Famílias cada vez mais endividadas e os limites das soluções de curto prazo

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Com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2026, o maior percentual da série histórica. O endividamento das famílias brasileiras deixou de ser um fenômeno estatístico para se tornar um dos principais desafios econômicos do país. Esses números mostram uma tendência consistente de crescimento do comprometimento da renda das famílias com dívidas, ao mesmo tempo em que a inadimplência permanece elevada. Independentemente da avaliação que se faça sobre as políticas do governo, o quadro exige atenção porque afeta diretamente consumo, investimento e crescimento econômico.
Entre as famílias de menor renda, a inadimplência também apresentou aumento, indicando maior dificuldade para cumprir compromissos financeiros. Esse cenário não surgiu de um único fator. A combinação entre juros elevados, crédito caro, inflação acumulada sobre itens essenciais e baixo crescimento da renda disponível ajuda a explicar a deterioração das finanças domésticas. Economistas têm apontado que o elevado custo do crédito continua sendo um dos principais obstáculos para a recuperação financeira das famílias brasileiras. Foi nesse contexto que o governo federal lançou o programa Novo Desenrola Brasil, destinado à renegociação de dívidas bancárias de famílias com renda de até cinco salários mínimos. O programa prevê descontos que podem chegar a 90%, juros limitados e parcelamento em até 48 meses, com o objetivo declarado de reduzir a inadimplência e reinserir consumidores no mercado de crédito. A proposta tem potencial para beneficiar parte dos inadimplentes. Estudo da Serasa estima que, no cenário mais favorável, cerca de 7,8 milhões de pessoas poderiam deixar a condição de negativadas ao longo da vigência do programa. Entretanto, programas de renegociação costumam enfrentar uma limitação conhecida: tratam principalmente das consequências do endividamento, não necessariamente de suas causas estruturais.
Se renda, produtividade, emprego e custo do crédito não evoluírem de forma consistente, parte dos consumidores pode voltar a enfrentar dificuldades financeiras após a renegociação. Esse é um ponto frequentemente destacado por especialistas em educação financeira e mercado de crédito, como Gustavo Cerbasi e Reinaldo Domingos.
Merece atenção o comprometimento crescente da renda familiar. Quando parcela significativa do orçamento mensal é destinada ao pagamento de financiamentos, cartões de crédito e empréstimos, sobra menos espaço para consumo, investimento e formação de patrimônio. Esse fenômeno reduz a capacidade de reação da economia diante de novas dificuldades. Outro aspecto relevante diz respeito à confiança. Consumidores excessivamente endividados tendem a adiar compras, reduzir investimentos e aumentar a poupança preventiva sempre que possível. Empresas respondem diminuindo investimentos, o que pode afetar emprego e crescimento econômico.
Nenhuma política pública consegue alterar essa realidade apenas por meio da renegociação de contratos. A recuperação duradoura das finanças familiares depende de fatores mais amplos, como estabilidade econômica, inflação controlada, crescimento da renda, produtividade, ambiente favorável aos investimentos e acesso a crédito em condições sustentáveis. Isso não significa que programas de renegociação sejam inúteis. Eles podem oferecer alívio imediato para milhares de famílias e reduzir parte da pressão sobre consumidores inadimplentes. A questão central é outra: sua eficácia de longo prazo dependerá da evolução das condições econômicas que levaram ao endividamento. O problema é que o debate público tende a transformar políticas econômicas em disputas exclusivamente políticas. Convém, porém, distinguir avaliação técnica de posicionamento partidário.
Ao longo do tempo, acompanhar os beneficiários do Novo Desenrola mostrará mais sobre os efeitos da inadimplência só poderão ser avaliados de forma consistente no futuro. O verdadeiro teste não será o número de contratos renegociados nos próximos meses, mas quantas famílias conseguirão permanecer adimplentes nos anos seguintes. É essa diferença que separa uma solução temporária de uma recuperação financeira sustentável.

A frase que foi pronunciada:
“Não existe uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo.”
Lauro Gonzalez

Convivência
De um lado moradores reclamam do aumento de capivaras nos lagos Norte e Sul. De outro, há quem fique de olho na carne desse animal. O certo é que a reunião realizada no Ministério Público / (Prodema) Programa de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, com a presença da promotora de Justiça Luciana Bertini e de representantes do Instituto Brasília Ambiental tranquilizou a população afirmando que não há perigo de febre maculosa.

Curiosidade
Efraim Filho e Rodrigo Pacheco lutaram pela lei que permite a divulgação da 1ª lista de devedores contumazes. Pelo visto ficou de fora o devedor de precatórios.

