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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há uma distopia em construção no Brasil. Ela não chegou de repente, com tanques nas ruas ou decretos autoritários. Chegou silenciosamente, protocolar, embrulhada em resoluções normativas, rubricas orçamentárias e jargões técnicos. Chegou pela via dos tributos que se multiplicam sem correspondência em serviços, pelas emendas parlamentares que sangram o Tesouro para alimentar currais eleitorais, pela corrupção que corrói cada real arrecadado antes mesmo que chegue ao destino declarado e pelo crime organizado que ocupa os espaços abandonados pelo Estado.
O resultado é um país que tributa como nação desenvolvida e entrega como nação falida. Manchetes estampam “O Brasil atingiu em 2025 a maior carga tributária da série histórica: 32,4% do PIB. Nenhum serviço público correspondente foi entregue”. Cada esfera governa os próprios instrumentos de coleta: na União, o Imposto de Renda, a Cofins, o PIS e as contribuições previdenciárias; nos estados, o ICMS, o IPVA e o ITCMD; nos municípios, o ISS, o IPTU e o ITBI. O contribuinte é o mesmo em todos os balcões. O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calculou que, em 2024, o trabalhador brasileiro precisou trabalhar até 28 de maio — 149 dias — apenas para quitar suas obrigações com o Estado. Trata-se de quase metade do ano consumida em tributos antes que um único real reste para o indivíduo construir patrimônio, investir, poupar ou simplesmente viver com dignidade.
A carga tributária de 2025 foi de 32,40% do PIB maior da série histórica (Tesouro Nacional). A de 2023, 30,26% do PIB — ou seja, alta de 2,14 pontos percentuais em dois anos. Os dias trabalhados para pagar tributos em 2024 foram 49. A posição no ranking mundial, 14ª maior carga entre os países da OCDE — pior retorno em bem-estar. A perversidade do modelo está, contudo, menos no volume e mais na estrutura. Enquanto os países da OCDE concentram sua arrecadação predominantemente em tributos sobre renda e patrimônio, o que tende a ser mais progressivo, o Brasil arrecada principalmente sobre consumo e folha de pagamento. Em 2025, os impostos sobre bens e serviços representaram 13,78% do PIB.
O que isso significa, na prática, é que o faxineiro e o executivo pagam o mesmo ICMS ao comprar arroz no supermercado. É a regressividade institucionalizada. O chamado Custo Brasil, resultante dessa estrutura que pune produção e consumo, encarece sistematicamente os produtos nacionais e torna as empresas brasileiras não competitivas no mercado global. Cada ponto percentual de carga tributária sobre o consumo é um imposto oculto cobrado na boca do caixa de quem tem menos. Outra constatação nas páginas eletrônicas:”O trabalhador brasileiro é tributado como suíço, mas atendido como cidadão de quinto mundo”. Essa é a essência do pacto perverso que governa o país. A teoria econômica, já há décadas, advertiu sobre os limites da tributação. A Curva de Laffer demonstra que, acima de determinado ponto, o aumento de alíquotas não gera mais receita — ao contrário, destrói a base produtiva, estimula a evasão fiscal, a informalidade e a desindustrialização.
O Brasil cruzou essa fronteira. O mercado informal responde por cerca de 40% do PIB, segundo estimativas do IBGE. A fuga da formalidade não é desonestidade cultural, é resposta racional ao custo insuportável de existir legalmente. A desindustrialização avança há duas décadas. A participação da indústria de transformação no PIB caiu de cerca de 22% nos anos 1980 para menos de 11% no período recente.
Pequenas e médias empresas, espinha dorsal do emprego formal, morrem não pela falta de mercado, mas pela impossibilidade de pagar tributos, salários com encargos e, ainda, competir com importados livres de toda a mesma burocracia. O IPVA cobrado sobre veículos, o IPTU sobre imóveis urbanos, as taxas de licenciamento, as contribuições sindicais compulsórias que sobreviveram à reforma trabalhista, são camadas sobre camadas de extração que não se comunicam com a prestação de serviços públicos. A cobrança existe; a contrapartida, não.
Há no Brasil mais de 90 tributos distintos, entre impostos, taxas, contribuições, contribuições de melhoria e contribuições especiais. Muitos incidem em cascata sobre os mesmos fatos geradores. A bitributação não é acidente: é design. O cidadão paga o ICMS embutido na conta de energia elétrica e, depois, paga o PIS/Cofins sobre o mesmo produto. O empresário paga o IRPJ sobre o lucro e, ao distribuir dividendos, o acionista paga novamente. A complexidade é o produto, não o subproduto.
Na lente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), há o cálculo que apenas as licitações viciadas custam ao país R$ 20 bilhões anuais. Os números mais recentes confirmam a gravidade. Em 2025, a Controladoria-Geral da União (CGU), em articulação com a Polícia Federal, realizou 76 operações especiais — crescimento de 46% em relação a 2024 — identificando R$ 13,6 bilhões em prejuízos potenciais. O valor médio por operação pulou de R$ 5,4 milhões em 2022 para R$ 188,6 milhões em 2025. A escala do crime cresceu na mesma proporção que a capacidade de investigação.
