Quando o enredo se reescreve com novas máscaras

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Imagem: tribunadoplanalto.com

Parecia que o Brasil atravessava uma dessas horas em que a política deixa de ser apenas disputa institucional e se transforma em atmosfera, em tensão espalhada pelas ruas, em sensação quase física de que algo, no centro do poder, se aproximava de um ponto irreversível. Aconteceu na capital federal, que era apenas um palco condensado de pressões, boatos, reuniões fechadas, sirenes morais e expectativas contraditórias. Mais do que uma instalação que abrigava autoridades, o local convertia-se num símbolo sitiado, cercado por vozes que exigiam, por um lado, a renúncia imediata, e por outro, a permanência obstinada de alguém, que para milhões, ainda representava o Estado protetor e o pai político de uma era.

A crise não surgira do nada, nem era fruto exclusivo de um episódio isolado, embora um evento em si catalisava como faísca em terreno saturado. Poderia ser qualquer evento, mas esse episódio desencadeou um processo de corrosão acelerada. Era a prova do descontrole e violência nos subterrâneos do poder que alimentou a certeza de que o governo havia perdido a legitimidade moral para continuar. A oposição intensificava sua ofensiva, e setores militares, inquietos, falavam abertamente em ruptura, num cenário em que a democracia brasileira, ainda jovem e frágil, parecia sempre caminhar sobre gelo fino.

Naquele dia anterior, os jornais já não escondiam o tom de ultimato. Redações fervilhavam. Repórteres se acotovelavam, tentando captar sinais mínimos, uma janela que se abrisse, um carro oficial que saísse, um ministro que entrasse apressado. Muitos testemunhos posteriores insistiriam na mesma impressão, a de que autoridades estavam tomadas por um silêncio incomum, como se o centro do poder tivesse se tornado uma sala de espera da História. Um funcionário, citado em memórias e entrevistas, descreveu os corredores “mais longos do que nunca”, passos abafados, e a sensação de que ninguém falava alto, como se cada palavra pudesse precipitar um desfecho.

Segundo pessoas próximas, aquela autoridade apresentava-se abatida, mas não derrotada no sentido convencional. Havia nele, como declarou a filha, uma mistura de cansaço e lucidez, a percepção de que não se tratava apenas de um governo em crise, mas de um projeto político sob ataque, e de uma disputa mais ampla sobre o papel do Estado e do povo. Os relatos indicavam que ele passava horas ouvindo relatórios, recebendo auxiliares, conversando com ministros, e recusando-se a aceitar, sem resistência, a ideia de renúncia. A palavra renúncia, ali, não era um gesto administrativo, mas uma capitulação simbólica, e talvez, por isso, parecesse carregar nos ombros não apenas o peso de um mandato, mas o de uma era inteira.

O ambiente militar era particularmente sensível. Generais e oficiais discutiam abertamente a necessidade de afastamento, e circulavam exigências formais para que se retirasse, sob pena de medidas mais duras. Um dos elementos mais dramáticos daquela véspera era precisamente essa suspensão institucional, pois o país não sabia se amanheceria com uma solução negociada, com uma deposição ou com um colapso. A democracia brasileira, naquele instante, parecia depender de conversas noturnas, de telefonemas discretos, de encontros reservados, e essa fragilidade estrutural produzia um medo difuso, sentido tanto nas elites quanto nas ruas.

Nas ruas, contudo, a percepção era ambígua. Não se tratava de um povo uniformemente mobilizado, mas de uma sociedade dividida entre o apoio visceral e o desgaste acumulado. Trabalhadores lembravam as conquistas e o viam como alguém perseguido pelos mesmos setores que sempre resistiram à inclusão. Uma costureira entrevistada anos depois por pesquisadores do período resumiu a emoção popular com simplicidade contundente, “queriam tirar o homem que olhava pelos pobres”. Ao mesmo tempo, setores urbanos de classe média, influenciados pela retórica moralizante da oposição, repetiam que o governo estava cercado de corrupção e violência, e que a permanência seria insustentável.

