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Leilão do Tesouro fracassa em dia de escândalo da cueca de vice-líder

Publicado em Economia

ROSANA HESSEL

 

Em meio ao escândalo do vice-líder do governo Jair Bolsonaro, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), flagrado pela polícia com dinheiro na cueca, tensão no mercado externo e aumento das incertezas sobre o avanço de reformas neste ano e sobre a capacidade do governo em controlar o aumento expressivo da dívida pública, o leilão do Tesouro Nacional, marcado para esta quinta-feira (15/10) foi um fracasso.

 

De acordo com analistas, o Tesouro tentou empurrar para o mercado um volume grande de LFTs, títulos pós-fixados indexados à Selic, taxa básica da economia, também conhecidos como Tesouro Selic. O leilão foi o primeiro após a ação coordenada entre o Banco Central e o Tesouro com o objetivo de tentar reduzir a inclinação dos juros futuros, que continuam elevados devido ao aumento da desconfiança no governo e no ímpeto gastador do presidente Jair Bolsonaro para buscar as reeleições em 2022, que pode colocar em risco o teto de gastos — emenda constitucional que limita o aumento das despesas à inflação do ano anterior.

 

O órgão decidiu colocar LFTs de prazo mais curto, para 2022, em meio ao estresse recente nesse mercado, mas, mesmo assim não atraiu demanda.  A oferta foi de até 1 milhão de títulos com vencimento em 2022 e em 2027, podendo chegar a 2 milhões no total.

 

Conforme o relatório do Tesouro, a venda das LFTs somou foi de 383,2 mil, ou seja, 38,3% do total ofertado, sendo 176,7 mil, expirando em 2022, e 206,5 mil, vencendo em 2027. Os prêmios foram de 0,08% e de 0,23%, respectivamente.  A Selic está em 2% ao ano e vem perdendo para a inflação acumulada em 12 meses, de 3,14% até setembro, ou seja, quem tem esse papel está tendo prejuízo mesmo com esse adicional.

 

“A demanda por LFT está caindo desde o ano passado, devido à piora no cenário fiscal e com a redução da taxa Selic, que tem rentabilidade real (descontada a inflação) negativa”, explicou o economista Sérgio Goldenstein, analista independente da Omninvest e ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do Banco Central (BC). Ele lembrou que a falta de atratividade das LFTs tem feito com que a participação desse papel na dívida pública venha encolhendo desde 2018, passando de 49% naquele ano, para 26% até julho de 2020.

 

Eduardo Velho, estrategista da JF Trust, destacou que hoje foi “um dia típico de aversão ao risco, capitaneado no exterior e que influenciou a alta do dólar e dos juros futuros no Brasil também”. “Além disso, a questão da fonte de financiamento (remanejamento de alguma despesa do orçamento) para o Programa Social Renda Cidadã ainda não foi definida. De fato, não foi um bom dia para o leilão primário”, destacou .

 

Prefixados

 

Outros dois papéis foram ofertados no leilão de hoje: LTN (prefixado) e NTN-F (prefixado com juros semestrais) Os vencimentos variavam de 021 a 2031. A oferta de LTN somou 34,2 milhões unidades e foram vendidas 28,09 milhões, o equivalente a 82,13% do oferta. As taxas variaram de 3,04% a 6,14%, ao ano, entre os vencimentos de 2021 até 2024. Já o volume ofertado de NTN-F foi de 380 mil e a demanda somou 280,85 mil, ou seja 73,9%. As taxas contratadas variaram de 7,26% a 7,97% anuais para os papeis com vencimentos em 2027 e 2031, respectivamente.

 

Os títulos prefixados têm maior procura, porque os riscos fiscais estão aumentando e há uma expectativa de que o Banco Central volte a subir a Selic se o quadro fiscal piorar. Não há um consenso, mas aumentam as apostas no mercado de que a taxa básica atingiu o seu piso e, portanto, não deverá cair mais, apesar de o BC não deixar muito claro isso. “O BC precisa ser mais claro em seus comunicados, porque não há mais espaço para cortes na Selic e é preciso que ele transmita maior transparência”, destacou Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC).

 

“Os juros para os títulos prefixados com prazos mais longos estão altos e, quando o mercado cobra mais de 7,5% para os papéis vencendo em 2027, está embutindo uma taxa Selic de 9,5% ao ano no longo prazo”, explicou Goldenstein. “A curva está extremamente inclinada e isso é resultado do aumento dos riscos fiscais”, resumiu.