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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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De acordo com a tradição, a frase: “a verdade está espalhada por aí” é atribuída ao primeiro poeta grego, Píndaro (518 a.C – 438 a.C), posteriormente replicada pelo filósofo Nietzsche na obra autobiográfica Ecce Homo, de 1888. Com essa expressão, o que se busca demonstrar é que a ideia da verdade pode ser encontrada em contextos e fontes diversas, espalhadas aos quatro cantos. Isso ocorre porque as convicções pessoais e empedernidas podem facilmente vir a se tornarem mais perigosas até do que a própria mentira. O sentido profundo dessa expressão sugere algo fundamental para a vida intelectual e política das sociedades: a verdade não pertence a um indivíduo, a um grupo ou a uma autoridade específica. Ela se encontra dispersa na experiência humana, na razão, no debate público e na realidade dos fatos. Nenhuma autoridade, por mais poderosa que seja, possui monopólio sobre ela. A pluralidade de perspectivas constitui justamente o mecanismo pelo qual sociedades conseguem se aproximar de interpretações mais próximas da realidade.
O problema grave surge quando essa concepção é substituída por outra mais perigosa: a crença de que a verdade pode ser definida por decreto, por autoridade ou pela simples repetição de narrativas políticas. Nesse momento, convicções pessoais passam a ocupar o lugar que deveria ser reservado aos fatos. Aquilo que antes era objeto de investigação e debate transforma-se em dogma. E dogmas políticos, quando se consolidam, tendem a produzir crises institucionais profundas.
O Brasil contemporâneo vive, em larga medida, sob os efeitos desse fenômeno. Polarização política intensa, discursos mutuamente excludentes e disputas de narrativas permanentes criaram um ambiente em que cada grupo acredita possuir a própria versão incontestável da realidade. Em vez de debate racional, instala-se uma guerra de narrativas. Em vez de busca pela verdade comum, prevalece a tentativa de impor versões particulares como se fossem fatos incontestáveis. A consequência inevitável desse ambiente é o enfraquecimento das instituições. Quando diferentes grupos passam a afirmar que a verdade depende apenas da posição política de quem a proclama, o terreno comum da convivência republicana começa a desaparecer.
Instituições públicas, que deveriam funcionar como árbitros imparciais, acabam sendo arrastadas para disputas políticas intensas. Em vez de mediadoras, tornam-se parte do conflito. Essa transformação produz efeitos corrosivos sobre a confiança pública. Pesquisas de opinião, realizadas pelo Datafolha e por outros institutos indicam, ao longo da última década, níveis elevados de desconfiança da população em relação a instituições políticas e administrativas. Tal desconfiança não surge apenas de escândalos ou crises econômicas. Ela nasce também da percepção de que diferentes autoridades apresentam interpretações incompatíveis com a realidade, muitas vezes moldadas por interesses circunstanciais. Filósofos políticos, frequentemente, lembram que democracias dependem de um mínimo consenso sobre os fatos básicos da vida pública.
Hannah Arendt observou que a destruição da verdade factual representa uma das formas mais perigosas de corrosão da esfera pública. Sem fatos reconhecidos coletivamente, debate político perde seu fundamento racional e passa a operar, exclusivamente, no campo da propaganda e da mobilização emocional. A situação brasileira contemporânea reflete, em parte, esse processo. A própria ideia de verdade passa a ser substituída por uma disputa permanente de versões.
Retorno à antiga intuição atribuída a Píndaro oferece uma lição importante para tempos como os atuais. Se a verdade está espalhada, ela não pode ser monopolizada. Nenhum partido, governo ou instituição possui autoridade absoluta para defini-la. Ela emerge, gradualmente, do confronto entre evidências, argumentos e experiências diversas. A crise política e institucional brasileira não pode ser compreendida apenas como resultado de divergências ideológicas ou disputas eleitorais. Em grande medida, ela decorre da erosão de um princípio fundamental da vida republicana: o reconhecimento de que a verdade pertence ao domínio comum e deve ser buscada coletivamente.
Resgatar esse princípio não significa eliminar divergências políticas, algo impossível em qualquer sociedade livre. Significa reconhecer que o debate democrático precisa de um terreno mínimo compartilhado, onde fatos possam ser discutidos com base em evidências e não apenas em convicções. Nesse ambiente, a verdade deixa de estar espalhada pela realidade e passa a ser substituída por versões particulares. Quando isso ocorre, crises institucionais deixam de ser exceção e passam a se tornar parte permanente da vida pública.
A frase que foi pronunciada:
“Lealdade ao país, sempre! Lealdade ao governo, quando ele a merecer.”
Mark Twain

