Quando produzir vira um mau negócio

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Charge do Sizar

 

Há um equívoco recorrente e perigosamente sedutor que atravessa a história econômica de países governados por projetos populistas: a crença de que é possível sustentar o Estado punindo quem produz e premiando, de forma permanente, quem não produz. No Brasil contemporâneo, esse erro não apenas se repete como se aprofunda, embalado por um discurso moralizante, que transforma empresários, empreendedores e geradores de emprego em vilões sociais, enquanto eleva a dependência do assistencialismo estatal à condição de virtude política. A lógica é simples, ainda que seus defensores insistam em negá-la: riqueza não nasce de decreto, nem do discurso, tampouco da redistribuição do que não foi produzido. Riqueza nasce do trabalho, do investimento, do risco, da inovação e da produtividade. Foge à coerência chamar um partido de trabalhador, quando quem não trabalha é enaltecido.

Quando o Estado passa a tratar esses vetores como fontes inesgotáveis de arrecadação a serem drenadas, o resultado é previsível e invariavelmente desastroso. No Brasil, tributa-se excessivamente quem trabalha, empreende e produz. A carga tributária sobre empresas é complexa, cumulativa, instável e, em muitos setores, confiscatória. Além dos impostos diretos, há contribuições, taxas, obrigações acessórias e um ambiente regulatório hostil que consome tempo, capital e energia produtiva. O empresário brasileiro não compete apenas com seus pares de mercado; compete, sobretudo, com o próprio Estado, que se comporta como sócio voraz, mas ausente nos riscos e ineficiente nas contrapartidas. Ao mesmo tempo, assiste-se à expansão contínua de programas assistenciais, benefícios e auxílios que, embora necessários, em contextos emergenciais ou de extrema vulnerabilidade, tornaram-se política permanente, desprovida de portas de saída, contrapartidas, critérios rigorosos e exigências mínimas de reinserção produtiva. O resultado não poderia ser outro: a criação de economias locais dependentes quase exclusivamente de transferências estatais, onde o trabalho formal desaparece, a mão de obra escasseia e o empreendedorismo definha. Não são poucos os municípios brasileiros em que a maior parte da renda circulante provém de programas sociais. Nessas localidades, paradoxalmente, falta gente para trabalhar até mesmo em atividades básicas. O incentivo econômico é claro: trabalhar significa perder benefícios; ter carteira assinada passa a ser um risco quando não trabalhar garante renda estável, ainda que baixa e sem exigências ou responsabilidades.

Quando o Estado estrutura esse tipo de escolha racional, não se trata mais de assistência social, mas de engenharia de desincentivo ao trabalho. Esse modelo gera uma distorção profunda no tecido social. O trabalhador produtivo passa a sustentar, por meio de impostos elevados, um sistema que o penaliza. O empresário vê seu esforço convertido em arrecadação crescente, sem retorno em infraestrutura, segurança jurídica ou serviços públicos de qualidade. O investidor, nacional ou estrangeiro, percebe rapidamente que o ambiente é hostil ao capital produtivo e procura alternativas em economias mais previsíveis e menos punitivas. Capital não tem ideologia; tem destino e ele foge de onde é maltratado. A retórica oficial costuma justificar essa política afirmando que empresas que produzem bens essenciais ou que obtêm “lucros extraordinários” devem pagar mais. Trata-se de uma visão simplista, quase infantil, da dinâmica econômica. Empresas que produzem em larga escala, que são eficientes e lucrativas, não são, em absoluto, um problema são um ativo estratégico da economia. São elas que sustentam cadeias produtivas inteiras, geram empregos diretos e indiretos, pagam salários, financiam inovação e ampliam a base arrecadatória no longo prazo.

Punir essas empresas com tributação excessiva equivale a serrar o galho sobre o qual o próprio Estado está sentado. Lucro não é crime; é sinal de eficiência. Quando o lucro é demonizado, o investimento recua, a produção diminui, os preços sobem e o desemprego cresce. O efeito final é exatamente o oposto daquele prometido pelo discurso populista: menos arrecadação, mais pobreza e maior dependência do assistencialismo. Governos irresponsáveis costumam ignorar esse ciclo porque ele não se manifesta de imediato. No curto prazo, elevar impostos e ampliar benefícios gera popularidade, sensação de justiça social e alívio momentâneo para parcelas da população. No médio e longo prazo, porém, o custo aparece de forma inexorável: estagnação econômica, fuga de capitais, informalidade crescente, deterioração fiscal e colapso dos serviços públicos. A história econômica mundial está repleta de exemplos. Países que trilharam esse caminho da Venezuela à Argentina, passando por diversas experiências africanas e latino-americanas terminaram com economias fragilizadas, moedas desvalorizadas, inflação crônica e sociedades dependentes de um Estado falido. O Brasil ainda tem tempo de corrigir a rota. Isso exige coragem política para dizer o óbvio: não há justiça social sem crescimento econômico; não há crescimento sem investimento; não há investimento sem respeito a quem produz. Tributar de forma racional, simplificar o sistema, incentivar o trabalho e transformar o assistencialismo em ponte e não em destino são medidas urgentes, não ideológicas. Ignorar essa realidade pode render aplausos no presente, mas custará caro no futuro. E o futuro, ao contrário do discurso, não perdoa populismos nem irresponsabilidades.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A única coisa que você não pode reciclar é o tempo perdido.”

