Crepúsculo da Razão e a Tentação da Servidão Voluntária

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Uma lição no gabinete de história natural; ilustração de “Elementary Work”, de Basedow, por Daniel Chodowiecki.

 

(Carta imaginária de Immanuel Kant para o Brasil em 2026)

Se me fosse permitido observar o estado presente da humanidade, após mais de dois séculos de minha passagem pelo mundo, encontraria uma civilização dotada de recursos materiais e capacidades técnicas que ultrapassariam qualquer expectativa concebível no século XVIII. O homem atravessa oceanos em horas, comunica-se instantaneamente através dos continentes e dispõe de instrumentos capazes de armazenar e processar mais informações do que todas as bibliotecas conhecidas de meu tempo. Mas a questão fundamental permanece inalterada: tornou-se o homem mais livre? A resposta, infelizmente, não parece tão evidente quanto os avanços tecnológicos poderiam sugerir.

Durante muito tempo, a humanidade acreditou que o progresso material seria acompanhado pelo aperfeiçoamento moral. Supunha-se que a expansão do conhecimento conduziria naturalmente ao esclarecimento, que denominei Aufklärung, a saída do homem de sua menoridade autoimposta. Esperava-se que cidadãos instruídos fossem menos suscetíveis ao medo, à manipulação e à tutela dos poderosos. Os acontecimentos recentes parecem desafiar tal esperança.

Uma epidemia de alcance global revelou não apenas a fragilidade dos corpos, mas também a vulnerabilidade dos espíritos. O medo, esse antigo instrumento de governo, reapareceu com extraordinária eficácia. Em muitas nações, homens e mulheres acostumados a proclamar sua independência aceitaram restrições antes impensáveis sem questionamento significativo. Não cabe aqui discutir a necessidade ou não de medidas específicas. O ponto filosófico é outro. A verdadeira preocupação surge quando a obediência deixa de ser resultado da convicção racional e passa a ser produto da simples conformidade. O esclarecimento exige coragem. Exige a disposição de perguntar, de duvidar, de examinar. Quando a dúvida passa a ser considerada suspeita e o questionamento converte-se em transgressão moral, algo essencial à liberdade humana encontra-se ameaçado.

A divisão crescente das sociedades contemporâneas constitui outro fenômeno digno de atenção. Em vez de cidadãos empenhados na busca comum da verdade, observam-se tribos ideológicas empenhadas na confirmação de suas certezas. Os indivíduos não procuram argumentos para testar suas crenças; procuram argumentos para protegê-las. A razão, criada para servir ao conhecimento, converte-se em advogada das paixões. Cada grupo considera-se portador exclusivo da virtude. Cada facção vê na outra não um adversário a ser persuadido, mas um inimigo a ser derrotado. O resultado inevitável é a deterioração do espaço público. O diálogo transforma-se em disputa, a disputa transforma-se em hostilidade e a hostilidade prepara o terreno para novas formas de autoritarismo. Nenhum governo precisa impor censura severa quando os próprios cidadãos aprendem a censurar uns aos outros. Entretanto, seria equivocado atribuir toda responsabilidade aos governantes. A servidão raramente se sustenta apenas pela força. Ela frequentemente depende da colaboração dos próprios submetidos. Muitos indivíduos preferem a segurança da orientação externa ao peso da responsabilidade moral. Desejam que alguém lhes diga o que pensar, o que sentir, o que aprovar e o que condenar. A liberdade exige esforço. A dependência oferece conforto.

Outro aspecto preocupante consiste na crescente subordinação dos princípios aos interesses. Observa-se, em diversos campos da vida pública, uma tendência a avaliar a moralidade das ações não por sua conformidade com o dever, mas por sua utilidade imediata. O que gera lucro torna-se virtuoso. O que produz vantagem política torna-se justificável. O que fortalece determinado grupo passa a ser considerado legítimo. Entretanto, uma sociedade incapaz de distinguir entre conveniência e dever encontra-se em processo de erosão moral.