Foi o jornalista que conviveu de perto que descreveu o clima de tragédia anunciada, como se todos soubessem que a crise já ultrapassara o campo do possível retorno. Relatou que o chefe compreendia a solidão do poder, e que parecia cada vez mais consciente de que seus adversários não buscavam apenas sua saída, mas sua humilhação histórica. Esse componente, frequentemente subestimado, é essencial para entender a atmosfera da véspera, pois o drama não era apenas político, mas profundamente psicológico, um homem acuado não apenas por forças externas, mas por uma narrativa que pretendia transformá-lo em vilão absoluto ou em obstáculo a ser removido.

Claro que os ministros se dividiam. Alguns defendiam a resistência, outros sugeriam concessões, outros, ainda, tentavam construir uma saída intermediária. Mas a própria ideia de saída intermediária parecia evaporar, porque a crise se alimentava de radicalização. A oposição não queria acordos, queria o fim. Parte dos militares não queria transição, queria ruptura. Por sua vez, ele parecia recusar o papel que simplesmente abandona a cadeira sob pressão. O impasse, portanto, não era técnico, era existencial.

Naquela véspera, o Brasil vivia uma espécie de vertigem institucional. As conversas em cafés, os murmúrios nos transportes coletivos, as manchetes, tudo parecia anunciar que o dia seguinte não seria comum. Uma testemunha, citada em crônicas posteriores, disse que “a capital estava com cara de domingo triste”, mesmo sendo dia útil, como se a cidade pressentisse que a política, quando chega ao limite, deixa de ser debate e se torna destino.

O cenário, portanto, era de cerco, não apenas aquela autoridade, mas ao próprio significado do Estado. Era amado e odiado, símbolo e contradição, estava no centro de uma tempestade que misturava moralismo, luta de classes, disputa geopolítica, ressentimentos militares e expectativas populares. Naquele último dia inteiro, antes do fato que mudaria o curso da República, o país parecia suspenso, como se respirasse com dificuldade, aguardando o instante em que a História, impaciente, finalmente se imporia.

Que espécie de obstinação nos impede de olhar para a História e reconhecer nela o aviso necessário para não repetirmos, uma vez mais, os mesmos erros?

Era o dia 24 de agosto de 1954, por volta das 8h30 da manhã. Getúlio Vargas estava no seu quarto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira. A Pátria não é capanga de idiossincrasias pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e cunhados. O bom político costuma ser mau parente.”

Ulysses Guimarães

Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

 

História de Brasília

Ajuda e Campanha do Cobertor. Há muita criança com frio, sem agasalho, em Brasília. (Publicada em 15.05.1962)

Os corações e as rotativas

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam)

Desde 1960, com Circe Cunha e Mamfil

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Foto: arquivonacional.gov

 

Terminada a Segunda Grande Guerra, em 1945, já não havia mais sentido, nem espaço político, para a permanência de Getúlio Vargas à frente, no comando do Executivo. Seu longo governo, de mais de quinze anos, baseado, em parte, no chamado Estado Novo, já não se enquadrava mais num mundo em que os ventos da democracia varriam as velhas e odiosas ditaduras para longe. Dessa forma, renunciou já em outubro daquele ano, ficando pelos próximos sessenta meses afastado do governo.

Durante esse tempo de exílio, sua popularidade junto às camadas mais pobres da sociedade não havia diminuído. Apesar dos protestos de intelectuais e de uma parte da imprensa, voltou a se candidatar em 1950, vencendo o pleito daquele ano com larga margem de aprovação. Seus últimos quatro anos na presidência foram marcados por crises e protestos, vindos da classe média e principalmente de partidos renovadores como a UDN, PCB e de jornais como a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, dos Diários Associados e da Rede Tupi de televisão, de Assis Chateaubriand.

A partir de 1953, a oposição ao governo Vargas ganhou dimensões que se arrastariam até seu trágico e inesperado suicídio em agosto de 1954. O anúncio da morte de Vargas feito, em primeira mão, pelo Repórter Esso, da Rádio Nacional, apanhou todos de surpresa, principalmente a população que, chocada com a notícia, tentou depredar os jornais que faziam críticas diárias contra Getúlio.

