O impacto psicológico das ideologias políticas na sociedade

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Não é de hoje que sabemos como as ideologias políticas estão ligadas diretamente ao nosso inconsciente coletivo. Há, de fato, elementos muito além da lógica e da razão que orientam nossas escolhas cotidianas. Nossos traumas individuais e coletivos não desaparecem com o tempo. A fome, a guerra, a ditadura, a humilhação e a perda transformam-se em medos e lealdades. Esses sentimentos atravessam gerações e aparecem na urna ou na mesa de jantar. A pergunta que se impõe é incômoda. Afinal, estamos agindo de forma consciente ou apenas repetindo padrões herdados do passado? Ademais, podemos nos libertar dessa influência inconsciente ou estamos presos numa espécie de matrix preestabelecida?

VISTO, LIDO E OUVIDO

Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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As ideologias políticas têm o poder de moldar pensamentos e comportamentos. Além disso, muitas vezes elas fazem isso de modo extremamente sutil. Elas alimentam crenças e esculpem em nós uma identidade rígida. Consequentemente, essa identidade funciona como uma programação para agir de uma forma ou de outra.

“O indivíduo, ao se fundir a um grupo, entrega ao líder e à bandeira o lugar de seu ideal de eu, e passa a sentir, pensar e odiar em coro.”

— Sigmund Freud, médico neurologista e fundador da psicanálise, em Psicologia das Massas e Análise do Eu.

Da mesma forma, em O Mal-Estar na Civilização, Freud descreveu o “narcisismo das pequenas diferenças”. Quanto mais próximos somos de alguém, mais necessitamos de um inimigo que confirme quem somos. Portanto, a polarização contemporânea é, em boa medida, a encenação pública desse mecanismo psíquico.

A projeção da sombra e as ideologias políticas contemporâneas

Carl Jung acrescentou a essa leitura a noção de sombra. Aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos não deixa de existir. Por exemplo, a agressividade, a inveja, a covardia e o desejo de poder continuam ativos. Assim, esses sentimentos são projetados diretamente no outro. O adversário passa a carregar o que há de pior em nós. Por conseguinte, combatê-lo torna-se uma forma de nunca olhar para dentro.

“O maior risco das sociedades modernas não é uma ideologia específica, mas a perda da capacidade de cada pessoa de se perceber como indivíduo.”

— Carl Gustav Jung, psiquiatra e fundador da psicologia analítica, em Presente e Futuro.

Os complexos funcionam como pequenas personalidades autônomas. Quando um debate nos faz ferver, raramente é a discussão presente que fala. Pelo contrário, trata-se de uma ferida antiga que foi tocada. Em O Eu e o Inconsciente, Jung alertava para o perigo da mentalidade de massa. Nesse estado, o indivíduo se dissolve em slogans e abdica da própria responsabilidade moral.

A individuação como resposta às amarras das ideologias políticas

É aqui que o processo de individuação se torna politicamente relevante. Individuar-se não significa isolar-se nem tornar-se apolítico. Trata-se, contudo, de tornar-se consciente dos próprios conteúdos inconscientes. Desse modo, integramos esses conteúdos para que eles deixem de nos governar às cegas.

Jung acreditava que a religião era parte essencial desse processo. Trata-se da função psíquica que nos liga ao sentido e ao transcendente. Quando essa dimensão simbólica é negada, ela não desaparece simplesmente. Em vez disso, ela migra diretamente para a política. Assim, partidos, líderes e causas passam a ocupar o lugar do sagrado. Daí surge o caráter fanático de tantas disputas atuais. De certa forma, a individuação permite ao ser humano se libertar das amarras e da hipnose proporcionada pelas ideologias políticas. Afinal, ela devolve aos símbolos o seu lugar interior e retira das figuras públicas um peso excessivo.

O método da psicanálise diante da polarização

A psicanálise oferece o método adequado para essa travessia. Em análise, aprendemos a suspeitar da própria certeza. Igualmente, aprendemos a perguntar de onde vem a intensidade de uma reação e a que história ela pertence. Esse gesto, aparentemente pequeno, é profundamente subversivo. Quem consegue dizer “sinto raiva, e preciso entender o que ela quer me dizer” já não é inteiramente capturado por ela.

“Onde estava o Id, deve advir o Eu.”

— Sigmund Freud, sobre a tomada de consciência no processo analítico.

A atenção flutuante do analista e a associação livre do paciente ajudam nesse processo. Além disso, a interpretação dos sonhos e a elaboração do luto transformam a repetição em memória. Trazido ao campo prático, isso significa que onde havia reflexo condicionado pode haver decisão consciente.

O respeito às diferenças nas escolhas e ideologias políticas

A recompensa dessa abertura mental é o respeito real às diferenças. Quem reconhece a própria sombra deixa de precisar de um bode expiatório. Do mesmo modo, quem conhece os próprios complexos desconfia do prazer de odiar. Quem integrou o medo já não o terceiriza a um salvador. Passa-se, então, a enxergar no outro um ser humano com feridas e esperanças parecidas com as nossas.

Isso não elimina o conflito, que é inerente à democracia. Elimina, contudo, a sua versão mais tóxica. Trata-se daquela em que a divergência de ideias é vivida como ameaça à própria existência. É dessa maturidade que nasce a harmonia possível numa sociedade plural. Essa harmonia não surge da uniformidade de opiniões, mas da capacidade de sustentar a tensão sem destruir o outro.