O imperativo categórico permanece simples em sua formulação e exigente em suas consequências. Antes de agir, cada indivíduo deveria perguntar a si mesmo se aceitaria que a máxima de sua conduta se transformasse em lei universal. A resposta a essa pergunta eliminaria grande parte das hipocrisias contemporâneas.

Muitos defendem para si direitos que negam aos outros. Muitos exigem tolerância para suas opiniões enquanto recusam tolerância às opiniões divergentes. Muitos denunciam abusos quando são vítimas deles, mas permanecem silenciosos quando os abusos favorecem suas causas. Nenhuma dessas atitudes resiste ao teste da universalização.

Ainda assim, não convém concluir este ensaio em tom de desespero. A história humana jamais foi uma marcha linear em direção ao aperfeiçoamento. O progresso moral sempre ocorreu por meio de avanços e retrocessos. A liberdade frequentemente parece enfraquecida antes de recuperar sua força. Permanece válido, portanto, o ideal do esclarecimento.

O destino da civilização não será decidido pelas máquinas, pelos mercados ou pelos governos, mas pela capacidade dos indivíduos de exercerem sua autonomia moral. O maior perigo continua sendo a renúncia voluntária ao uso da própria razão. Enquanto existirem homens e mulheres dispostos a pensar por si mesmos, a examinar criticamente as autoridades, a submeter suas próprias convicções ao escrutínio da razão e a tratar os demais como fins em si mesmos, a esperança não estará perdida.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Não somos ricos pelo que possuímos, mas pelo que podemos dispensar.”
Immanuel Kant

Immanuel Kant. Imagem: reprodução / internet

 

História de Brasília
O Ministério da Saude, por sua vez, autorizou a liberação de uma verba de 574 milhões de cruzeiros para a Fundação Hospitalar. Esta verba irá para o Rio, onde passará pela Divisão de Orçamento. Em seguida, será registrada no Tribunal de Contas, para pronta utilização. (Publicado em 20.05.1962)

Distopia à vista

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Tirinha: Mafalda

 

Não é de agora que escritores, visionários, filósofos e outros pensadores da questão humana imaginam e preveem um mundo e uma sociedade distópica, onde os valores morais e éticos e todas as relações sociais saudáveis desabaram para um patamar no subsolo onde a opressão, o autoritarismo, a anarquia e a desagregação do indivíduo e das famílias passam a dominar o ambiente de todas as nações, fazendo, do exercício da vida, um tormento sem fim.

Obras literárias de grande valor como ‘1984’, de George Orwell, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, “Guerra dos Mundos, de H.G Wells, e uma centena de outras buscaram descrever esse mundo futuro de pesadelo onde a tecnologia, que anteriormente foi pensada para libertar o homem dos trabalhos enfadonhos e infindáveis, agora passa a ser usada como ferramenta para controlar e oprimir as massas, criando um ambiente no qual todos são absolutamente vigiados e escravizados, do nascimento até a morte.

Mesmo as grandes metrópoles, outrora majestosas e desejadas, vão se transformando, dentro desse novo ambiente de miséria humana, em lugares decadentes e extremamente hostis. Ocorre que se, no passado, essas imagens e predições ficcionais foram utilizadas, por seus autores, dentro de um contexto que visava alertar e satirizar para a possibilidade das sociedades modernas transformarem o planeta num lugar de absoluto sofrimento, hoje, mais e mais, parece que estamos nos dirigindo ao encontro daquilo que mais temíamos: construindo, com nossas próprias mãos, a Torre de Babel distópica que poderá erguer o inferno sobre a Terra, antes mesmo do advento do apocalipse.

Alguém já afirmou que o único cenário que a mente humana não pode trazer para a realidade é aquele que não consegue elaborar mentalmente. Em outras palavras, e dentro das possibilidades infinitas de nossa espécie e que nos torna diferente de outros seres vivos, temos uma capacidade de projetarmos o futuro e nos encaixarmos nele, mesmo que esse futuro não seja do nosso agrado e nos coloque em rota de colisão contra a continuação da nossa própria espécie.

