Herança

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Charge do Cláudio

 

Chegará ao Planalto, em janeiro de 2027, um presidente que não herdará um país, mas um conjunto de problemas acumulados, encadeados e, em muitos casos, agravados pela omissão e pela má gestão. Não haverá tempo para discursos de posse com promessas vagas. O cenário exigirá decisões imediatas, porque o Brasil que estará à sua frente não será o das campanhas eleitorais, mas o da realidade concreta, dura e pouco negociável. Encontrará, de saída, um quadro fiscal pressionado. As contas públicas, já há anos tensionadas por gastos crescentes e baixa capacidade de investimento, deverão impor limites claros a qualquer aventura política. Qualquer medida mal calibrada terá impacto direto na inflação, nos juros e, por consequência, no bolso da população.

O Brasil convive há décadas com produtividade baixa, ambiente de negócios complexo e insegurança jurídica recorrente. Nenhum presidente resolve isso com discursos. É preciso trabalhar em estruturas como o sistema tributário, burocracia excessiva e um Estado que muitas vezes dificulta mais do que ajuda. Sem enfrentar esses pontos, o país continuará girando em falso.

No campo social, a situação não será mais simples. O grande desafio continuará sendo transformar assistência em autonomia. Isso passa por educação de qualidade, formação profissional e geração de empregos. Sem isso, o ciclo de dependência do Estado se perpetua, e o país não avança. A segurança pública será outro ponto crítico. O avanço do crime organizado, cada vez mais estruturado e com atuação nacional, exigirá coordenação entre União e estados. Será preciso inteligência, integração de dados e, sobretudo, vontade política para enfrentar interesses que já se infiltraram em diversas áreas.

No campo institucional, o próximo presidente encontrará um ambiente de desconfiança. Parte da população não acredita plenamente nas instituições, enquanto outra parte as defende sem reservas. A máquina pública continuará pesada. Gastos obrigatórios comprimem o orçamento, e reformas estruturais seguem sendo evitadas por seu custo político. O novo presidente terá de decidir se enfrenta esse problema ou se apenas o administra. Adiar decisões pode parecer confortável no curto prazo, mas cobra um preço alto adiante.

Na política, encontrará um Congresso fragmentado, com interesses múltiplos e nem sempre convergentes com o interesse público. No cenário internacional, o Brasil continuará inserido em um mundo mais instável. Tensões comerciais, disputas geopolíticas e mudanças nas cadeias produtivas exigirão posicionamento estratégico. Outro ponto inevitável será a agenda ambiental. O país possui ativos relevantes, mas também enfrenta críticas externas e pressões internas. Conciliar desenvolvimento econômico com preservação não é tarefa simples.

Na infraestrutura, o desafio continuará sendo transformar projetos em obras concluídas. Sem melhorar a capacidade de entrega, o Brasil seguirá com gargalos que encarecem a produção e limitam o crescimento. Na educação, os resultados ainda estarão aquém do necessário. Avaliações mostram dificuldades persistentes em aprendizagem básica. Educação não é tema para slogans, mas para políticas consistentes e contínuas.

O próximo presidente também herdará um país cansado. Cansado de promessas não cumpridas, de crises recorrentes e de soluções que não se concretizam. Nada disso será novidade para quem acompanha o país com atenção. O problema nunca foi falta de diagnóstico. O problema sempre foi execução. O Brasil sabe o que precisa ser feito em muitas áreas. Falta fazer.

O presidente que assumir em 2027 terá duas opções. Repetir o roteiro conhecido, adiando decisões e administrando crises, ou enfrentar os problemas com clareza e responsabilidade. O país que será entregue em 2027 não estará condenado, mas tampouco estará resolvido. Será, como tantas vezes na história, um país em aberto. Caberá ao próximo presidente decidir se continuará sendo apenas mais um capítulo de expectativas frustradas ou se iniciará um processo de correção de rumos. O tempo, como sempre, será o juiz mais rigoroso.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A liberdade que sempre defendemos é a de viver com dignidade, com plenos direitos de expressões e manifestação, e sobretudo de organização. A liberdade que eles pregam é a de oprimir o vulnerável, massacrar o oponente e impor a lei do mais forte acima das leis da civilização. O nome disso é barbárie.”…

Presidente Lula, no discurso de posse

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

Historia de Brasilia
O ministro da Agricultura mandou um telegrama ao ministro Ari Franco, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, convidando-o para a solenidade de instalação da Comissão de Reforma Agrária, no Rio. (Publicada em 18.05.1962)

O tempo da colheita

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Charge do Nani (nanihumor.com)

 

Já se sabe, entre erros e acertos, que os números não aceitam desaforos. Ainda mais quando apresentados dentro do raciocínio lógico da matemática. Dá para imaginar o esforço que os assessores do ministro da Fazenda fazem, até altas horas da noite, para encontrar, dentro das despesas do governo, aquelas que podem ser cortadas do Orçamento sem que contrariem as intenções políticas do Presidente da República, voltadas para a manutenção daquilo que ele diz não serem gastos, mas, sim, investimentos.