A Tribuna da Imprensa teve problemas para circular naquele dia, assim como outros veículos de comunicação, como a Rádio Globo, que faziam oposição ao governo Vargas. As lembranças desse episódio de fúria da população contra esses veículos de informação que se posicionavam contra o Getúlio ficaram na memória de muitos jornalistas que viveram aqueles loucos dias.

Uma dessas testemunhas oculares desses fatos foi justamente o jornalista e fundador do Correio Braziliense, Ari Cunha. Que hoje, num mergulho em seus artigos depois de um ano da sua ausência, chega às mãos o seguinte texto sobre aqueles dias: “A vida inteira me emocionei ao sentir jornal pronto para ir à rua. A rotativa sempre me trouxe o sentimento de gratidão ao ver o jornal indo para os leitores. É uma sensação indescritível ver as máquinas imprimindo ideias, fatos, fotos, história.”

Na Última Hora, de São Paulo, (um jornal de Samuel Wainer que apoiava Getúlio Vargas), cinco carros patrulhavam o periódico e seguranças guardavam o jornal. Não permitiam que o povo se aproximasse. Era revolta contra Getúlio Vargas e Samuel Wainer. Do outro lado da rua, leitores passavam e queimavam os exemplares com gesto de revolta. No dia seguinte, Getúlio dá um tiro no peito.

O mesmo povo invade o jornal e, de repente, passa da revolta à tristeza e ao choro. O povo entrava aos prantos e abraçava os jornalistas ou quem estava na frente. Foram três dias imprimindo exemplares com a notícia da morte do presidente. Toda a população desejava tomar conhecimento dos fatos.

 

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Ficou a prova do sentimento humano em que a batida do coração do povo brasileiro e o pulsar das máquinas no jornal se misturavam.”

Ari Cunha, o filósofo de Mondubim

 

 

Ari Cunha

Missa na paróquia São Francisco de Assis, hoje, às 19h. Um ano de saudades.

 

 

Primeiros passos

Alunos da rede pública e particular são bem-vindos ao Correio Braziliense. Muitas vezes as professoras buscam o jornal para mostrar os passos da notícia. A prática estimula a meninada a começar o próprio jornalzinho da escola, com notícias quentes de mão em mão. É só ligar e marcar.

 

 

 

Novo perfil

Em Brasília, onde a violência não chegou ao nível do Rio de Janeiro, os shoppings ainda são uma alternativa interessante para a população. Mesmo com o aumento significativo de compras pela Internet, lojas mais ligadas à realidade recebem lá mesmo a encomenda que o consumidor não se importa em buscar. Segundo a Abrasce, nos 20 shoppings de Brasília, são 13,5 milhões de visitantes por mês.

Foto: facebook.com/iguatemibrasilia

 

 

Absurdo

Por falar em shopping center, é impressionante que trabalhadores sejam obrigados a permanecer de pé durante as 8h diárias. Nos quiosques e em várias lojas, é simplesmente proibido sentar.

 

 

 

Mãos à obra

Agora é a hora de se trabalhar em favor das próximas eleições. Problemas de tráfego e acessos simultâneos no site do TSE, que impediram que as informações sobre as eleições municipais, por exemplo, ficassem disponíveis na página do Tribunal, devem ser previstos dessa vez. As pesquisas tendenciosas com dados irreais também precisam de tratamento prévio. 2020 chegou.

Foto: TSE

 

 

Flagrante

Pessoas idosas saiam da agência do Banco do Brasil, da 504 Norte, reclamando que não havia banheiro no local.

Foto: google.com.br/maps

 

 

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

Mas a eleição para vereadores, é uma calamidade. Esta, não é cidade para ter vereadores. Os interesses particulares sempre transformam o legislativo municipal numa gaiola de ouro, e, se a justiça quer bem a Brasília, vete esta pretensão. (Publicado em 26/11/1961)