É essa dualidade humana que, ao mesmo tempo, a unir o Eros e o Tânatos, temos que arrastar para frente, num combate eterno contra nós mesmos, tão bem representado pela alegoria de Sísifo, condenado a empurrar para sempre, morro acima, uma gigantesca pedra que, ao atingir o topo, volta a rolar morro abaixo.

Essas reflexões vêm a propósito do fenômeno experimentado em boa parte do mundo e que parece decretar o que seriam os primeiros sinais da morte da cultura, em todos os seus aspectos. De certa forma, esse seria, para muitos, o prenúncio a indicar que estamos no limiar de um mundo distópico. Fechamento de teatros, museus, bibliotecas, livrarias, galerias de arte, cinemas e mesmo o que parece ser a falência da música, dos coros, das orquestras, da moda e tantas outras invenções do gênero humano, tão necessários para a evolução de nossa espécie e que nos tornam aquilo que buscamos ser: seres humanos.

Trata-se de um fenômeno que vai acontecendo não apenas por indução da pandemia, mas da própria condição atual de todos nós, terráqueos, preocupados e envoltos em nossas revoluções internas, enquanto destruímos o planeta e todo o seu bioma. Escondidos em nossas cavernas modernas, fugimos do vírus externo enquanto, por toda a parte, as lideranças políticas vão assenhorando da máquina do Estado, transformando nossas instituições e criando outras à imagem e semelhança de seus propósitos.

Ao romper a barreira da cultura, estarão abertas as brechas para o alagamento total de nossa civilização, já abalada pelos esforços contínuos de destruição das famílias e o que resta do ensino público.

Enquanto permanecemos mergulhados em nosso sono de hibernação, um mundo distópico vai sendo erguido bem defronte de nossas casas.

 

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Os romances distópicos ajudam as pessoas a processar seus medos sobre como será o futuro; além disso, eles geralmente mostram que sempre há esperança, mesmo no futuro mais sombrio.”

Lauren Oliver, escritora norte americana

Lauren Oliver, 2016. Foto: wikipedia.org)

 

Gestão

Depois do elogio feito à farmácia de alto custo, o que acontece hoje é que não previram o final do contrato com a empresa que entregava os medicamentos por motoqueiros. Quem recebe os remédios são pessoas de saúde vulnerável, daí a necessidade da entrega em domicílio. Resultado: na estação do metrô na 102 sul, a fila é grande com pessoas que não precisariam estar ali se houvesse uma administração competente.

Foto: saude.df.gov

 

Que presente

Acompanhar cada passo do PSOL é uma tarefa difícil para quem ainda preza pela instituição familiar. Desconstruir a biologia, forçando meninos e meninas, crianças ainda, a serem sugestionados a trocar de sexo é um escândalo plantado, onde a tempestade não vai ser colhida por essa geração inconsequente. Um partido que desconstrói trabalha com escombros.

 

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

O Doutor Tancredo Neves mandou dizer que a reunião do Conselho de Ministros foi adiada, porque ele precisava receber o chanceler do México. Se não passar ninguém pelo Rio terça-feira próxima, haverá reunião em Brasília. (Publicado em 19/01/1962)

Os referenciais de riquezas de uma nação mudam com a evolução humana

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Charge do Alex Xavier

 

Ao longo da história da civilização, o referencial de riqueza de um povo variou conforme iam se alterando também a própria complexidade da sociedade. Quando o Brasil foi anexado aos interesses de Portugal, no início da Idade Moderna, o mundo ocidental experimentava um longo período econômico que os historiadores denominaram de Mercantilismo.

Naquela época, rica era a nação que possuísse a maior quantidade possível de metal (ouro e prata) em seus cofres e que pudesse manter um intenso e disputado comércio com outras partes do mundo. Para isso o Estado deveria intervir fortemente no mercado interno, contar com uma larga frota de embarcações, portos bem montados e toda uma infraestrutura capaz de manter a nação ocupada em explorar novos mercados, novos mundos.

Com o advento da Revolução Industrial, que nada mais foi do que a substituição da força humana pela força das máquinas, a noção de riqueza se deslocou do comércio intenso para a produção em série de produtos para o consumo humano. Nesse período, ricos eram os países que possuíssem muitas fábricas, metalúrgicas, têxteis e outras indústrias de transformação. Era a fase do capitalismo industrial.