História de Brasília
Os horários distribuídos pela Ponte Aérea no início da operação não estão valendo nada. Sai o avião que quiserem na hora que desejarem. Para o Rio, mesmo, continua a VASP, com horário, equipamento de primeira, e passagem ida e volta mais barata. (Publicada em 22.05.1962)

Herança

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Charge do Cláudio

 

Chegará ao Planalto, em janeiro de 2027, um presidente que não herdará um país, mas um conjunto de problemas acumulados, encadeados e, em muitos casos, agravados pela omissão e pela má gestão. Não haverá tempo para discursos de posse com promessas vagas. O cenário exigirá decisões imediatas, porque o Brasil que estará à sua frente não será o das campanhas eleitorais, mas o da realidade concreta, dura e pouco negociável. Encontrará, de saída, um quadro fiscal pressionado. As contas públicas, já há anos tensionadas por gastos crescentes e baixa capacidade de investimento, deverão impor limites claros a qualquer aventura política. Qualquer medida mal calibrada terá impacto direto na inflação, nos juros e, por consequência, no bolso da população.

O Brasil convive há décadas com produtividade baixa, ambiente de negócios complexo e insegurança jurídica recorrente. Nenhum presidente resolve isso com discursos. É preciso trabalhar em estruturas como o sistema tributário, burocracia excessiva e um Estado que muitas vezes dificulta mais do que ajuda. Sem enfrentar esses pontos, o país continuará girando em falso.

No campo social, a situação não será mais simples. O grande desafio continuará sendo transformar assistência em autonomia. Isso passa por educação de qualidade, formação profissional e geração de empregos. Sem isso, o ciclo de dependência do Estado se perpetua, e o país não avança. A segurança pública será outro ponto crítico. O avanço do crime organizado, cada vez mais estruturado e com atuação nacional, exigirá coordenação entre União e estados. Será preciso inteligência, integração de dados e, sobretudo, vontade política para enfrentar interesses que já se infiltraram em diversas áreas.

No campo institucional, o próximo presidente encontrará um ambiente de desconfiança. Parte da população não acredita plenamente nas instituições, enquanto outra parte as defende sem reservas. A máquina pública continuará pesada. Gastos obrigatórios comprimem o orçamento, e reformas estruturais seguem sendo evitadas por seu custo político. O novo presidente terá de decidir se enfrenta esse problema ou se apenas o administra. Adiar decisões pode parecer confortável no curto prazo, mas cobra um preço alto adiante.

Na política, encontrará um Congresso fragmentado, com interesses múltiplos e nem sempre convergentes com o interesse público. No cenário internacional, o Brasil continuará inserido em um mundo mais instável. Tensões comerciais, disputas geopolíticas e mudanças nas cadeias produtivas exigirão posicionamento estratégico. Outro ponto inevitável será a agenda ambiental. O país possui ativos relevantes, mas também enfrenta críticas externas e pressões internas. Conciliar desenvolvimento econômico com preservação não é tarefa simples.

Na infraestrutura, o desafio continuará sendo transformar projetos em obras concluídas. Sem melhorar a capacidade de entrega, o Brasil seguirá com gargalos que encarecem a produção e limitam o crescimento. Na educação, os resultados ainda estarão aquém do necessário. Avaliações mostram dificuldades persistentes em aprendizagem básica. Educação não é tema para slogans, mas para políticas consistentes e contínuas.

O próximo presidente também herdará um país cansado. Cansado de promessas não cumpridas, de crises recorrentes e de soluções que não se concretizam. Nada disso será novidade para quem acompanha o país com atenção. O problema nunca foi falta de diagnóstico. O problema sempre foi execução. O Brasil sabe o que precisa ser feito em muitas áreas. Falta fazer.

O presidente que assumir em 2027 terá duas opções. Repetir o roteiro conhecido, adiando decisões e administrando crises, ou enfrentar os problemas com clareza e responsabilidade. O país que será entregue em 2027 não estará condenado, mas tampouco estará resolvido. Será, como tantas vezes na história, um país em aberto. Caberá ao próximo presidente decidir se continuará sendo apenas mais um capítulo de expectativas frustradas ou se iniciará um processo de correção de rumos. O tempo, como sempre, será o juiz mais rigoroso.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A liberdade que sempre defendemos é a de viver com dignidade, com plenos direitos de expressões e manifestação, e sobretudo de organização. A liberdade que eles pregam é a de oprimir o vulnerável, massacrar o oponente e impor a lei do mais forte acima das leis da civilização. O nome disso é barbárie.”…

Presidente Lula, no discurso de posse

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

Historia de Brasilia
O ministro da Agricultura mandou um telegrama ao ministro Ari Franco, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, convidando-o para a solenidade de instalação da Comissão de Reforma Agrária, no Rio. (Publicada em 18.05.1962)

O tempo da colheita

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Charge do Nani (nanihumor.com)

 

Já se sabe, entre erros e acertos, que os números não aceitam desaforos. Ainda mais quando apresentados dentro do raciocínio lógico da matemática. Dá para imaginar o esforço que os assessores do ministro da Fazenda fazem, até altas horas da noite, para encontrar, dentro das despesas do governo, aquelas que podem ser cortadas do Orçamento sem que contrariem as intenções políticas do Presidente da República, voltadas para a manutenção daquilo que ele diz não serem gastos, mas, sim, investimentos.

