Confiança do consumidor continua em baixa e saque de FGTS vai ajudar pouco

Publicado em Economia

ROSANA HESSEL

Economia fraca e desemprego elevado não são estímulos para o consumo, até mesmo para o trabalhador que tem a sorte de estar com a carteira de trabalho assinada nesses tempos bicudos. Além disso, as incertezas políticas em relação ao clima da retomada dos trabalhos do Congresso após o fim do recesso em agosto, também não colaboraram para uma retomada mais forte dos indicadores econômicos, principalmente, a confiança. Nem mesmo com a liberação dos saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) vai ajudar a reverter esse quadro, porque o impacto deverá ser pequeno na atividade pelas contas dos analistas. 

 

A confiança do consumidor está erodindo, como mostram dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgados nesta quarta-feira (24/07). A instituição registrou nova queda no Índice de Confiança do Consumidor (ICC) para “os níveis mais baixos da série histórica”. Esse dado ajuda a confirmar as previsões do mercado de que o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano está empacado e terá uma expansão abaixo da taxa de 1,1%, registrada em 2017 e em 2018. Logo, não será fácil para o país retomar o rumo, com taxas de crescimento sustentáveis, ou seja, duradouras.  

 

De acordo com analistas, a liberação dos saques do FGTS, que será detalhado na tarde desta quarta-feira pela equipe econômica, terá um impacto bem pequeno no PIB deste ano. O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, por exemplo, prevê um estímulo de 0,1 ponto percentual no PIB, o elevaria a previsão dele para o avanço da atividade econômica deste ano de 0,5% para 0,6%. “Essa medida tem efeito limitado como ficou evidenciado no passado, durante o governo Michel Temer, que usou o mesmo expediente para turbinar a economia via consumo”, destacou.

 

Conforme os dados da FGV, o ICC recuou 0,4 ponto em julho, para 88,1 pontos. Em médias móveis trimestrais, o indicador teve a quinta queda consecutiva, acumulando perda de 7,5 pontos, ficando abaixo do patamar de 100 pontos, e voltando ao patamar antes das eleições.  Essa queda na confiança ocorreu em todas as classes de renda, exceto para os consumidores com renda familiar mensal superior a R$ 9.600. As famílias com menor poder aquisitivo (com renda média até R$ 4.800) são as com menor nível de confiança e menos otimistas com o futuro.

 

Erosão

 

A falta de confiança do consumidor dificulta a retomada da economia e não permite que o empresário invista. A prova disso é um dado recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrando que a preocupação com a demanda fraca não para de crescer entre os empresários e isso, obviamente, desestimula o investimento, que é a principal mola para o crescimento econômico sustentável. Em primeiro lugar das preocupações do ranking da Sondagem Industrial da entidade, está a elevada carga tributária, com 42,4% das menções, seguida da demanda interna insuficiente com 41,1% das respostas da pesquisa. Outro dado publicado anualmente pela Universidade Cornell, pelo Insead e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o Índice Global de Inovação (IGI), mostra que o Brasil perdeu duas posições nesse ranking dos países mais inovadores do mundo. Passou da 64ª para a 66º colocação em uma lista de 129 países.

 

“A erosão da confiança dos consumidores e das empresas, nos últimos meses, provavelmente está ligada ao ruído político persistente, à incerteza em meio ao crescimento moderado e à dinâmica do mercado de trabalho”, resumiu o economista Alberto Ramos, do diretor do Goldman Sachs, em comunicado divulgado há pouco.

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu, ontem, a sua projeção de crescimento do PIB brasileiro alegando piora considerável na confiança. A taxa de expansão estimada passou de 2,1% para 0,8%, ficando abaixo da mediana do mercado, de 0,82%. Um dado positivo de ontem veio da inflação, que está comportada e bem abaixo do centro da meta deste ano, de 4,25%, a necessidade de estímulos de curto prazo para que a economia volte a crescer torna-se visível. O IPCA-15 acumulado em 12 meses até a primeira metade de julho está rodando em 3,27%. Não à toa, aumentam as apostas de que o Banco Central será mais agressivo e cortará a taxa básica da economia (Selic) em 0,5 ponto percentual, para 6% anuais, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) nos dias 30 e 31 deste mês. 

 

Contudo, há uma preocupação em relação ao governo e sua falta de articulação política, que pode atrapalhar o processo de recuperação da economia. Apesar de alguns analistas evitarem tocar no assunto, eles reconhecem que as declarações desastrosas do presidente Jair Bolsonaro em relação aos governadores do Nordeste e a insistência em colocar o filho Eduardo para comandar a Embaixada dos Estados Unidos, na contramão dos costumes da diplomacia tradicional, podem sim gerar crises desnecessárias na relação entre o Legislativo e o Executivo nesta segunda metade do ano. Resta ver como é que o chefe do Planalto vai se comportar nos próximos meses para que as projeções de crescimento do PIB em 2020 parem de cair. Algumas já estão abaixo de 2%.