmo tempo, com realidades que parecem pertencer a outro mundo. A poucos quilômetros dos palácios e das instituições, multiplicam-se sinais de abandono social. Importante ressaltar que a existência dessas comunidades não representa apenas uma questão social, mas também um desafio ético e político. Ela questiona diretamente o sentido do desenvolvimento adotado.
Se o progresso não alcança aqueles que mais precisam, ele cumpre plenamente sua função? Ou estaria apenas redistribuindo benefícios de forma desigual, ampliando distâncias já existentes? Editorialmente, a resposta não pode ser confortável. Ignorar essas realidades significa aceitar uma definição de progresso que exclui parte da população. Significa admitir que o avanço material pode coexistir com a degradação humana sem que isso seja considerado um problema central. A imagem da poeira levantada pelo progresso, evocada por Kraus, ganha assim uma dimensão concreta. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo. Torná-la visível é o segundo. O terceiro, e mais difícil, é enfrentar as causas estruturais que produzem esse tipo de exclusão. Sem isso, o que continuará avançando não será apenas o progresso, mas também a poeira encobrindo, silenciosamente, aquilo que uma sociedade prefere não ver.
A frase que foi pronunciada:
“Nossas vidas começam a terminar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam.”
Martin Luther King Jr.

História de Brasília
Pois bem. O mesmo serviço de imprensa anunciava que terça-feira o presidente viajaria para Brasília. O sr. João Goulart, contrariando a previsão, chegou segunda-feira. (Publicada em 16.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
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Para um país que é classificado, hoje, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), como a 10ª economia do mundo, não faz sentido que ocupe, ao mesmo tempo, posições antagônicas e medíocres quando os quesitos são o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), onde ocupa a 79ª posição, entre 184 países; o Gini, que mede a distribuição de renda, onde possui um índice de 0,533, que o coloca na 84ª posição; ou mesmo quando é avaliado no quesito educação, onde fica em 63ª posição entre 81 países. A primeira constatação que salta aos olhos de todos, aqui e além das fronteiras, é que o Brasil é um país materialmente rico, com um Produto Interno Bruto (PIB) significativo, mas que é habitado, com poucas exceções, por uma população majoritariamente pobre, com pouca ou nenhuma cobertura de saúde, com baixa escolaridade e baixa renda per capita. Pior ainda, com uma altíssima concentração de renda, que faz de nosso país um campeão da desigualdade social e econômica de todo o mundo.
Uma situação tão surreal como a nossa só pode ser compreendida na prática, quando se vai, por exemplo, ao supermercado. Aí, nesse local, todas as mazelas do povo brasileiro estão expostas nas gôndolas à vista de todos. Então, como entender as razões que fazem com que, sendo o Brasil o atual celeiro do mundo, reconhecido como o maior produtor de grãos do planeta, maior produtor também de carnes bovina, suína e de aves de toda a Terra, pode oferecer, à clientela nacional, os maiores e mais abusivos preços praticados no quesito de alimentos de primeira necessidade?
A situação é tão esdrúxula que, para manter um mínimo de movimentação no comércio de alimentos, é que existem mercados e mercados. Um para os poucos que possuem renda para adquirir produtos de primeira linha. Outro para atender à clientela sem poder aquisitivo, na qual as gôndolas parecem apresentar produtos de terceira linha, quase uma xepa de alimentos, produtos que não servem para o consumo da classe A, mas que o povão compra como última opção e a preços também extorsivos.
Os políticos, que não possuem contato direto com essa realidade e, portanto, não sofrem na pele seus efeitos, não se interessam em buscar melhoras para esses fatos. Do mesmo modo, os governos, que só se interessam em tributar a tudo e a todos, também se mostram incapazes de equilibrar as riquezas materiais do país com as necessidades humanas da população.
Por isso, entra governo, sai governo, e os indicadores mostrando que a população teve melhoria naqueles índices mostrados acima permanecem os mesmos ou pioram a cada ano. Há um descompasso real que é, ao mesmo tempo, desumano e sem sentido. Como é possível passar fome numa casa onde há abundância de alimentos? Para aqueles que nos observam à distância, o Brasil, à mercê de suas conquistas na área econômica, permanece sendo, por séculos, um país com uma população desassistida em todas as áreas. Mesmo para a América do Sul, um continente reconhecido por seu subdesenvolvimento crônico, o Brasil desponta no quarto lugar em Índice de Desenvolvimento Humano, atrás de Chile, Argentina e Uruguai.
Há um claro descompasso entre a riqueza produzida pela nação e a renda per capta. Fatos como esse só podem ser entendidos quando se verifica que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. O que ocorre com nossa realidade mostra bem que o Brasil não é um país pobre, como muitos que existem pelo mundo. O Brasil é um país injusto e desigual. Nesse ponto é preciso entender que não existe combate efetivo à pobreza, que vá até as raízes do problema, montado em ações do tipo puramente ideológicas.
Não se debela a pobreza com discursos e ações do tipo eleitoreiras, nem tampouco com medidas do tipo populistas, mas, e tão somente, com planos de governo bem elaborados e suprapartidários. Planos de longo prazo que sejam continuados por diferentes presidentes. Por outro lado, e as tentativas anteriores provam isso, não se pode falar em combate à pobreza, as desigualdades ao baixo IDH e outros indicadores, sem uma reforma profunda e verdadeira do Estado, que parta do princípio que, de todos os obstáculos a serem vencidos, nenhum é mais importante que o combate a corrupção e má aplicação dos recursos públicos. E não adianta nesse ponto querer inverter as verdades dos fatos históricos. O que tem prejudicado o país é, justamente, corrupção e seus efeitos e não o combate a ela.
Entre nós, o diagnóstico é claro: para melhorar indicadores como o IDH, Gini, Pisa e outros, é preciso, antes de tudo, acabar com a praga secular da corrupção de malversação dos recursos da nação. Qualquer outro caminho passa longe desses problemas e nos faz prisioneiros de índices medíocres e vexaminosos.
A frase que foi pronunciada:
“O universo protege as pessoas que se movem por um bom propósito.”
Ministro Roberto Barroso, no programa Roda Viva