Buscar na aritmética variantes para adequar os números aos meneios políticos não é tarefa para economistas, mas para peritos nas artes da política. Nesse caso, misturam-se os números com as variantes políticas. Às vezes, esse tipo de fórmula resulta em algo sensato. Mas, na maioria das vezes, essa composição acaba resultando em desastre para a economia do país ou para quem assina os documentos.

A alta histórica do dólar é apenas uma face desses arranjos entre os números e a política. Resultados são esperados, como a alta da inflação, recessão e outros efeitos gerados pela inseminação da política nos números. A questão aqui é mais profunda e remete à necessidade básica dos gestores políticos de conhecerem, de antemão, o ABC da contabilidade. Nas regras políticas, o passivo é representado sempre pelos gastos políticos ou pela politização das finanças do Estado. O ativo é o que existe em forma de impostos, taxas e tributos escorchantes. É, portanto, em cima do que existe que se constroem as hipóteses políticas. Os números sempre ficam aquém dos desejos políticos. E aí a conta não fecha.

As chamadas pedaladas fiscais, que tantos males têm causado às finanças do país, entram na confecção do Orçamento como aquela variante que pode livrar o mau gestor de futuros apuros, mesmo que penalize os contribuintes e o país. É nesse sentido que o pacote de cortes de gastos foi apresentado agora aos parlamentares. Logo de saída, fica patente que os programas sociais, sobretudo o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e o salário mínimo podem ser cortados. Afinal, como dizem os economistas, é sempre mais fácil cortar de quem é pobre do que de quem é rico.

Para os financistas, o pacote deveria incidir sobre a tributação das altas rendas e, principalmente, sobre os subsídios e renúncias fiscais que poderiam render algo em torno de R$ 600 bilhões. Mas, no quesito renúncias, o Congresso entra como variante para impedir tal medida. Afinal, há as eleições e todo um universo de questões políticas. Todas elas têm que caber no Orçamento. Uma coisa o governo e parte do Congresso sabem: a arrecadação chegou ao limite. É preciso criatividade para cortar. Sacrificar saúde, educação, Bolsa Família e outros programas sociais com cortes injustos também é moleza, o difícil é enfrentar o poderoso lobby político com assento no Congresso.

Pensar que todo esse descontrole teve origem no desrespeito às normas básicas da responsabilidade fiscal. Foi lá onde tudo começou e é para lá que devemos regressar caso não queiramos nos livrar do abraço de afogado da dominância fiscal. O fato é que todas as medidas com vista à responsabilidade nas contas públicas deveriam ser implementadas aos poucos e com suavidade, desde o primeiro dia de mandato. Neste momento, em cima do laço, quando a corda no pescoço está pra lá de apertada, falta fôlego para voltar atrás. Fôssemos definir a atual situação por parábolas diríamos que o tempo da colheita se aproxima.

 

A frase que foi pronunciada:
“Nada enfraquece tanto um governo quanto a inflação.”
JK Galbraith

John Kenneth Galbraith. Foto: Ota Richter/AP Images

 

Bate-papo com a IA
Em conversa com a inteligência artificial (IA), fiquei curiosa se ela estava pronta para reconhecer uma notícia falsa. A resposta foi contundente. Disse que há várias ferramentas para analisar o sentimento do texto, reputação, histórico. Afirmou que consegue precisar, pela linguagem, lógica das falácias e outras armas linguísticas. Disse que conseguia identificar a manipulação de imagens e vídeos. Perguntei sobre uma notícia, postando as características detectáveis. A resposta que a IA deu é que não poderia ajudar nesse caso porque seria uma apuração falível. A IA se aperfeiçoaria com o tempo, garantiu. Então, reclamei: “Você mentiu sobre ser exímia reconhecedora de notícias falsas”. Ela disse que há limitações e pediu desculpas. Pelo menos, tem consciência!

Charge do Duke

 

História de Brasília

Esta coluna não tem procuração para defender ninguém, mas uma cidade como Brasília não se construiria em três anos num regime de corrupção. Brasília foi construída com o esfôrço e a dedicação da maioria, e já tem enfrentado inquéritos e sindicancias, que, a valer a palavra dos maldizentes, já nem existiriam mais. (Publicada em 24/4/1962)