Taiichi Ohno

Taiichi Ohno. Foto: qad.com

 

História de Brasília

Não é Festa do Candango. É Festa dos Estados, patrocinada pela Casa do Candango. Quem fôr ao Ceará, faça logo suas encomendas para que a nossa barraca possa ser a atração que foi no ano passado. (Publicada em 13.05.1962)

Muito além do Bolsa Família

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam)

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Foto: agenciabrasil.ebc.com

 

Como não poderia deixar de ser, vem aí o novo Bolsa Família. Dessa vez com a cara e a digital do governo Bolsonaro. A fórmula repete a receita que vem sendo feita desde a criação desse tipo de programa social. A cada novo governo o programa ganha as matizes ideológicas juntamente com o conteúdo programático e político do novo ocupante do Executivo.

Apenas por essa faceta, é possível afirmar, entre outras coisas que, o programa social, concebido no governo Fernando Henrique como Bolsa Escola e que visava garantir, por meio de uma renda mínima que crianças e adolescentes não abandonassem os estudos e a escola, fosse sendo mudado, para atender a orientação ideológica de cada governante e não para atender a um problema específico que determinou sua criação.

No governo Lula, que assumiu o poder sem sequer um programa de governo, depois de várias tentativas erráticas no campo social, resolveu absorver o programa e amarrá-los à outros, criando o Bolsa Família, mais abrangente e por isso mesmo, mais interessante aos propósitos daquele governo. Esse foi, sem dúvida o grande “achado” do primeiro mandato de Lula e talvez seu passaporte para mais quatro anos, apesar do mega escândalo do Mensalão.   Do mesmo que fizeram com a CPMF, que inicialmente seria para socorrer, por tempo limitado, o caixa do Tesouro, a extensão desse programa, criticado por uns e louvado por outros, foi sendo reeditado para servir de tapa buraco dos cofres públicos. O mesmo parece vai acontecendo com o antigo Bolsa Escola. Chamado, em diversas ocasiões, de programa populista pelo próprio Lula, foi a tábua de salvação de seu governo e da sua sucessora.

Com Dilma instalada no Palácio do Planalto o Bolsa Família foi ampliado até as raias da irresponsabilidade, desde que rendesse dividendos políticos ao grupo no governo. Como ocorre com todo o programa federal, num país continental e onde a fiscalização e a probidade administrativa são sempre exceções às regras, o Bolsa Família se transformou num poço sem fundo, sorvedor de recursos dos pagadores de impostos e um exemplo acabado de irregularidades de todo o tipo, além de ser um cheque em branco entregue nas mãos de maus políticos, para eles arregimentem eleitores com base em critérios subjetivos e utilitaristas.

Em editorial passado foram listados alguns exemplos de mau uso desse programa em todo o país, inclusive apontando casos em que o dono da cachaçaria da esquina ficava, ele mesmo, com o cartão Bolsa Família de alguns de seus frequentes fregueses, como garantia contra calotes. É óbvio que em meio à inúmeras distorções, esse é ainda considerado um dos maiores programas sociais de distribuição de renda de todo o planeta e, por isso mesmo, não pode ser desprezado por nenhum político, principalmente por qualquer candidato e principalmente pelos presidentes da República.

De fato, qualquer político que ouse decretar o fim desse programa, terá que sofrer as consequências dessa decisão. A primeira e mais danosa seria justamente a sua não eleição e condenação política por parte de milhões de brasileiros que vivem sob o abrigo desse programa e não tem nem pressa, nem vontade própria de abandoná-lo tão cedo.

Com Bolsonaro o programa poderá mudar de nome, passando a ser chamado de Renda Brasil. Será, estrategicamente, ampliado também, com a inclusão de vários benefícios, como o décimo terceiro salário (já pago nesse ano) e outros avanços, como um aumento significativo no orçamento do programa. Dessa maneira Bolsonaro pretende atender a mais brasileiros, com vistas a criar também um marco social e próprio ao atual governo, atendendo e atingindo, ainda mais, as regiões mais pobres do país, como o Nordeste, onde o governo não possui ainda uma base política bem assentada e fiel.

Fica, dessa maneira, confirmada a tese de que esse é um programa que veio para ficar, não apenas por sua abrangência e necessidade social, mas sobretudo por sua importância estratégica e política para esse e qualquer outro governo que venha.

 

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Começar a trabalhar para perder Bolsa Família? Jamais!”

Entrevistada não identificada na cidade de Buritirama, na Bahia.

Charge do Sizar

 

 

Mais empregos

Está prometido e a parceria assinada. Governador Ibaneis se empenha para trazer a CAB Motors, que fabricará o Jeep Stark no DF. A produção é 100% nacional. A Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) de um terreno de 70 mil metros quadrados no Polo JK, em Santa Maria, foi assinada ontem pelo governador em exercício, Paco Britto, e pelo presidente da Terracap, Izidio Santos, no Palácio do Buriti.

Foto: Renato Alves / Agência Brasília

 

 

Reconhecimento

Faz sucesso a ONG Casa Azul Felipe Augusto. Foi eleita, em 2018, como uma das 100 melhores ONGs do Brasil. Daise Lourenço, abatida pela tristeza da perda do filho, levantou da dor para transformar mais de 33 mil vidas que já passaram por ali desde 1989. Samambaia tem uma dívida de gratidão com dona Daise.

 

Mau gosto

Interessante o desvirtuamento da discussão sobre o mau gosto de transformar Jesus Cristo em gay. Quem condena essa iniciativa é taxado de homofóbico por não aceitar uma versão homossexual de um Deus. Diz a lei que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, garantida, na forma da lei, a proteção às suas liturgias”.  Quando a liberdade de expressão toca na alma de um povo, o “artista” pode até ser enxotado pela porta dos fundos.

 

 

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

A torre em frente ao Cine Brasília está se tornando uma “obra de igreja”. Nunca vi demorar tanto, e já desmancharam duas vezes. (Publicado em 13/12/1961)