Correio Econômico: Eleitores de olhos bem abertos

Publicado em Economia

Os eleitores são sábios. O recado que deram por meio das urnas foi eloquente. Não querem mais o modelo tradicional que imperou na política. Isso ficou evidente, sobretudo, na renovação histórica do Congresso, com a expulsão de caciques das decisões que movem o destino do país — muitos deles, se ressalte, denunciados por corrupção. Por maiores que sejam as dúvidas sobre a capacidade do futuro Legislativo de atender as demandas da população, o novo reascende a esperança daqueles que torcem por um Brasil melhor.

 

O Congresso chegou a um nível insuportável de descrédito. Em vez de legislar em prol da maioria, sempre privilegiou um pequeno grupo afeito à corrupção. Num país com tanto por se feito, não há mais espaço para essa política do atraso. É inaceitável que parlamentares eleitos para representar o povo sejam indiciados pela polícia por todo tipo de crime. Chegou-se ao cúmulo de termos deputados propondo leis durante o dia e passando a noite na cadeia. Tivemos de assistir, atônitos, pela tevê, a Operação Lava-Jato fazendo buscas e apreensão em gabinetes da Câmara e do Senado. Como ter o respeito da população? Como acreditar nesse sistema podre, nessa velha política?

 

Apesar de todo alento que as eleições do último domingo trouxeram, é preciso ficar muito atento. Teme-se que, por meio de caras novas, o Congresso não só mantenha as práticas nefastas que são históricas, mas, também, impulsione uma onda conservadora que pode pôr fim a avanços importantes. Projetos nesse sentido não faltam no Legislativo. Felizmente, nos últimos anos, todas as tentativas de retrocesso foram barradas pelo bom senso de minorias que gritaram muito alto. Contudo, em meio à onda radical que atormenta o país, qualquer descuido pode ser fatal.

 

Força da coalizão

 

É com esse novo Congresso que o futuro presidente da República terá de governar. Não à toa, economistas, empresários e investidores estão mapeando qual será o tamanho da força que o eleito em 28 de outubro terá para levar adiante projetos de extrema importância para tirar o Brasil do atoleiro. Nenhum dos dois candidatos escolhidos para o segundo turno demonstra ter maioria. O PT de Fernando Haddad e o PSL de Jair Bolsonaro terão as duas maiores bancadas da Câmara dos Deputados. Mas precisarão suar a camisa para montar uma coalizão consistente, dada à fragmentação das legendas.

 

A expectativa é de que o eleito consiga, ainda no primeiro ano, aprovar as duas principais reformas: a da Previdência Social e a tributária. Se conseguir, terá todas as condições para retomar o crescimento econômico, reverter o desemprego e reduzir as desigualdades sociais que só fazem aumentar. Os especialistas dizem, porém, que todas as mudanças terão de ser feitas ainda no primeiro ano, sob o risco de o descrédito minar a força que todos os governantes costumam ter em início de mandato. Exemplos para isso não faltam.

 

Pelos cenários traçados por Carlos Thadeu Filho, economista sênior do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), se o futuro presidente conseguir reformar o regime previdenciário e o sistema tributário na primeira parte de seu mandato, poderá manter, tranquilamente, o teto que limita o aumento de gastos públicos até 2021. Será um desgaste a menos. Também não terá de se preocupar com a inflação e os juros, já que o teto dos gastos funciona como uma âncora para o Banco Central. Ao limitar o crescimento das despesas pela inflação do ano anterior, o teto indica ao BC que não há risco de deterioração fiscal.

 

Juros e inflação

 

Por mais apoio popular e do Congresso que o próximo presidente da República venha a ter, é certo que ele lidará com inflação e juros maiores. O tamanho do custo de vida e da taxa básica (Selic) dependerá, porém, das políticas que serão adotadas na economia. No cenário base projetado por Thadeu Filho, em que toda a base da atual política macroeconômica será mantida, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará em 4,6% e a Selic saltará dos atuais 6,5% para 8,5% ao ano. Nada que não seja controlável.

 

O importante, ressalta o economista, é que não se cometa erros, que o futuro presidente não embarque em aventuras. O mercado financeiro está acreditando que é mais seguro seguir com Jair Bolsonaro no comando do país, mesmo ele não tendo sido testado em nenhum cargo administrativo. Tanto que a Bolsa de Valores subiu mais de 4% ontem e o dólar cedeu para R$ 3,77. Apesar de rejeitado pelos donos do dinheiro, Fernando Haddad tem a plena consciência de que, com a inflação sob controle e os juros baixos, poderá retomar as políticas sociais executadas durante os governo de Lula, que engrossaram o mercado de consumo em quase 50 milhões de pessoas.

 

Diante de tantas expectativas, é importantíssimo que Bolsonaro e Haddad aproveitem as próximas três semanas para explicitarem o que pretendem fazer na economia. Até agora, nenhum dos dois teve a preocupação de mostrar aos eleitores os programas de governo para fazer o país crescer novamente, gerar empregos e distribuir renda. A renovação no Congresso é um sinal eloquente de que ninguém aguenta mais todas as mazelas que se arrastam desde 2014, quando o Brasil mergulhou na mais severa recessão da história.

