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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Poucas vezes na história moderna uma crise de saúde pública avançou de forma tão rápida, tão abrangente e tão silenciosa quanto a crise global da saúde mental. Não se trata de uma impressão subjetiva. Os números confirmam que algo profundo está acontecendo com a população mundial. Ansiedade, depressão, transtornos de humor, síndromes relacionadas ao estresse, distúrbios do sono e outros problemas psíquicos avançam em praticamente todos os continentes, atingindo crianças, jovens, adultos e idosos. Segundo dados recentes compilados pela Organização Mundial da Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas convivem atualmente com algum transtorno mental. Isso significa que aproximadamente uma em cada sete pessoas no planeta enfrenta algum tipo de problema relacionado à saúde da mente.
Trata-se de uma realidade que desafia governos, sistemas de saúde e especialistas. Também levanta uma questão inevitável: o que aconteceu com a sociedade contemporânea para produzir tamanha expansão dos distúrbios mentais? Durante séculos, doenças infecciosas foram consideradas as grandes ameaças à humanidade. Hoje, embora continuem existindo, observa-se o crescimento acelerado das chamadas doenças da mente. A depressão tornou-se uma das principais causas de incapacidade no mundo. Transtornos de ansiedade avançam em ritmo semelhante. A própria OMS considera a saúde mental uma das maiores prioridades sanitárias do século XXI.
Uma revisão sistemática envolvendo mais de 75 mil participantes estimou que aproximadamente 4% da população brasileira utiliza antidepressivos, com prevalência crescente entre mulheres e idosos. O dado talvez pareça pequeno à primeira vista. Não é. Considerando uma população superior a 200 milhões de habitantes, estamos falando de milhões de brasileiros utilizando medicamentos para lidar com sofrimento psíquico. Além disso, os números oficiais normalmente capturam apenas os casos diagnosticados e tratados, deixando de fora uma vasta população que convive com sintomas sem procurar assistência médica.
Nenhuma geração anterior viveu submetida a tamanha quantidade de estímulos informacionais. Redes sociais, notificações permanentes, excesso de telas, comparação social constante e hiperconectividade alteraram profundamente os hábitos humanos. O cérebro, moldado durante milhares de anos para lidar com ambientes relativamente estáveis, passou a receber uma avalanche contínua de informações. Somam-se a isso fatores econômicos. Insegurança profissional, endividamento crescente, encarecimento do custo de vida, dificuldade de acesso à moradia e perspectivas incertas para o futuro criam um ambiente permanente de tensão psicológica. Outro elemento importante está relacionado ao enfraquecimento de estruturas tradicionais de convivência. Famílias menores, relacionamentos mais frágeis, isolamento social crescente e redução dos vínculos comunitários produziram uma sociedade mais conectada digitalmente e, paradoxalmente, mais solitária.
Em várias economias desenvolvidas, médicos e especialistas apontam que muitos quadros de sofrimento emocional refletem não apenas problemas individuais, mas condições sociais deterioradas, marcadas por estresse crônico, jornadas de trabalho desgastantes e insegurança cotidiana. Outro aspecto relevante envolve a própria evolução dos diagnósticos.
Estudos internacionais apontam aumentos expressivos especialmente em casos de ansiedade e depressão.
Nesse contexto surge outro fenômeno digno de reflexão: a explosão do mercado farmacêutico ligado à saúde mental. Antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e medicamentos para transtornos do sono movimentam bilhões de dólares todos os anos. Em muitos países, o consumo desses produtos alcançou níveis sem precedentes. Pesquisas internacionais, como a realizada pela OCDE: Health at a Glance (Um olhar sobre a saúde) mostram que antidepressivos figuram entre os medicamentos mais prescritos do mundo. Para milhões de pessoas representam tratamento fundamental e, muitas vezes, salvador. O problema surge quando toda uma questão social complexa passa a ser tratada exclusivamente sob uma perspectiva farmacológica. Nenhum comprimido é capaz de substituir relações humanas saudáveis. Nenhum medicamento elimina sozinho os efeitos da solidão, da insegurança econômica ou da fragmentação social.
Também merece atenção a situação das novas gerações. Crianças e adolescentes cresceram em um ambiente radicalmente diferente daquele conhecido por seus pais e avós. Exposição precoce às redes sociais, redução das interações presenciais, pressão por desempenho e excesso de estímulos digitais criaram desafios inéditos para o desenvolvimento emocional. Tudo indica que a humanidade entrou em uma nova fase de sua história. Durante muito tempo o principal desafio foi vencer doenças que atacavam o corpo. Agora surge um desafio igualmente complexo: preservar a saúde da mente em um mundo cada vez mais acelerado, competitivo e tecnologicamente invasivo. Nenhuma sociedade pode considerar normal que centenas de milhões de pessoas convivam permanentemente com ansiedade, depressão ou sofrimento emocional incapacitante. Talvez a grande pergunta do nosso tempo seja: quanto custa a sua paz?
A frase que foi pronunciada:
“Deprimido com o aquecimento global? Nem tanto quanto os ursos bipolares.”
Mídias sociais

História de Brasília
Quase se consumava um dos maiores atentados da história terrorista da humanidade. Um oficial reformado da FAB, celebre pelo furto de avião à guisa de revolução, confessou haver colocado uma bomba relógio na Exposição russa, que, se explodisse, seria catástrofe maior que a do circo de Niterói. (Publicada em 22.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
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Crise histórica e sem precedentes de saúde mental em vários países do mundo, com jovens na faixa de vinte anos ou menos se sentindo muito mais infelizes do que os jovens de décadas passadas. Há um achatamento na tradicional curva da felicidade ao longo da vida. Geralmente, essa curva resultava de divulgação de estudos que relatavam que jovens tendiam a se mostrar com altos níveis de bem-estar. Esses níveis caíam durante a meia-idade e voltavam a subir depois dos 50 anos.
Dados atuais sugerem que essa curva ou esse padrão está mudando para pior. Segundo o Global Flourishing Study (GFS), que é um dos maiores levantamentos sobre esse tema, que contou com cerca de 200 mil participantes de 22 países e durante 5 anos, essa curva tradicional está se achatando. Jovens na faixa de 18 a 24 anos têm apresentado os menores níveis de bem-estar em todos os indicadores. Enquanto isso, as pessoas mais velhas, especialmente acima de 60 anos, são aquelas que estão se tornando mais satisfeitas com a vida. Este contraste é uma confirmação daquilo que já previam os pesquisadores, ou seja, vivemos hoje uma crise sem precedentes de saúde mental entre os mais jovens.
Estudo dessa natureza e profundidade está sendo realizado com base na Teoria do Florescimento, criada pelo psicólogo Martin Seligman, que resume a felicidade não como ausência de problemas, mas sim provocada pela presença de aspectos que enriquecem a vida e que acabam por produzir um estado de bem-estar psicológico. Segundo Seligman, uma pessoa para florescer necessita experimentar emoções positivas, engajamento em atividades também positivas, com relacionamentos interpessoais satisfatórios, um sendo de propósito e realização pessoal. Desses elementos, resulta o bem-estar psicológico. Com isso, a felicidade não é confundida com mera satisfação com a vida, mas mais ligada ao crescimento pessoal e propósitos.
Pesquisas em várias culturas pelo mundo afora mostram que, através de milênios, os povos sempre deram atenção a uma lista de assim chamadas virtudes advindas do caráter, a sabedoria e o conhecimento, a coragem, a humanidade, a justiça, a temperança, na qual se incluem o perdão, a humildade, a prudência e a autorregulação. Por último, nessa lista de virtudes voltadas ao bem-estar e a felicidade, vem a transcendência, conceito filosófico capaz de situar o indivíduo para além do mundo material e das aparências ou experiências humanas comuns. A transcendência, como fenômeno metafísico, é fundamental para dar o sentido de existência da vida humana, forçando o indivíduo a ir além dos limites, graças a um estado superior de consciência.
Metade de nossas vidas, consumimos em pensar e devagar, analisando o passado e modelando projetos para o futuro. Nesses pontos complexos, entra ainda a chamada mindfulness, que é a atenção plena ajudada pela meditação, focada em exercitar a parte de nosso cérebro responsável pela mente, promovendo um melhor gerenciamento da vida. Por isso se diz que quem medita é mais feliz e resiliente.
Existem Especialistas em felicidade, inclusive há, em alguns países, um ministério da felicidade, como nos Emirados Árabes Unidos (EAU). O atual panorama que mostra porque os jovens se mostram cada vez mais envoltos por uma pesada nuvem de infelicidade aponta o ambiente de alta comparação social como um dos fatores, sobretudo, aquele promovido pelas redes sociais. Essa geração também enfrenta um cenário, para dizer o mínimo no caso brasileiro, instável. Os jovens se deparam com a insegurança no emprego, um aumento assustador no custo de vida, tudo isso embrulhado no papel reciclado de uma crise climática global. Observar o planeta nesses dias de alto poder de intercomunicação acende sentimentos como a ansiedade e a desesperança.
Talvez, por isso, os consultórios de psiquiatria e de psicólogos estão cada vez mais cheios de pacientes jovens. Nunca se vendeu, também, tantos medicamentos para transtornos da mente. A continuar nesse achatamento da curva de felicidade humana, o futuro pode ser ainda mais sombrio. Gerações emocionalmente fragilizadas são um perigo para o futuro. Governos, como em nosso caso, sabe-se, não se interessam por questões futuras a não ser que esse futuro não avance além das próximas eleições. Sendo assim…
A frase que foi pronunciada:
“Os adolescentes que passam mais tempo em redes sociais são consistentemente menos felizes. Aqueles que passam mais tempo com pessoas ou dormindo, são mais felizes.”
Jean Twenge, autora de iGen

História de Brasília
O senhor Magalhães foi demitido do DCT de Brasília. Durante tôda a sua gestão, o departamento nada apresentou de novo ou de justo para o público. Seus funcionários dormiram ao relento, ou em depósito de sucatas. Os contratados não receberam um tostão. Termina assim, essa gestão. (Publicado em 05.05.1962)
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O senso comum ensina que distúrbios mentais que atingem familiares próximos, causam mais doenças, em decorrência do excessivo stress nas pessoas ao redor, do que nos próprios pacientes. A dedicação intensa, ao longo de toda a sua vida, à psiquiatria, fez de Nise da Silvera uma das heroínas do Brasil, principalmente quando provou que o trabalho e a interação com as artes e com plantas e animais domésticos possuíam um valor terapêutico poderoso, até então desconhecido.
Mario Pedrosa, um dos mais importantes críticos de arte do país, sentenciou: “A atividade artística é uma coisa que não depende, pois, de leis estratificadas, frutos da experiência de apenas uma época na história da evolução da arte. Essa atividade se estende a todos os seres humanos, e não é mais ocupação exclusiva de uma confraria especializada que exige diploma para nela se ter acesso. A vontade de arte se manifesta em qualquer homem de nossa terra, independente do seu meridiano, seja ele papua ou cafuzo, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado.”
O texto acima foi escrito em 1947, por ocasião da primeira exposição de pintura dos pacientes do Hospital (manicômio) de Engenho de Dentro, trabalho então coordenado pela renomada médica e psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), introdutora no Brasil da e um método revolucionário de tratamento humanizador para a esquizofrenia por meio da arte. Somente quem já conviveu ou ainda convive com pessoas com quadro dessa doença mental, sabe o que significa e qual a importância que tratamentos realizados sem agressividade, e não como eram feitos no passado com eletrochoques, insulinoterapia ou lobotomia
Em 1946, Nise fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional (STOR), onde montou ateliês de pintura e modelagem com o objetivo de, por meio da expressão simbólica e da criatividade, os internos conseguissem, de alguma forma, reatar os laços com a realidade. A importância de seu trabalho foi reconhecida em todo mundo por especialistas nessa área, inclusive pelo próprio Carl G. Jung, com quem manteve um longo relacionamento, por cartas por mais de uma década.
No ateliê, conta um dos seus ex-alunos, Bernardo Horta, houve uma explosão de pinturas, desenhos e esculturas que Nise e sua equipe não esperavam. Nise, que já lia Jung, percebeu aquilo que o psicanalista afirmava: se para o neurótico – o que seria todos nós, segundo Freud – o tratamento é por meio da palavra, ou seja, a psicanálise, para o esquizofrênico, segundo Jung, a palavra não dá conta. Para esse paciente, o tratamento deveria ser pela imagem”. Ao divã e a palavra, preferidos por Freud, Nise optou pela expressão plástica como método terapêutico, conforme recomendava Jung, o que a levou a buscar um tratamento de fato para os pacientes e não simplesmente estudá-los.
Com isso, afirmam seus biógrafos, Nise aprofundou o trabalho e as ideias de Jung, levando esses novos conceitos de tratamento muito além. Não surpreende que um trabalho tão fecundo tenha, ainda hoje, desdobramentos e muito vigor. O Instituto Nise da Silveira convocou uma série de grafiteiros para decorar os muros da Instituição, transformando o local numa galeria à céu aberto, com dezenas de painéis retratando pessoas que deram contribuição a chamada arteterapia, de forma que o Hospital passe a ser visto como parte integrante da cidade.
Caso estivesse viva hoje, por certo a Drª Nise da Silveira, com a experiência que vivenciou durante a epidemia de gripe espanhola (1918-1920) e de posse de todo o conhecimento que acumulara, na área de psiquiatria, teria um imenso campo pela frente para trabalhar as neuroses que a atual geração vem experimentando. Em última análise, um problema do mundo atual, com toda a complexidade de nosso tempo, a mudança de costumes e de paradigmas em si, não são capazes de alterar, em profundidade, as características da mente humana. Os complexos e as neuroses humanas de ontem, são, no seu íntimo, as mesmas manifestadas hoje em dia.
Vários acontecimentos têm afetado a saúde mental de crianças e jovens, além dos adultos, afirmou Guilherme Polanczyk da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em matéria divulgada pela Agência Brasil. Segundo o psiquiatra, a situação de estresse nas crianças pode ser negligenciada, já que são menos infectadas e o sofrimento pode passar desapercebido.
A frase que foi pronunciada:
“Ser espontâneo apenas significa ser coerente consigo mesmo.”
Fayga Ostrower

História de Brasília
Começou o plantio de grama no IAPI 105. A paisagem vermelha e agressiva, começa a ceder ante a presença do verde. A irrigação está com muto atraso e pode prejudicar os planos de jardinagem. (Publicada em 08.04.1962)

