Mercado oscila apreensivo em dia de Copom e de decisão do Fed

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ROSANA HESSEL

Em dia de decisão conjunta dos comitês de política monetária dos bancos centrais do Brasil (Copom) e dos Estados Unidos, a Bolsa de Valores de São Paulo, abriu as negociações desta quarta-feira (22/3) dando sinais de que os agentes do mercado estão bastante apreensivo. Na abertura, operou no vermelho, mas oscilou com bastante até voltar para o campo positivo, andando de lado. Enquanto isso, o dólar segue em alta sobre o real.

O Índice Bovespa (IBovespa), principal indicador da B3, chegou a atingir a mínima do ano de 100,3 mil pontos, em meio às notícias de nova queda no preço dos combustíveis, o que fizeram os papeis da Vibra, liderando as perdas, mas com as ações da Petrobras também negociadas com desvalorização nos preços. Por volta das 12h40, o IBovespa voltou para o campo positivo, com alta de 0,07%, a 101.071 pontos, com os papeis das construtoras EZTec e MRV liderando os ganhos. Já o dólar avançava 0,36%, cotado a R$ 5,26 para a venda.

Em clima de nova “Super Quarta”, devido às decisões do Copom e do Fomc, nos Estados Unidos, o mercado está mais apreensivo sobre como o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), vai reagir ao clima de incerteza gerado após a quebra dos bancos Silicon Valley Bank (SVB), da Califórnia, e do Signature Bank, de Nova York. A expectativa é de que o Fomc reduza o ritmo de alta dos juros para 0,25 ponto percentual, elevando da taxa para o intervalo de 4,75% a 5% ao ano, maior patamar desde 2007.

As perspectivas de uma nova crise de crédito no mundo está deixando os agentes financeiros preocupados. No Brasil, o consenso entre analistas do setor financeiro é de manutenção da taxa básica da economia (Selic), que está em 13,75% ao ano, desde agosto do ano passado, e deve continuar nesse patamar mesmo com todas as pressões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pelo menos, até junho, na melhor das expectativas. Isso porque o novo governo ainda não mostrou a que veio na área econômica e bate cabeça para dar um sinal de que vai conseguir desenhar um bom arcabouço fiscal para substituir a âncora fiscal vigente, o teto de gastos — emenda constitucional que limita as despesas pela inflação do ano anterior — está capenga, porque vem sendo alterada desde 2019.

Apesar de não conseguir antecipar o anúncio do novo arcabouço fiscal, o ministro da Fazenda aproveitou, ontem, o evento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para engrossar o coro de críticas do governo aos juros e afirmou que há “gordura” para queimar.  “Estamos na expectativa de convergência da política monetária para que possamos utilizar essa gordura de juros elevados em benefício de um programa sustentável de desenvolvimento, com baixa inflação”, disse. A instituição financeira aproveitou a semana do Copom para colocar ministros e economistas, incluindo o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, centrando fogo cerrado sobre a atual política monetária durante os dois dias de evento. Além de Lula, que não economiza o verbo para atacar os juros e o Banco Central sempre que tem oportunidade, até mesmo o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que evita fazer declarações polêmicas, não poupou críticas ao nível dos juros reais (descontada a inflação) durante o evento do BNDES, ontem, no Rio de Janeiro, realizado em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Em artigo publicado, ontem, em uma agência de notícias, Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, destacou que as condições financeiras para a economia brasileira se deterioraram desde o ano passado. E, diante desse quadro, com disponibilidade de crédito mais restrita e com perspectivas de inflação desancoradas e acima do teto da meta, de 4,75%, manteve a previsão de manutenção da Selic no Copom de hoje, em linha com o consenso das apostas do mercado financeiro.

Para o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal, também espera que o Banco Central manterá os juros nesta reunião, mas poderá dar uma sinalização de quando iniciará o ciclo de queda. “Acho que o Copom de hoje vai ser um preparador de terreno para o início da queda de juros. Talvez seja menos assertivo do que seria no caso de já termos um novo arcabouço fiscal. Mas, mesmo assim, acho que o terreno para a redução dos juros vai começar a ser preparado hoje”, afirmou.

Vicente Nunes