História de Brasília
Atitudes de homens de bem, que não pactuam com desonestidades. Essa decisão mostra que a cidade foi construída com entusiasmo patriótico, e não para fins de aproveitamento. Agora, quando surgem os desonestos, é preciso que se apure tudo até o fim, para que não se jogue lama em nomes que não merecem, e que valem pelo muito que deram na construção da cidade. (Publicada em 21.04.1962)
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Alçado recentemente para a posição de sexta maior economia do mundo, a frente inclusive do Reino Unido, o Brasil, por outros parâmetros, talvez até mais coerentes, ainda terá muito chão pela frente, caso almeje mesmo se colocar em pé de igualdade com a maioria dos países do primeiro mundo. A começar pelo princípio, elevando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de sua população. Nesse quesito, o Reino Unido ocupa a posição de número 28, em relação a 187 países avaliados, enquanto o Brasil está na 84ª posição.
Ainda no campo das ações primárias, quando a situação é a perda do desenvolvimento humano devido à distribuição desigual dos ganhos do IDH, o Brasil despenca para a posição 102. Essa queda brusca de colocação deve-se em consideração também às distorções existentes em nosso país quanto aos quesitos educação, saúde e renda.
De acordo com o Relatório Global de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2019, apresentado agora pelo escritório nacional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), intitulado “Além da renda, além das médias, além do hoje: desigualdades no desenvolvimento humano no século XXI”, o Brasil, apesar de alguns avanços com relação ao IDH, ainda permanece estacionado quanto a questão da desigualdade e a concentração de renda. Pelo estudo do PNUD, a fatia dos 10% mais ricos do Brasil concentra 41,9% da renda nacional. Sendo que o universo dos 1% mais ricos representa 28,3% da renda, o que equivale a segunda maior concentração de renda do mundo para essa parcela populacional, atrás apenas do Qatar com 29%.
No entanto, o Relatório do PNUD aponta para outras variáveis também fundamentais para entender o processo atual e mais focado que avalia essas novas desigualdades. “Embora muitos concordem que a desigualdade é extremamente importante, o consenso sobre seu motivo e o que fazer a seu respeito é menor. Precisamos aprimorar os cálculos para melhor descrever o que é a desigualdade, e para ter uma compreensão mais profunda de como ela mudará devido às transformações econômicas, sociais e ambientais que estão em desdobramento em todo o mundo. Só assim, poderemos conceber as opções políticas que possam efetivamente enfrentá-la” diz o documento.
Um dos pontos defendidos pelo Relatório diz respeito à promoção de políticas para o desenvolvimento na primeira infância, consideradas de fundamental importância para garantir o que chamam de condições de partida, logo nos primeiros anos de vida dos brasileiros. Para tanto, o documento ressalta a importância de o país vir a adotar uma política abrangente com diretrizes, ferramentas e padrões nacionais, envolvendo os principais atores desse processo que são os pais, famílias e instituições educacionais na tomada de decisões.
Essas condições de partida podem determinar desigualdades num futuro próximo para as novas gerações. Essas políticas de combate às desigualdades devem se estender muito além da renda, indo na direção de intervenções ao longo da vida, em esferas como saúde e educação, de forma a aumentar as capacidades avançadas trazidas pelas novas tecnologias. Nesse sentido, é preciso atenção aos “desafios da mudança do clima e das transformações tecnológicas, duas forças que moldarão o desenvolvimento humano no próximo século”.
A frase que foi pronunciada:
“Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto. ”
Millôr Fernandes, pensante brasileiro

Novidade
Sancionada a lei do deputado Leandro Grass que obriga todos os estabelecimentos comerciais a disporem, nos banheiros masculinos e femininos, local para a troca de fradas. Caso não seja possível, um local paralelo e independente dos banheiros deverá ser construído para esse fim. Será responsabilidade da administração manter a higiene e privacidade do ambiente.

Chance
Hoje começam as negociações com os devedores da CAIXA. O ‘Caminhão Você no Azul’ vai atender até o dia 13. Já está estacionado no Setor Comercial Sul, Quadra 1, próximo à entrada da Galeria dos Estados, das 9h às 19h. De 16 a 20 de dezembro, na Praça do Relógio em Taguatinga.

Matemática
Bem que a Justiça Volante poderia estacionar a van perto dos buracos de diversos pontos do DF. Rodas quebradas, pneus furados, suspensões afetadas são unicamente responsabilidade do governo. Asfaltos melhores não custam mais caro se durarem durante o período de chuva.

HISTÓRIA DE BRASÍLIA
O outro recado é para o senador Argemiro Figueiredo: Não apareça por lá, senador, tão cedo! As suas emendas foram um desastre. E mais: o povo não sabe nem do que se trata, mas é bom não aparecer, nem para explicar. (Publicado em 12/12/1961)