História de Brasília
Não foi dos melhores, o movimento da Proclamação de Brasília. O sr. Garcia, da Cidade Livre, levou claque, e tôda vez que dizia alguma coisa com mais ênfase, lá de traz batiam palmas e diziam muito bem. Não era coisa tão interessante porque só lá atrás batiam palmas. (Publicada em 16/5/1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
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É fato que, ao longo de toda a história humana, muitas figuras proeminentes, capazes até de mudar os rumos dos acontecimentos, foram executadas por um simples delito: falar a verdade. Eis aí um crime que, ao longo dos séculos, por uma razão ou outra, sempre foi considerado indesculpável e punido até com a morte.
Não surpreende que, ao longo de todo esse tempo, incontáveis versões tiveram que vir à tona para esconder e justificar a condenação da verdade. É sabido também que a verdade carrega um potencial capaz de romper o que pode ser a “paz dos cemitérios”.
Muitos conflitos sangrentos foram travados em nome da verdade, embora saiba-se que, nas guerras, a primeira vítima sempre é a verdade. O perigo em caminhar pelas sendas da verdade é que ela pode levar indivíduos e governos a situações que podem tanto decretá-los ao calabouço como ao Olimpo.
No passado, lá por volta de 470 a.C, o filósofo grego Sócrates, acusado de corromper a juventude por ensiná-la a pensar e a buscar a verdade, foi condenado à morte. De certa forma, essa tragédia entrou para a história do Ocidente como um marco na política, delineando os limites da verdade na condução do Estado. Se proferir uma mentira para evitar uma guerra, então essa seria uma mentira útil e válida? Possivelmente, não. Se, do mesmo modo, proferir uma verdade capaz de levar à guerra, essa então seria uma verdade inválida? Possivelmente, também não.
A questão não se baseia nas consequências trazidas pelo emprego da verdade, ou da mentira, como arma escolhida pelo governo, mas na constatação de que, ao fugir dos fatos, passa-se a considerar o cidadão sujeito de segunda, ou terceira, categoria, passível de ser conduzido por cantilenas ilusórias, e não como pilar mestre de todo e qualquer Estado Democrático. O ponto em tela é que não se pode erigir nada tangível em cima de mentiras, pois a mentira é, em si mesma, sempre algo intangível.
No mundo da política, onde falar, negociar e convencer é sempre realizado por meio da fala e do convencimento, a verdade ocupa um lugar de destaque, ou pelo menos deveria. A questão é simples: a verdade está ao lado da razão e da justiça. Ocorre ainda que a política, por sua natureza desligada do pensamento puro, depende mais do consenso de opiniões do que da busca da verdade.
É fato que, quanto mais livre uma sociedade, mais e mais o Estado deixa de lado as versões e narrativas e mais e mais se centra na verdade e na razão, abandonando os mecanismos de ilusão das massas, mesmo que elas anseiem por promessas e sonhos distantes.
Notem que até mesmo o progresso e a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano só são alcançados por meio da verdade, da ética e da razão. Vale enfatizar que a verdade é sempre apoiada nos fatos. Quando ocorre da verdade se apoiar em opiniões e narrativas, perde-se todo o alicerce do Estado e do governo. Da mesma forma, não se pode construir o passado e o presente com base na mentira, pois, com essa ferramenta nefasta, o futuro simplesmente deixa de existir.
O amanhã, como promessa, nunca chega e, quando chega, surpreende a todos por sua crueza. O futuro de uma nação depende, diretamente, dos fatos e da verdade, da razão e da ética. Portanto, quando se fala, entre outras coisas, em “país do futuro”, o que se está estabelecendo é que no presente estão sendo construídas as bases para esse acontecimento. O problema é que, no nosso caso, o “país do futuro” vem sendo prometido há quase um século ou mais.
Muitos reclamam que esses dias vindouros nunca chegaram de fato. Outros dizem que as promessas jamais serão alcançadas. Buscar as razões para essa espécie de drama, ao estilo de Esperando Godot, de Beckett, é a grande ironia de nossa história e abre um questionamento curioso: até que ponto nosso futuro tem sido construído com base na deturpação dos fatos, como esculturas feitas de areia à beira mar?
A frase que foi pronunciada:
“A capacidade de justiça do homem é o que torna a democracia possível, mas a inclinação humana para a injustiça é o que faz a democracia ser uma necessidade.”
Reinhold Niebuhr

Em outubro
Seria uma estatística importante apresentar à população quantas cirurgias de cataratas feitas em mutirões causaram a cegueira dos pacientes. Entre os 20 procedimentos cirúrgicos, 15 pacientes apresentaram sintomas de endoftalmite, uma infecção ocular causada pela bactéria Enterobacter cloacae. Os procedimentos foram realizados na Maternidade Dr. Graciliano Lordão, em Parelhas, no Rio Grande do Norte.

Em novembro
A polícia ainda investiga 24 casos de cegueira após o mutirão da catarata no Pará.

História de Brasília
Falou sobre a ausência do Executivo, sobre a planificação de transferência e de esforço para a construção de Brasília. Foi um discurso que valeu como uma séria advertência. (Publicada em 21/4/1962)