Com a descoberta das potencialidades do petróleo e do motor à explosão, mudou, mais uma vez, o referencial de riqueza de uma nação. Dessa vez, país rico era aquele que possuía ricas jazidas desse mineral, produzia máquinas e outros bens capitais de transformação. Para isso, era preciso que uma nação contasse com forte aporte de capitais financeiros para essas empreitadas. Nessa fase, conhecida como capitalismo financeiro, os grandes bancos e agências de empréstimos investiam fortunas nas novas tecnologias que iam surgindo, como a luz elétrica, a borracha, o automóvel e outras invenções que transformaram o mundo contemporâneo naquilo que ele é hoje.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“O fato de ser brasileiro só me enche de orgulho!”

Ayrton Senna

 

Parque Brasil

Reginaldo Marinho está sempre empenhado em formar uma sociedade de massa crítica que crie oportunidades de desenvolvimento econômico, a partir da implementação de tecnologias nacionais, e defensora intransigente de nossa cidade.

 

 

Acervo

Em um texto publicado na Folha do Meio, o nosso cientista descreve como será o Parque Temático sobre o Brasil. A ideia é expor produtos tecnológicos brasileiros, as riquezas minerais e exibir um acervo que represente os ciclos econômicos brasileiros, constituídos por núcleos que contenham os fenômenos sociais e culturais desses ciclos: Pau-Brasil, Açúcar, Ouro/Diamante, Algodão, Borracha e Café. Estando esses núcleos interligados por réplicas da Estrada Real.

 

PEDRA DO INGÁ – A menos de 40km de Campina Grande (folhadomeio.com.br)

 

Patrimônio

Outro espaço para a exposição de equipamentos usados em diversas áreas do conhecimento, que constituem o patrimônio natural do Brasil através da geologia, biologia, antropologia, arqueologia, paleontologia e espeleologia. Deverão ser instalados laboratórios de biologia, física, química e de solos. Especial atenção para a água. O local deverá ter uma nascente para preservar e para educar em contrapartida com as nascentes do Distrito Federal que estão sendo engolidas pelos condomínios irregulares.

 

 

Tecnologia

Com certeza agradarão, aos estudantes e visitantes em geral, as modernas tecnologias, como impressão 3D, aliadas à argamassa armada. Imagine poder construir ou reproduzir monumentos como a Pedra do Ingá, ou as pegadas dos dinossauros, ambos registros icônicos que ficam na Paraíba; a gruta da Pratinha, na Chapada Diamantina e outros tantos monumentos naturais espalhados pelo Brasil afora.

Foto: PEGADAS DE DINOSSAUROS – Deixadas no leito do rio do Peixe há aproximadamente 110 milhões de anos (folhadomeio.com.br)

 

É nosso

Reginaldo Marinho explica que a essência do projeto é fortalecer a autoestima da população, restaurar o orgulho nacional, facilitar a compreensão de nacionalidade, portanto, de cidadania, permitir o acesso às novas tecnologias e gerar riqueza com o desenvolvimento tecnológico nacional. Tudo aliado aos prováveis resultados do Núcleo Tecnológico, núcleo que abrigará o Espaço das Invenções Brasileiras, com salas dedicadas a Alberto Santos Dumont – e seu 14 Bis -, ao Padre Azevedo e Padre Landell de Moura.

Foto: folhadomeio.com.br

 

Valorização

O padre paraibano Francisco João de Azevedo foi o precursor da máquina de escrever no século 19. A máquina do Padre Azevedo foi apresentada mais de uma década antes da primeira Remington. A invenção do religioso poderia ter sido símbolo do progresso brasileiro, mas acabou esquecida num canto da História.

Foto: folhadomeio.com.br

 

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

Ao presidente do IAPFESP, particularmente, recomendamos tomar conhecimento da imoralidade da permissão para a construção de casas de alvenaria em plena superquadra com o material do Instituto. (Publicado em 14.11.1961)