A frase que foi pronunciada:
“O diabo é que a nossa inflação não é de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo.”
Mário Henrique Simonsen

História de Brasília
Essa operação traria as seguintes vantagens: entrega a curto prazo de 2.400 apartamentos; canalização, para Brasília, de 50% do custo, ou sejam 5 bilhões de cruzeiros da iniciativa privada. (Publicado em 20/5/1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
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Nesta altura dos acontecimentos, não chega a ser segredo para ninguém que o Brasil caminha ao encontro de uma encruzilhada decisiva, onde terá que escolher figurar entre as nações do mundo com a maior carga tributária bruta, superior a 32% do PIB, ou virar totalmente as costas para a atual política econômica. Para um país do tipo emergente, como somos, temos uma carga tributária extremamente alta, vis a vis o retorno desses impostos em forma de serviços básicos para a população.
Na velocidade em que vamos distorcendo os primados da economia, como no caso da relação entre receitas e gastos, logo seremos um país a exibir a maior carga tributária do planeta. O problema aqui, além da insistência do governo em seguir gastando além das possibilidades reais do país, é que nossa nação adentrou em um processo perigoso e rápido de envelhecimento da população, numa transição demográfica mais veloz ainda, com pessoas vivendo mais tempo e com um pequeno número de crianças nascendo.
Essa defasagem é perigosa não só para o Brasil, mas para qualquer outra nação, pois esse desequilíbrio acaba por pressionar a Previdência e a saúde pública, que representam os dois gastos mais importantes e volumosos do governo. Para aqueles que conhecem esses cálculos a fundo, chama a atenção o fato de que cada 1% no nível de envelhecimento da população está associado diretamente a um aumento maior do que 1% na carga tributária. Trata-se de uma pressão para lá de preocupante. É o caso clássico do indivíduo que envelheceu antes de garantir seu sustento na velhice, quando sua força de trabalho diminui.
A carga tributária tende a ser mais elevada em países que envelheceram mais. E isso, no nosso caso, pode ser um desastre sem precedentes. Some-se ao envelhecimento da população o fato de que apresentamos também um elevado nível de desigualdade social e econômica. Postos juntos na balança, esses problemas estruturais se transformarão no maior desafio a
ser enfrentado neste século e com sérias consequências para as futuras gerações. A grande questão, quando se pensa em equacionar toda essa aritmética enviesada do Estado, é que não se pode confiar cegamente nos dados fornecidos por qualquer instituto de pesquisa.
O que se sabe e se sente na pele é que a carga tributária consome mais de um terço de toda a riqueza produzida e segue aumentando em ritmo veloz. Com isso, a dívida bruta já ultrapassa 76% do Produto Interno Bruto (PIB). A inflação mensal e anual é o que as donas de casa sentem ao irem ao mercado. Meio quilo de café a R$ 40. Não bate com o que divulga o governo, como sendo 5,23% nos últimos 12 meses.
A taxa de fecundidade, em torno de 1,55 a 1,57 filho por mulher, está bem abaixo do nível de reposição, o que pode ser interpretado como um aviso de que os jovens não se sentem seguros com relação ao futuro, o que, naturalmente, faz cair a taxa de natalidade. Com cada vez menos pessoas contribuindo para a Previdência e com a população envelhecendo rapidamente, o Brasil tem, obrigatoriamente neste século, que resolver essa equação, sob pena de vermos a estagnação total do país a médio prazo.
Em algumas décadas, caso essa situação não se reverta, teremos mais idosos do que jovens, o que provocará a falência da Previdência tal qual a conhecemos, assim como do sistema de saúde pública. Para governos que têm como horizonte político apenas as próximas eleições, todo esse conjunto de problemas estruturais do país acabam sempre empurrados para um futuro distante.
Diante de um quadro tão complicado como o nosso, qualquer exercício de futurologia conduz-nos sempre ao pessimismo. Quer queira, quer não, toda a preparação para o futuro começa a ser feita ainda no passado, e isso é o que não temos feito. Projetos de Estado e de longo prazo não são levados a sério. Caso sigamos persistindo nessas condições, com crescimento fraco, inflação resiliente, Selic elevada por mais tempo, postergação de ajustes previdenciários/saúde, judicialização de despesas, desaceleração da execução da reforma e outros contratempos, simplesmente não há que se falar em futuro para o país e para os brasileiros, pois o que temos em mãos é a velha e conhecida vanguarda do atraso.
A frase que foi pronunciada:
“O Brasil não perde a oportunidade de perder oportunidades.”
Roberto Campos

História de Brasília
Na quadra 26 da W3 no último bloco dando para a W4, o proprietário de uma casa alugou sua residência a um guarda-móveis, e os caminhões de transporte tomam toda a rua durante quase todo o dia. (Publicada em 8/5/1962)