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| PASSO A PASSO PARA A LIBERTAÇÃO DAS MANIPULAÇÕES IDEOLÓGICAS          |
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| 1. Análise pessoal para examinar convicções e origens afetivas.         |
| 2. Autoconhecimento através de sonhos, escrita e contato com a arte.   |
| 3. Reflexão prévia sobre o que a indignação revela sobre nós mesmos.    |
| 4. Escuta ativa do adversário sem preparar respostas defensivas.        |
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Como praticar a libertação consciente no dia a dia

Mas como se dá, na prática, essa libertação? Em primeiro lugar, ela ocorre pela análise pessoal. Ela oferece um espaço seguro para examinar as origens afetivas de nossas convicções. Em segundo lugar, ocorre por práticas de autoconhecimento valorizadas pela tradição junguiana. Entre elas estão o registro dos sonhos, a imaginação ativa, a escrita simbólica e o contato com a arte.

Em terceiro lugar, dá-se pelo hábito de perguntar o que a indignação revela sobre nós antes de acusar o outro. Há ainda um exercício simples e raramente praticado: escutar um adversário sem preparar a resposta. Trata-se de ouvir com a curiosidade de quem tenta compreender de qual medo aquela posição foi feita. Quem faz isso descobre que muitos desacordos políticos são desacordos sobre o que cada grupo teme perder.

Esse movimento tem uma dimensão coletiva que não deve ser subestimada. Povos que viveram violência política carregam memórias não elaboradas. Por conseguinte, o que não é elaborado tende a ser repetido. Sociedades também precisam de seus processos de luto e memória. Cada indivíduo que se torna mais consciente contribui para que a história seja contada com menos idealização. Assim, as gerações seguintes herdam menos ressentimento.

O papel do ambiente digital na reprodução de ideologias políticas

O ambiente digital agrava consideravelmente esse problema. Os algoritmos premiam a indignação e aproximam apenas quem pensa igual. Além disso, eles expõem cada pessoa a estímulos desenhados para ativar medo e raiva. Em termos junguianos, trata-se de uma máquina de produzir projeções. A sombra de cada grupo é continuamente exibida no outro. Consequentemente, o complexo é acionado antes que a reflexão possa intervir.

Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo de liberdade. Quem percebe que o impulso de atacar nasce de um afeto ganha um intervalo vital. Nesse pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, a consciência finalmente pode agir.

A ética do diálogo frente às ideologias políticas

Esta travessia também pede uma ética rigorosa do diálogo.

“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas transformam-se.”

— Carl Gustav Jung, psicólogo e ensaísta.

Dialogar de verdade é aceitar o risco de ser alterado pelo outro. Isso só é possível para quem não depende da vitória para se sentir inteiro. A polarização prospera onde a identidade é frágil e precisa de inimigos. Por outro lado, o diálogo prospera onde a identidade é sólida para tolerar a dúvida. A educação e a formação política ganhariam muito se incorporassem esse aprendizado emocional aos seus conteúdos.

Há ainda um conceito junguiano essencial: a função transcendente. Quando duas posições opostas são mantidas em tensão consciente, a psique produz um terceiro elemento. Trata-se de um símbolo novo que reconcilia o que parecia irreconciliável. Politicamente, isso equivale a reconhecer que cada polo guarda uma verdade parcial. Seja o cuidado com a ordem, seja o anseio por mudança, ambas são necessidades legítimas. Quem suporta essa tensão deixa de ver o debate como guerra. Não se trata de relativismo, mas de saber que nenhuma ideologia esgota a complexidade da vida.

Autoconhecimento e cidadania ativa

Convém, no entanto, evitar um otimismo ingênuo. A libertação do inconsciente não é um estado definitivo que se conserva para sempre. Jung falava de um processo que dura a vida inteira e jamais se completa. O próprio inconsciente continuará a produzir complexos e atração coletiva. Tampouco se trata de um privilégio individual dissociado das condições concretas. Pobreza, violência e desinformação também moldam escolhas. Portanto, nenhuma psicologia dispensa instituições justas.

A individuação não substitui a política; ela apenas qualifica quem a pratica. Um cidadão consciente continuará tendo posições e valores. Ele sustentará suas ideias por convicção e não por compulsão. Assim, poderá revê-las sem sentir que perde a si mesmo. Os insights que possibilitam a libertação são dados pelo desenvolvimento da mente. Nenhum poder se sustenta apenas pela força. Ele depende da adesão emocional de quem o obedece e de medos manipulados.

“A paz social começa, silenciosamente, na paz que cada um constrói com as próprias sombras.”

— Síntese da Psicologia Analítica sobre a Vida Pública.

Uma população que aprende a reconhecer essas engrenagens torna-se bem menos manipulável. Por isso, o trabalho interior é também um ato cívico relevante. Cada pessoa que atravessa a própria sombra reduz a quantidade de ódio disponível para mobilização. É possível ao indivíduo se libertar das polarizações, entendendo libertação como o fim da servidão inconsciente. A psicologia analítica não promete uma sociedade sem conflitos. Ela propõe algo mais realista: pessoas capazes de olhar para dentro antes de apontar para fora. Num tempo em que tudo nos convida ao ódio, o gesto mais radical é parar e perguntar quem em nós está falando.