Buscar na aritmética variantes para adequar os números aos meneios políticos não é tarefa para economistas, mas para peritos nas artes da política. Nesse caso, misturam-se os números com as variantes políticas. Às vezes, esse tipo de fórmula resulta em algo sensato. Mas, na maioria das vezes, essa composição acaba resultando em desastre para a economia do país ou para quem assina os documentos.

A alta histórica do dólar é apenas uma face desses arranjos entre os números e a política. Resultados são esperados, como a alta da inflação, recessão e outros efeitos gerados pela inseminação da política nos números. A questão aqui é mais profunda e remete à necessidade básica dos gestores políticos de conhecerem, de antemão, o ABC da contabilidade. Nas regras políticas, o passivo é representado sempre pelos gastos políticos ou pela politização das finanças do Estado. O ativo é o que existe em forma de impostos, taxas e tributos escorchantes. É, portanto, em cima do que existe que se constroem as hipóteses políticas. Os números sempre ficam aquém dos desejos políticos. E aí a conta não fecha.

As chamadas pedaladas fiscais, que tantos males têm causado às finanças do país, entram na confecção do Orçamento como aquela variante que pode livrar o mau gestor de futuros apuros, mesmo que penalize os contribuintes e o país. É nesse sentido que o pacote de cortes de gastos foi apresentado agora aos parlamentares. Logo de saída, fica patente que os programas sociais, sobretudo o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e o salário mínimo podem ser cortados. Afinal, como dizem os economistas, é sempre mais fácil cortar de quem é pobre do que de quem é rico.

Para os financistas, o pacote deveria incidir sobre a tributação das altas rendas e, principalmente, sobre os subsídios e renúncias fiscais que poderiam render algo em torno de R$ 600 bilhões. Mas, no quesito renúncias, o Congresso entra como variante para impedir tal medida. Afinal, há as eleições e todo um universo de questões políticas. Todas elas têm que caber no Orçamento. Uma coisa o governo e parte do Congresso sabem: a arrecadação chegou ao limite. É preciso criatividade para cortar. Sacrificar saúde, educação, Bolsa Família e outros programas sociais com cortes injustos também é moleza, o difícil é enfrentar o poderoso lobby político com assento no Congresso.

Pensar que todo esse descontrole teve origem no desrespeito às normas básicas da responsabilidade fiscal. Foi lá onde tudo começou e é para lá que devemos regressar caso não queiramos nos livrar do abraço de afogado da dominância fiscal. O fato é que todas as medidas com vista à responsabilidade nas contas públicas deveriam ser implementadas aos poucos e com suavidade, desde o primeiro dia de mandato. Neste momento, em cima do laço, quando a corda no pescoço está pra lá de apertada, falta fôlego para voltar atrás. Fôssemos definir a atual situação por parábolas diríamos que o tempo da colheita se aproxima.

 

A frase que foi pronunciada:
“Nada enfraquece tanto um governo quanto a inflação.”
JK Galbraith

John Kenneth Galbraith. Foto: Ota Richter/AP Images

 

Bate-papo com a IA
Em conversa com a inteligência artificial (IA), fiquei curiosa se ela estava pronta para reconhecer uma notícia falsa. A resposta foi contundente. Disse que há várias ferramentas para analisar o sentimento do texto, reputação, histórico. Afirmou que consegue precisar, pela linguagem, lógica das falácias e outras armas linguísticas. Disse que conseguia identificar a manipulação de imagens e vídeos. Perguntei sobre uma notícia, postando as características detectáveis. A resposta que a IA deu é que não poderia ajudar nesse caso porque seria uma apuração falível. A IA se aperfeiçoaria com o tempo, garantiu. Então, reclamei: “Você mentiu sobre ser exímia reconhecedora de notícias falsas”. Ela disse que há limitações e pediu desculpas. Pelo menos, tem consciência!

Charge do Duke

 

História de Brasília

Esta coluna não tem procuração para defender ninguém, mas uma cidade como Brasília não se construiria em três anos num regime de corrupção. Brasília foi construída com o esfôrço e a dedicação da maioria, e já tem enfrentado inquéritos e sindicancias, que, a valer a palavra dos maldizentes, já nem existiriam mais. (Publicada em 24/4/1962)