 

Brasília, 06h33min

8 thoughts on “Correio Econômico: Eleitores de olhos bem abertos

  1. Mas hoje a Folha de SP soltou 9 nomes cotados para fazer parte da equipe de governo de Boçalnaro. Tem 2 generais, 3 empresários sendo 1 ruralista, 1 astronauta e 1 deputado federal, claro o sr. Paulo Guedes e o sr. Gustavo Bebbiano, que vem a ser o presidente do seu partido, o PSL. Um dos empresários é o sr. Stravos Xanthopoylos, cotado para assumir o Ministério da Educação. Xanthopoylos é diretor de relações internacionais da Associação Brasileira de Educação à Distância (ABED) e ex-integrante da FGV. Ensino à distância? E ainda tem gente que duvida que Bolsonaro não propôs ensino à distância até para o ensino fundamental. Me engana que eu gosto, vai! Olha, pelo andar da carruagem ele vai chamar mais empresários para compor sua equipe e não é à toa que essa classe (empresários) são os que mais apoiam Boçalnaro. E ainda tem gente que acredita que ele vai beneficiar o povo…… Santa ingenuidade!!!!!!

  2. Elena, interessante sua colocação. É uma situação nova com empresários, mas com políticos a coisa é um desastre. Lembra de um certo problema na pasta do Trabalho? É necessário esse risco para ver a que lado nosso país pretende ir.

    1. Se fosse assim como vc diz SP deveria estar às mil maravilhas com um secretariado carregado de empresários, mas no entanto, não está. O problema não é ser empresário, mas a sua ficha “limpa”. Vide o provável indicado para Ministro da Agricultura, sr. Nabhan Garcia, que é presidente da UDR: “Em 2005, o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Terra, deputado João Alfredo (PSOL – Ceará) pediu o indiciamento de um grupo de pessoas, dentre as quais o presidente da UDR, Luiz Antônio Nabhan Garcia, por apropriação ilegal de terra pública, falso testemunho e ameaça. Além dos indiciamentos, o relator pediu que o Ministério Público de São Paulo apurasse o possível envolvimento da UDR com milícias privadas no Pontal do Paranapanema”. Pois é, empresários são ferrenhos defensores do estado mínimo, mas adoram dinheiro público……

  3. E a última notícia de Boçalnaro que pra mim não é novidade nenhuma: ele apresentou de novo um atestado médico para justificar sua não participação do debate na TV Band na sexta-feira. Motivo alegado no atestado: é para que o sr. Boçalnaro não se estresse. Oh! Coitado!!! Até quando ele vai ficar dando uma de fujão? Mas acho que ele vai participar do debate na TV Record, pois o seu dono, pastor Edir Macedo, deve garantir um debate bem “doce” para Boçalnaro e na base da cacetada para Haddad. Motivo: Boçalnaro prometeu para Edir Macedo que, se eleito, vai ser generoso nas suas concessões de verbas publicitárias para a TV Record. Esse foi o acerto selado entre os dois em função da entrevista que Boçalnaro deu para a Record no mesmo dia e horário em que houve o último debate na Globo entre os presidenciáveis. Pois é, e ainda tem gente que diz que Boçalnaro é “diferente”…..

    1. Já que o atestado médico diz que até o dia 18 Boçalnaro não tem condições físicas de participar do debate a TV Band mudou a data para o dia 19. Agora vai, né? E Haddad já disse que ele se dispõe a debater até em uma enfermaria. Grande Haddad! Boçalnaro não tem como fugir. Vai ter que enfrentar o tranco.

      1. E os internautas tiveram uma brilhante idéia: estão marcando um debate na casa do Boçalnaro! Agora não tem como escapar…. Boçalnaro não vive dando entrevistas na casa dele, no hospital para jornalistas, TVs e jornais? Então, já que os médicos deram atestado médico dizendo que ele não pode ir aos debates nas TVs, os internautas estão marcando os debates na casa dele! E Haddad disse que vai até na enfermaria……

        1. Cai por terra essa desculpa de Boçalnaro de que não pode participar do debate da Band no dia 12 por ordens médicas. Ocorre que Boçalnaro fará um ato público de campanha no dia 11. Boçalnaro está convocando 380 deputados federais e estaduais eleitos pelo seu PSL e partidos próximos para um ato público nesta quinta-feira, 11, no Hotel Windsor, na Barra; a hashtag #BolsonaroCagao liderou os assuntos mais comentados do Twitter no mundo. PS: uma vez que Boçalnaro não pode participar dos debates da Band e da Rede TV no dia 15, as 2 emissoras cancelaram os debates. Isso significa prejuízo aos eleitores que vão votar no escuro porque não vão conhecer as propostas de Boçalnaro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *